[LIVRO] As Tumbas de Atuan, de Ursula K. Le Guin (resenha interpretativa)

Antes mesmo que pudesse escolher, Tenar tornou-se Arha, a Sacerdotisa Única, responsável por guardar as Tumbas de Atuan, domínio dos Inominados, e último lugar onde foi avistado o Anel de Erreth-Akbe, atrás do qual está Ged, um mago vindo das regiões centrais de Terramar.

O parágrafo acima está longe de fazer jus à profundidade de As Tumbas de Atuan, o Livro 2 do Ciclo Terramar, iniciado em O Feiticeiro de Terramar (resenhado aqui), uma das obras mais fascinantes e aclamadas de Ursula K. Le Guin.

Com seu estilo de escrita ímpar, Le Guin estabelece, logo no início da obra, de maneira sucinta e poética, os temas de que tratará em “Atuan“: a perda do livre arbítrio; a imposição de um destino não escolhido pelo indivíduo; a submissão das mulheres numa sociedade regida por um Rei-Deus; e a influência disto tudo sobre Arha, cujo primeiro nome foi tomado dela aos seis anos de idade, para que assumisse uma nova identidade. Tudo isto Le Guin conseguiu abordar com uma economia de palavras que impressiona pela precisão e profundidade de significados. A leitura flui com uma naturalidade exemplar. E aqui cabe elogios a Vera Ribeiro, tradutora do livro, que fez um trabalho brilhante. A escrita elegante e excepcionalmente bem estruturada de Le Guin foi muito bem traduzida e adaptada por Vera.

Outras questões abordadas no começo do livro são a doutrinação e a lavagem cerebral que Arha sofre durante os anos em que é preparada para assumir o papel de Sacerdotisa Única. É curioso como Le Guin cria um contraponto a isto, desde cedo deixando claro que tais “estratégias” para “devorar” Tenar não são o bastante para conter a chama de sua rebeldia, que às vezes leva a sacerdotisa a tomar atitudes que desafiam as regras da ordem religiosa que “devorou” sua identidade de nascença, substituindo-a por Arha, a Devorada. Ainda há o agravante de seu papel exigir que ela viva isolada das demais sacerdotisas e aprendizes, o que torna sua revolta maior, e sua submissão mais dolorosa. Essa dor é retratada muito bem no fim do capítulo 2, quando Arha sofre pelas consequências de um de seus atos de rebeldia.

Ursula preocupou-se em destacar a solidão resultante de uma posição de poder, temível por outros indivíduos igualmente poderosos, e o impacto dela sobre Arha, cuja adolescência nas Tumbas de Atuan é marcada pela rotina, o tédio e a apatia (“O tédio era tão intenso às vezes que dava uma sensação de pavor: segurava-a pela garganta.” – página 34). Com isto nos identificamos facilmente com seu drama, e sentimos alívio quando Arha é aconselhada ou recebe a atenção e o carinho de Maman, seu velho guardião eunuco, única “figura paterna” no cenário desolador onde vive.

Arha e Penthe (arte de Astrid Nielsch)

Outra personagem com quem Arha nutre um relacionamento mais afetuoso é Penthe, sua única amiga e confidente. A garota de personalidade arredia serve de contraponto à rigidez de Arha, cujo papel exige um respeito maior às tradições e regras impostas pela religião que representa como serva dos Inominados. Isto cria um vínculo entre elas, pois a falta de fé de Penthe faz Arha questionar alguns pontos da sua crença:

– Ah, eu sei que os Senhores são muito importantes para você, – disse [Penthe], com uma indiferença que chocou Arha. – Faz certo sentido, afinal, porque você é a serva especial deles. Você não foi apenas consagrada, nasceu especialmente. Mas olhe para mim. Esperam que eu sinta tanto assombro e não sei mais o quê a respeito do Rei-Deus? Afinal, ele é apenas um homem, mesmo que more em Awabath num palácio de 15 quilômetros quadrados com telhado de ouro. Ele tem uns 50 anos e é careca. Isso se vê em todas as estátuas. E aposto que precisa cortar as unhas dos pés, como qualquer outro homem. Sei perfeitamente que ele também é um deus. Mas o que eu acho é que vai ser muito mais divino depois que estiver morto.

Página 48

Uma das crenças que se destacam no livro é a reencarnação, usada como justificativa para a seleção de Arha como Sacerdotisa Única. O fato de Arha ser a reencarnação da Sacerdotisa Única anterior é lembrado constantemente, dando a sua história um tom de fatalidade. É como se Arha estivesse presa numa “rede” de reencarnações e profecias que a tornaram eterna serva dos Inominados:

Às vezes tinha a impressão de se lembrar. Os lugares escuros sob a colina lhe eram muito conhecidos, como se fossem não apenas seu domínio, mas seu lar. Quando aspirava os vapores inebriantes para dançar nas trevas da lua, sua cabeça ficava leve e o corpo deixava de ser o seu. Então ela dançava através dos séculos, descalça com suas vestes negras, e sabia que a dança nunca havia parado.

Página 53

Por não conhecer plenamente seus domínios, Arha sofre de ansiedade, angústia e revolta, o que combina com o período de sua vida retratado por Ursula, que possivelmente usou tais problemas como analogias para a eclosão hormonal da adolescência, como a menstruação, entre outros problemas típicos da idade da personagem, dando uma camada a mais de significado para o livro.

A relação de Arha com a escuridão das tumbas e seus demais domínios me remeteu ao embate de Ged contra a Sombra em O Feiticeiro de Terramar (“Este lugar é meu, faço parte daqui. Não vou sentir medo!” – página 39). Isto tornou o papel de Arha mais significativo, pois ela, que sempre conviveu com a escuridão, mais tarde conhece alguém que enfrentou um aspecto sombrio de si mesmo.

Aquele era o próprio lar das trevas, o centro mais interno da noite.

Página 40

Há algo de uterino e maternal na relação de Arha com as tumbas. Acompanhá-la explorando seus domínios parece fazer referência ao conceito do “abismo” do não-ser (uma crença compartilhada por muitos). Mas há também uma lição que podemos retirar disto: a de encarar um medo e domá-lo, para sobreviver e cumprir uma missão.

As explorações de Arha na escuridão total das tumbas também remetem ao conceito de fé cega, além de ser uma alegoria daqueles que se deixam envolver por uma religião cujos princípios foram mais impostos do que racionalmente aceitos e incorporados pelo indivíduo em sua conduta. Tateando no escuro, Arha parece buscar seu próprio caminho, e um destino além daquele que lhe foi imposto:

Dia após dia, ela foi lá, sempre entrando pelo alçapão da sala atrás do Trono, até conhecer bem todo o circuito da caverna, com suas estranhas paredes esculpidas – tão bem quanto é possível conhecer aquilo que não se pode enxergar.

Página 50

Apenas no fim do capítulo 4, depois de mais de 50 páginas focadas na vida de Arha, é que os magos são mencionados, preparando o caminho para a aparição de Ged, que invade as Tumbas em busca de seu mais poderoso tesouro: o Anel de Erreth-Akbe. Claro que isto gera um conflito entre Arha e Ged, o qual move a segunda metade do livro. Enquanto Arha tenta proteger os segredos dos Inominados, os misteriosos deuses que venera, como Sacerdotisa Única; Ged busca decifrá-los atrás do Anel, que ele considera seu direito reivindicar. Por tudo ocorrer nas cavernosas Tumbas de Atuan, o conflito entre eles tem um aspecto mais intimista. É um embate mais psicológico do que físico.

O primeiro encontro de Arha com Ged (arte de Astrid Nielsch)

Inicialmente, Arha parece usar Ged para “descontar” nele a tortura psicológica pela qual passou antes de conhecê-lo, torturando-o nas tumbas antes de aprisioná-lo e interrogá-lo. Também vale notar que ela, a Devorada, passa a agir como “devoradora” dos conhecimentos do mundo exterior que Ged traz consigo. Le Guin foi hábil em expôr o fascínio que Ged desperta em Arha, que por toda vida teve uma existência quase que “intrauterina” nas tumbas. Em Ged, ela encontra uma forma indireta de explorar o mundo além da clausura onde viveu, por meio dos relatos do mago, mesmo que inicialmente ela relute em acreditar nele. A fome de Arha por histórias de Terramar torna o mago uma presa da Devorada.

Arha interrogando Ged na Sala Pintada das Tumbas (arte de Astrid Nielsch)

Mesmo após sua aparição na história, Ged não “rouba” o protagonismo do livro para si. Arha continua como personagem central, e seus dilemas diante do destino de seu prisioneiro é o foco da narrativa, assim como seus conflitos com suas crenças e com Kossil, a Suma Sacerdotisa do Rei-Deus, principal ameaça à vida de Ged e à sua.

A essência de As Tumbas de Atuan é a batalha da luz contra as trevas, sejam elas exteriores ou interiores. O momento-chave do livro é a longa conversa que Arha tem com Ged, quando o mago lhe revela sobre a natureza verdadeira dos Inominados, e o significado do Anel de Erreth-Akbe para Terramar. É uma alegoria para o papel que Arha e Ged têm a desempenhar nos destinos de seus mundos. Também não deixa de ser uma forma muito elegante de falar sobre o fechamento de ciclos, sobre escolhas, a necessidade de mudanças, e a influência de certas crenças em nossas vidas.

Le Guin conseguiu falar muito sobre a psique humana, e nosso desejo de nos libertar das prisões que criamos pra nós mesmos, a partir de um cenário que, nas mãos de autores menos talentosos, seria limitador. As tumbas, suas sombras e a escuridão ganham muitas nuances nas palavras da escritora.

Procurei evitá-los o quanto pude até aqui, mas agora terei que citar alguns detalhes da reta final do livro, que julgo necessários para uma análise mais satisfatória de As Tumbas de Atuan. Portanto, fica o meu aviso de que haverá spoilers nos próximos parágrafos:

Ged dá a Arha a chance de libertar-se das trevas e escolher o caminho da luz. Isto gera um conflito mortal no interior da sacerdotisa, que é um dos grandes motes d’As Tumbas de Atuan, e também o que torna o livro tão fascinante para quem busca uma obra de fantasia fora do convencional. Le Guin conseguiu atingir profundezas vastas da alma humana tanto quanto seus personagens em suas explorações nos labirintos das Tumbas, trazendo à tona alguns tesouros de sabedoria tão valiosos quanto quaisquer pedras preciosas.

Existe um momento, na reta final, onde fica bem clara a alegoria que Le Guin criou na obra. É quando Arha toma uma decisão, e isto literalmente abala as estruturas de seus domínios. Ged a conduz pelo caminho que Arha escolheu, e a cumplicidade que se forma entre eles justifica toda a construção de seu relacionamento até aquele ponto do livro. O mais importante é que tudo soa natural, porque a situação reforça os laços que já vinham sendo feitos. Eu senti o alívio dos personagens quando eles conseguiram superar o obstáculo, mesmo com tudo desmoronando sobre suas cabeças, e eles só podendo contar um com o outro.

Quando Ged revela o que estava fazendo para proteger Arha nas Tumbas, é que fica mais claro pra ela e para o leitor o quanto ele queria ajudá-la a se libertar do domínio dos Inominados. Podemos perfeitamente traçar um paralelo entre sua fuga e o penoso processo curativo de algumas doenças debilitantes, como a depressão. Arha, que passou a maior parte da vida nas Tumbas, servindo aos desígnios de forças opressivas, não é muito diferente de um indivíduo que viveu estagnado ou num tipo de letargia, como é o caso de muitos depressivos. Esta é só uma das leituras possíveis. A mais óbvia é a da união de opostos (luz e sombras) e gêneros (masculino e feminino) para superar um mal maior do que eles, representada pela fusão das metades do Anel de Erreth Akbe.

Continuando a interpretação da fuga como analogia para uma terapia, Ged parece assumir o papel de xamã / terapeuta / psiquiatra, que tenta curar / exorcizar Arha. Pra começar, ele insiste em chamá-la de Tenar, seu verdadeiro nome, e não daquele que lhe foi imposto após ser “devorada” pelos Inominados. O que Ged faz por Tenar é mais do que tirá-la das tumbas, mas ajudá-la a livrar-se da profunda dominação doutrinária que a fez temer e respeitar seres e poderes incompreensíveis, que ela encarava como deuses, limitando-se a obedecê-los, o que a impediu de expressar sua individualidade. Ged resgata Tenar das profundezas de si mesma, e lhe devolve o controle de seu destino e sua identidade.

Uma ironia que chamou minha atenção: enquanto para muitos a escuridão representa o medo do desconhecido, para Tenar é o oposto: a luz, e tudo que ela revela – todas as opções que se abrem diante dela após libertar-se – são motivo para o seu temor do futuro. Isto também foi uma grande sacada de Le Guin, pois todos que já passaram por um momento decisivo – quando ganhamos a chance dar um novo rumo pra nossa vida – se identificarão com o dilema vivido por Tenar no final do livro. Não importa a natureza fantástica dos eventos vividos por ela ao lado de Ged, mas a essência do que representam: a possibilidade de mudar seu destino, de ter uma nova vida, além da prisão cômoda e embotada onde foi mantida durante a maior parte de sua existência. A sensação que tive com ela foi paradoxal: um misto de satisfação e medo, de liberdade e temor pelo que viria a seguir, agora que tudo dependia das decisões que tomasse, do que aprendesse, das características de si mesma que expressasse. Por isto é alentadora a presença de Ged, seu guia e conselheiro, que contrasta muito com aquele feiticeiro orgulhoso e impulsivo que conheci em O Feiticeiro de Terramar.

Outra grande lição que fica ao término da leitura de As Tumbas de Atuan é que não há superioridade de gêneros. Ged e Tenar precisam um do outro para se salvarem. Diferente de muitas histórias protagonizadas por casais, nesta um depende do outro pra seguir em frente. Ambos tem seus papéis na salvação de suas vidas, na recuperação de suas liberdades e na restauração (ou reconstrução) de sua identidade, no caso de Tenar.

O que O Feiticeiro de Terramar tinha de aventuresco e exploratório, As Tumbas de Atuan tem de introspectivo e claustrofóbico. O livro é um mergulho na rotina um tanto maçante e exaustiva de Arha, em seu conflito consigo mesma e com Ged. Há um clima desolador em quase toda a narrativa. Algo que nos torna cativos da trama, querendo saber como cada um sairá da armadilha na qual caiu. E quando Arha e Ged finalmente encontram um meio de se ajudarem, é inevitável que passemos a torcer pelo sucesso do casal. Estas, e todas as demais qualidades que busquei salientar acima, fazem de As Tumbas de Atuan uma obra capaz de agradar não apenas quem aprecia obras de fantasia, mas também histórias bem narradas e personagens bem construídos e desenvolvidos, dentro de uma trama estruturalmente simples, mas profunda nas reflexões que instiga. Ursula K. Le Guin tinha um bocado a nos dizer sobre o nosso mundo através de sua fantasia, e este foi um de seus grandes feitos como escritora, enquanto esteve entre nós até o último dia 18 de janeiro. Que descanse em paz, com a certeza de que nos deixou com muito para ler e sobre o que pensar…


Editora Arqueiro

Tradução: Vera Ribeiro

Brochura

23 x 16 x 1,5 cm

160 páginas

Compre aqui.