[LIVRO] Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (resenha)

Afinal, com o que sonham os androides?

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Tirado da mente mais do que multifuncional e ultra-acelerada de Philip K. Dick, o universo de “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” parece-se muito, em muitos aspectos, com um sonho sem sentido a quem lê de primeira.

As reflexões parecem profundas demais, o que vai de encontro com o estilo extremamente pragmático do autor, os cenários parecem surreais, a realidade é de tal forma ridicularizada, que os “absurdismos” passam a ser aceitáveis à medida que viramos as páginas escritas a base de muita anfetamina.

Responsável por dar origem ao filme Blade Runner, “Ovelhas Elétricas” vai, em cada linha, muito além da simples caça de androides, da medição de força entre humanos e Andys ou Replicantes. Philip K. Dick levanta questões relativas à que relevância que poderia ter a vida humana e, mesmo, até que ponto uma vida poderia ser considerada.

E por que não tentar ler um pouco entre as letras de K. Dick?

A Terra devastada de 1992 – Poeira e Bagulho

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Curiosamente, o ano em que a história do livro se passa precede em uma década a morte de Philip K. Dick – que sofreu um acidente vascular cerebral no ano de 1982. O livro se passa num mundo devastado pelo que parece ter sido um conflito nuclear (muito pouco explicado pelo livro). Quase inabitado, o mundo torna-se um lugar esquecido, sendo lar apenas para os renegados e pobres.

E não bastasse a atmosfera inóspita e desolada em que Philip consegue retratar o planeta Terra – um lugar deprimente, repleto da rotina de pessoas conformadas demais até mesmo para estarem infelizes – há ainda a Poeira. Como um resultado da catástrofe que se abateu sobre a Terra, cada reentrância e pequeno detalhe do mundo parece ficar repleto da Poeira, que vai tomando, invadindo e roubando a vida de tudo aquilo que ainda respira.

Em uma escala maior, não apenas a Poeira é usada por K. Dick como uma espécie de sinalização de que tudo está abandonado (afinal, o que está largado fica entregue à poeira, e nada mais seria isto que uma metáfora da terra). Philip vai além com a “bagulhificação”, o processo natural em que um bagulho chama outro e, aos poucos, tudo se torna tão incompreensivelmente confuso e misturado num monte de peças e objetos sem sentido ou utilidade, que nada sobra que não o bagulho, o lixo, o fim. Mais uma vez, uma metáfora engraçadinha de Dick para aquilo que está abandonado.

Quando o silêncio reverbera

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Dentro das solidões intransponíveis de cada personagem, em que nem mesmo uma máquina de empatia é capaz de promover verdadeira comunhão e união entre as pessoas, Philip consegue fazer do silêncio muito mais do que simplesmente um elemento a mais na narrativa do abandono do ser.

Em “Ovelhas Elétricas”, o silêncio é denso, sólido, invade – e invade ainda mais do que a Poeira – perturba, faz enlouquecer.

As poucas pessoas que restaram moram isoladas demais umas das outras para que haja comunicação normal – essencial à manutenção cognitiva e mental humana – e mesmo aqueles que se aproximam parecem – e são – tão distantes, que mesmo um segundo de silêncio já é capaz de trazer arrepios.

Temos esse forte sentimento com o personagem Isidore, cujas cenas, parecendo pintadas de cinza, são sempre melancólicas. E mesmo sendo ele tão solitário, é Isidore aquele que mais se aproxima do ideal humano… e é dele que mais judia o maldito e invasor silêncio.

Religião Midiática

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Particularmente interessante notar a forma como Dick expõe a espiritualidade dentro do livro.

De um lado temos a mídia, com Buster Gente Fina, a febre moderna que, se por um lado não permite que o silêncio absoluto tome conta da vida daqueles que foram obrigados a ficarem aqui na Terra, é um programa manipulador que sequer faz questão de pretender-se sério. Buster, e todo o seu programa, faz piadas superficiais, mostra notícias desimportantes, zomba do mercerismo, atrai a multidão por sua simplicidade agressivamente cretina. Não se precisa pensar assistindo aos deboches e falas de Buster Gente Fina e seus Amigos Gente Boa. Como uma espécie de Big Brother (falo do programa moderno de televisão), ou qualquer outro sucesso televisivo manipulador de massas, o que temos é simplesmente o interesse em manter quietos e livres de nocivos (nocivos?) pensamentos os espectadores.

De outro lado, com um contato proporcionado por uma máquina que permite a empatia, ou a “união“ entre os seres humanos, temos Willburn Mercer. Mercer é o redentor, aquele que está sempre em sacrifício por nós, aquele que leva ao mundo tumular, mas dele é capaz de retirar seus fiéis… Aquele que leva pedradas e permanece em sua caminhada sem titubear, pois a autoimolação requer força e fé.

Por meio do aparelho de empatia, é possível falar com Mercer, ouvir seus conselhos, saber como ele está em sua caminhada rumo ao sacrifício… e até mesmo levar as pedradas que deveriam acertar o redentor.

Mas até que ponto a presença de Mercer é real (ou sua não-presença)?

E por que razão Mercer e Buster parecem competir pela fidelidade daqueles que estão a sua volta?

Falar seria entregar partes importantes do livro, mas é inegável a genialidade de Philip ao estabelecer a religiosidade como um contato de mídia (o que inevitavelmente nos faz lembrar de Deuses Americanos, de Neil Gaiman) ou como algo acessível de forma “virtual”. Estaríamos assim tão distantes dessa realidade metafísica?

Nexus 6 – Os limites da humanidade

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Um dos aspectos mais ressaltados no livro “Ovelhas elétricas” é a questão da vida e aquilo que representaria um ser humano. Para a identificação humana há o teste Voidkampf, além de muitos outros. É dura e longa a batalha contra os androides e, uma vez identificados, os humanos geneticamente modificados são “aposentados”.

Eis que entra a questão primordial do livro: se também o ser humano é capaz de matar – o que é apresentado como principal transtorno causado pelos Andys – com que direito – moral, ao menos – poderia um caçador de recompensas dar cabo de uma vida humana?

Os androides são, nada mais nada menos, que pessoas geneticamente modificadas. Em algumas há memórias implantadas (como no caso de Rachael), ao passo que outras têm total e completa noção de sua situação. Nenhum deles, contudo, deixa de ser humano, ter sangue, sentir dor.

Tanto que o único teste realmente eficaz tem a ver com empatia; uma vez que falta ao androide empatia, ele é condenado. Mas que sentido faria isso, e que valor teria a vida se tomada por estes critérios se, na verdade, o que temos é, em cada replicante ou Andy, o perfil de uma pessoa esquizoide?

Os limites da vida são divididos por uma linha tênue, quase invisível… e muito elástica, de acordo com a conveniência e a moral de cada um dos personagens.

E falando em Esquizoide… uma tal de Rachael…

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Rachael Rosen, a bela garota de cabelos negros, petulante, extremamente segura de si mesma tendo apenas 18 anos, sobrinha do poderoso Rosen, e uma das funcionárias de alto escalão da empresa homônima… Rachael, criada numa nave, e com contato apenas com livros, ao ponto de não conseguir desenvolver empatia com o que quer que seja…

Ou… Rachael, uma perigosa androide manipuladora, de personalidade indecifrável, sedutora, capaz de jogar à sarjeta a mente de nosso frio e pragmático caçador de recompensas, Rick Deckard.

Durante todo o livro, ler Rachael é uma tarefa difícil. De assustada a autoritária. De manipulada a manipuladora. De dona da razão a perdida… Se há, no livro, um ponto alto de mistério (na verdade, há muitos), o maior deles é Rachael com seu jeito sedutor… e perigoso. Como os bons predadores.

Deckard e Isidore

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Como uma espécie de antítese, Philip K. Dick opõe em seu livro dois personagens que, de tão diferentes, chegam a ser opostos: Deckard, o matador de androides que vive de recompensas, e Isidore, o motorista de uma companhia para conserto de animais eletrônicos.

Até na análise de suas funções, Dick parece ter brincado muito bem com os caráteres de cada personagem.

Enquanto Deckard (que é herói do filme Blade Runner, de Ridley Scott) é o assassino, aquele cuja prata que carrega no bolso está irremediavelmente maculada de sangue, Isidore, mesmo sendo apenas um motorista, protagoniza cenas em que o seu cuidado pela vida vai muito além da noção humana (leia-se, a visão do mundo devastado da distopia de Dick).

Isidore, tendo tido acesso ao mundo tumular, e tendo visto animais morrerem e retornarem, ama a vida, importa-se com ela, sofre pela dor mesmo dos animais que sequer são orgânicos. Isidore, em sua simplicidade de “cabeça de galinha” – afetado mentalmente pela Poeira – é sensível ao mercerismo, e respeita a vida acima de tudo, sendo incapaz mesmo de matar para protegê-la. Isidore sofre as dores de quem não tem dores e pelas amarguras de quem não conhece angústias. Se há neste livro um personagem que representa a inocência, a bondade e a fé, este é Isidore.

Seu antagonista, Richard Deckard, agente da polícia e caçador de recompensas, tem em mente projetos completamente diferentes. Não só trabalha com o ofício da morte para se manter e realizar seus desejos consumistas não necessariamente importantes – ao menos não vitais – , o policial não titubeia em exterminar um Andy, ainda que não possa ter certeza de sua origem modificada. Seu respeito pela vida é tão pequeno que, mesmo a Ovelha Elétrica que possui lhe parece desprezível… (seria adorável aos olhos de Isidore). E para quem duvida ainda desse contraste monstro, lembremos da aranha e da cabra ao final do livro.

Quem pagou caro? E quem sofreu? Isidore e Deckard são a versão Cyberpunk de Ariel e Caliban…

E se você sonhasse com ovelhas elétricas?

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O universo – ou melhor, o mundo – arquitetado por Philip K. Dick faz a vida ser uma memória ou um ponto de reflexão a cada letra, frase, linha…

Desde a falta quase absoluta de pessoas e à matança (justa?) de androides, até a ideia de um status social determinado pela posse de um animal.

Hoje em dia, a coisa mais comum e aceitável é que se tenha um cão ou gato. Ou muitos deles. Há quem prefira outros animais menos comuns…

Mas em “Ovelhas Elétricas” tal é a perda da noção de importância da vida, que basta que se tenha qualquer coisa que seja orgânica. Ter uma ovelha real, uma égua, uma cabra, um bode, uma coruja… tudo isso não seria incomum, mas, pelo contrário, louvável.

O conceito de vida passa tão longe da mente dos últimos habitantes da Terra, cada vez menos coerentes ao serem progressivamente enterrados pela poeira, que basta que se tenha qualquer animal. E na falta de dinheiro que possa comprar um animal de verdade, compra-se um animal feito de engrenagens, eletrônico, sistematizado. Se hoje o status nos obriga a mostrar que vida é ter um belo carro, um bom emprego, um belo par e talentos – ainda que realmente não tenhamos nada disso – Philip nos dá um choque de realidade expondo o quanto o sentido da vida se perde em sua distopia, ao colocar como objeto máximo de posse um animal qualquer, sem o qual um cidadão não é nada.

Então, finalmente, respondendo à pergunta que dá nome ao brilhante livro de Philip K. Dick… Androides sonham com ovelhas elétricas? Não. Androides, em sua natureza esquizoide, e em sua busca louca por qualquer momento a mais de vida, buscam tão somente a vida.

Apenas humanos sonham com ovelhas, gatos, galinhas ou corujas reais ou elétricas… a ideia de vida já se perdeu há muito.

androides-sonham-com-ovelhas-eletricas-philip-k-dick-editora-alephAndroides Sonham Com Ovelhas Elétricas?
Autor: Philip K. Dick
Edição: 1ª
Ano: 2014
ISBN: 978-85-7657-160-5
Número de páginas: 272
Acabamento:Brochura
Formato: 14x21cm
Peso: 0,250kg

Editora: Aleph

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