[LIVRO] “Angus – O Primeiro Guerreiro”, de Orlando Paes Filho (resenha)

“Crianças choravam perdidas no meio dos destroços carbonizados daquilo que tinha sido seus lares. Corpos mutilados espalhavam-se pelo chão. A maioria não tinha tempo de se defender, e os que tentaram foram todos retalhados. Agora, os lobos humanos buscavam mulheres. Os gritos e choros deles enchiam o ar, me inundando de apreensão.”

No ano de 2003 foi publicado o livro que deu início à série Angus, O Primeiro Guerreiro, de Orlando Paes Filho, originando histórias em quadrinhos, jogos de tabuleiro, RPG, trilha sonora original e uma série de ilustrações belíssimas feitas pelo próprio autor. Após um hiato de alguns anos, Angus retorna às livrarias através da editora Novas Páginas, nos mostrando que ainda há muito a se revelar deste cenário maravilhoso de fantasia.

Ao longo do tempo, sempre tentei iniciar a leitura de alguns romances de cavalaria nacional. Terminei alguns e confesso que de poucos gostei. Depois de terminar Angus, concluí que esta foi a primeira vez que considerei uma leitura de ficção medieval nacional atraente do início ao fim. O cenário histórico bem descrito, os personagens bem construídos, uma sucessão de batalhas sangrentas capazes de fazer com que o leitor sinta um pouco da realidade bruta vivida pelos nossos antepassados, e, ao mesmo tempo, uma história sobre a intensa busca pela verdadeira face da nobreza.

A história começa com uma profecia. Um velho monge eremita chamado Columba, pertencente ao monastério de Iona, reúne os principais druidas da Bretanha e de Erin, verdadeiros mestres na arte da forja, para assim vislumbrarem através da fenda que se abrirá depois de riscar o chão o próprio inferno cheio de demônios. O monge revela um futuro apocalíptico terrível para humanidade, assolada por escravidão, guerras, fome e praga, em conseqüência direta ou indireta da obsessão maligna de grupos escusos que tramariam à sombra do poder. Para combater tal potestade obtusa, também é revelada a visão de uma linhagem de guerreiros que empunhariam a espada sagrada a ser fabricada pelos druidas. A linhagem de Angus.

“A partir daquele instante, o cravo da Justiça, fundido à espada banhada de luz que Columba mantinha erguida, buscava a mão do guerreiro que o levaria a cumprir sua missão, “Numa luta sem medo contra o mal”.

As brasas que ardiam no centro do círculo de pedra iluminaram a palavra em gaélico, escrita com gotículas do orvalho na espada.

“Do Amor a Deus.”

Angus.”

Filho de comandante nórdico Seawulf com uma mulher cristã de origem picta, Angus inicia sua jornada combatendo ao lado de uma horda vikings dirigida pelos ambiciosos irmãos Ivar e Halfdan Hagnarsson. Ambos são movidos pela vingança de seu pai, Ragnar, jogado em um poço com cobras pelo rei Aelle. Todavia, após a primeira vitória e saciada a vingança, eles decidem aproveitar a ganância e sede por sangue dos guerreiros para continuar a afligir toda ilha bretã. Cidade após cidade, conquistadas e destroçadas, o jovem e inexperiente Angus percebe o espírito desmesurado e excessivo das tropas. Seus pares não distinguem entre homem, mulher e criança, abatendo a todos com o fio da espada ou escravizando-os, vendendo, inclusive, muitos dos capturados a povos semíticos e muçulmanos que viviam muito distante dali.

“Era muito bom ver o contentamento daquela gente. Mães reencontrando filhos, pais quebrando grilhões de crianças e jovens, antes nuas em pêlo, agora vestidas por seus companheiros. E todos, felizes em seus trapos, em um farrapo de vida recuperada, apesar de sua existência ter sido transformada em frangalhos por Ivar e seu filho bastardo, choravam copiosamente de alegria. Sim, eles estavam felizes, pois os barcos que aquelas famílias agora terminavam de construir e os outros que tinham conseguido recuperar eram os mesmos que os iriam levar, dentro de alguns meses, num futuro próximo e até havia pouco inevitável, para os mercados mouros e hebreus, onde seriam vendidos como animais, onde as mulheres seriam prostituídas, onde as crianças seriam açoitadas e onde os homens competiriam com os cavalos, executando trabalhos pesados até a morte.”

Seawulf e seus homens também se indignam diante daquele exagero e não se mantêm passivo diante da atrocidade promovida pelos vikings. Assim, o nobre líder intervém diversas vezes na prática de guerra da horda, que incluía catapultar pedaços de corpos mutilados para aterrorizar os reis e os guerreiros inimigos. Desta forma, ele foi primeiro exemplo de virtude que viria a influenciar na formação de Angus, além da mãe do jovem guerreiro, com seus valores cristãos fundamentados na caridade divina.

“- Admiro sua coragem e destreza – falou-lhe. – Mas suas atitudes intrigam os homens. Talvez você tenha passado tempo demais no estrangeiro e se deixado influenciar pelas ideias cristãs…

– Eu faço aquilo que acho que deve ser feito, independentemente de qualquer influência. Sempre fui assim e é assim que uso minha espada! – atalhou Seawulf.

Halfdan não disse nada. Esboçou um sorriso cínico, que expresava a falsidade de quem se esconde atrás de palavras.

– Eu sou minhas ações! – afirmou Seawulf(…). As palavras voaram na cara de Halfdan como setas de fogo.”

Entre as desventuras de Angus, a perseguição de Ivar que resulta em sua fuga, o acolhimento na abadia de um sábio chamado Nemmius, na qual forja sua alma a partir dos elevados e perenes princípios das sete virtudes. Depois de seguir seu caminho, fora feito outra vez escravo, mas, depois de provar seu valor, se submetera ao ensino de Owain, um gigante guerreiro com aprimorou suas técnicas de combate.

“A reunião já tinha começado havia algum tempo, e todos falavam em voz alta, embriagados e violentos. Súbito, quando ninguém esperava, Seawulf apareceu com Rothger e Hagart. Ele entrou de forma brusca, interrompendo o falatório e, de pé, imponente, jogou a cabeça de Svan Víg sobre a mesa.

– Ásgautr – disse ele -, considere isto um presente aos rus e ao rei Rurik. Svan Víg era um canalha, e os covardes não merecem viver como guerreiros.”

A qualidade da narrativa em primeira pessoa e o capricho com que foram pintadas as gravuras, – que podem ser encontradas em versão colorida no site oficial, – pessoalmente, me surpreenderam bastante. Não tenho dúvidas: o leitor que está em busca de uma aventura com enredo envolvente, cenário sólido e personagens vivos, dificilmente se decepcionarão com a narrativa cortante como o fio de uma espada. Assim considerei Angus, O Primeiro Guerreiro. Sendo assim, aconselho:

– Cuidado para não perder os dedos entre as páginas.

Ilustrações da página oficial: http://www.anguswar.com/ilustracoes/


Novas Páginas

Brochura

22,8 x 15,2 x 2,4 cm

368 páginas

Disponível nas livrarias:

Amazon

Saraiva