[LIVRO] A Última Noite em Tremore Beach, de Mikel Santiago (resenha)

Peter Harper, um compositor de trilhas sonoras bem-sucedido, busca fugir de empecilhos pessoais. O abalo psicológico provocado por seu recente divórcio interfere na sua inspiração para compor melodias.

Sua reputação profissional, diante de diversos contratos com grandes estúdios de cinema, começa a ser manchada. Harper encontra seu refúgio em uma antiga casa na praia irlandesa, Tremore Beach8, onde seus únicos vizinhos – o simpático casal de americanos aposentados Leo e Marie Kogan – moram do outro lado da costa.

Book trailer de A Última Noite em Tremore Beach

A Última Noite em Tremore Beach é o primeiro romance publicado pelo escritor espanhol Mikel Santiago. Trata-se de um thriller psicológico, gênero de suspense que tem foco no estado mental do protagonista. Segundo a psiquiatra Sharon Packer, em seu livro “Movies and the Modern Psyche”, no thriller psicológico, os personagens têm sua percepção das coisas ao redor distorcida por fatores externos, e precisam batalhar contra sua própria mente para chegar a um novo nível de compreensão da realidade. Outros de seus temas principais dizem respeito a questionamentos sobre a existência, a questões de identidade do personagem e à morte (dele ou de pessoas próximas).

A primeira parte de “Tremore Beach” começa com uma visita rotineira de Harper ao fictício vilarejo de Clenhburran, o centro mais próximo da praia onde mora, e cujos poucos habitantes se preparam para a tempestade colossal, prevista para mais tarde. Na volta para casa, o compositor fica preocupado quando vê as nuvens escuras no horizonte se aproximando, mas, ainda assim, decide ir até a casa de Leo para um encontro, que já havia sido combinado entre eles anteriormente. Antes de se retirar, ele ouve uma voz soprar em seu ouvido um alerta para que não saia de casa.

Num momento de distração, durante o jantar na casa dos Kogan, Harper pondera sobre a tal voz, que ele já tinha ouvido uma vez em sua vida, e que também era ouvida por sua mãe e avó quando vivas. Mas, apesar da precisão de sinais anteriores da voz, ele recusa aceitar o fato de ter um sexto sentido.

Quando a chuva finalmente dá uma trégua, Peter vai embora em seu carro. Ao chegar à colina que separa os caminhos de sua casa e dos Kogan, percebe que um raio caiu na árvore de olmo que ali fica. Um galho grande impede a sua passagem pela estrada, então ele opta por arriscar-se e retirá-lo dali com as próprias mãos. Como se pode esperar diante dessa situação, Peter é atingido por um raio.

Em alguns momentos, o protagonista toma uma série de atitudes questionáveis, que não condizem com as circunstâncias ao seu redor. Por exemplo, será mesmo que alguém ousaria sair de seu carro para retirar um galho do meio de uma estrada com uma tempestade prestes a explodir acima de sua cabeça? Na realidade, todos esses questionamentos passam pela cabeça de Peter Harper, mas, mesmo assim, ele toma essa atitude simplesmente porque, talvez, os O’Rourke não vissem o galho a tempo quando passassem por ali, e para não abrir a mão de sua valentia. Por outro lado, essas atitudes mostram o quanto ele é cético em relação às suas intuições, e são uma forma de atiçar o leitor a ter suas primeiras impressões sobre a personalidade do compositor.

Talvez o início do livro não provoque no leitor um interesse muito grande pela história, mas não vai demorar para que sua curiosidade sobre o que está por vir seja despertada. Após esse acidente, Peter precisa passar a noite no hospital para se recuperar, e sua “amiga” Judie Gallagher, uma jovem dona de um estabelecimento que serve como “base de operações das mulheres” do vilarejo de Clenhburran, e como pensão no andar de cima, fica responsável por conduzi-lo de volta à sua casa. No meio da noite, acontecem duas coisas que atormentarão Peter constantemente por toda a narrativa, após ser atingido pelo raio: uma dor de cabeça latejante e intensa, e seu primeiro pesadelo envolvendo seu círculo de amizades, que depois passam a ser visões premonitórias ultrarrealistas, que indicam que algo muito ruim está prestes a acontecer, e Peter precisa desvendar a mensagem através delas para evitar esse suposto mal.

O brilhantismo com que tais cenas são descritas dificultam a distinção entre serem ou não reais, e confundem tanto o protagonista quanto o leitor. Principalmente nos pesadelos finais, é muito fácil pensar que certos acontecimentos, que depois se mostrarão reais, foram parte de uma ilusão, e vice-versa.

Caí bastante mal, de peito, na areia da beirada, e soltei um gemido sufocado de dor […]. Então senti que minhas costas giravam no vazio e que eu começava a rolar pela parede de areia e terra do morro. Arranhando a pele em raízes e cardos, dando umas belas porradas em algumas pedras, afinal acabei freando num aglomerado de arbustos, cujos espinhos se cravaram em todo o meu corpo. Acho que pensei: Pronto, acabou. Agora você vai abrir os olhos e estará debaixo do lençol. Não se preocupe com os machucados, vão parar de doer num instante…

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Nos dias seguintes, são apresentados mais detalhes sobre o povoado e a vida social de Peter. Conhecemos melhor os locais e os estabelecimentos de Clenhburran, como a Main Street, e o relacionamento positivo de Peter com seus vizinhos. É uma leitura agradável, que flui muito bem (a escrita de Santiago possui muita clareza), e até mesmo nos faz esquecer que o livro é um thriller.

Aliás, não espere que o livro seja composto por uma sequência de cenas assombrosas. Como ele segue de maneira independente às alucinações sobrenaturais, as expectativas de quem o lê dirigem-se à relação que essas visões de Peter possuem com outras incógnitas relatadas, como os pesadelos constantes de Judie, e partes de sua vida que ela não revela a ninguém, bem como um mistério envolvendo os Kogan, acidentalmente descoberto pelo compositor. São justamente esses acontecimentos da vida normal de Peter que dão a base para a ligação entre cada premonição e para a complexidade da trama. Toma-se metade do livro até que os acontecimentos sobrenaturais roubem a cena e se tornem a preocupação central de Peter.

Peter Harper desconfia desses mistérios e da veracidade de seus pesadelos, e se divide entre ignorá-los ou aceitar que realmente há algo de muito errado. Ele tenta de alguma forma tomar controle da sua situação cada vez mais conturbada e de si mesmo. O balanço entre os acontecimentos físicos de Peter, os pesadelos que ele vivencia, e o retrato da forma como ele lida com ambas é engenhoso, de modo que nenhum deles deixa a desejar. Em nenhum momento se sente falta de mais ação ou de cenas de suspense, nem o enredo se perde.

O escritor se limita a colocar na história apenas o que é essencial para o andamento dela, algo que pode ser percebido pelo pequeno número de personagens. Cada detalhe apresentado, mesmo aqueles que parecem ser apenas uma mera descrição, interfere em alguma coisa ao longo da narrativa, e o mesmo acontece com o papel de cada personagem. Esse pragmatismo faz com que todas as passagens do livro tenham uma razão para estarem na história e uma resposta.

Peter gradativamente reencontra a si mesmo enquanto percebe e aceita as recentes mudanças em sua vida. Motivado pela proteção das pessoas próximas a ele, Peter busca ajuda, lida com as suas dúvidas e enfrenta seus transtornos sobrenaturais de maneira singular. A presença e o desenvolvimento de sua personalidade não são deixados de lado. Ao final da leitura, o conceito que se tem sobre ele é bem diferente do que se teve no início do livro. Peter não é o tipo de personagem a quem você se sente emocionalmente ligado, mas a trama não requer isso, e ele cumpre muito bem o seu papel.

O desfecho é empolgante e recheado de ação. Os riscos e perigos a que Harper é submetido tornam a leitura mais aflitiva a cada parágrafo. O escritor consegue saídas muito bem pensadas e a conexão entre todas as premonições e passagens antes em aberto se concretizam de maneira inteligente. Porém, como no começo da história, algumas atitudes dos personagens são muito questionáveis, mas não passam de brechas para que o autor consiga chegar a alguma situação desejada, e não chegam a quebrar a expectativa e o excitamento da leitura. Pouco pode ser adivinhado sobre as revelações finais, que, apesar de inesperadas e totalmente fora do comum, fazem todo sentido. No entanto, não tem como ignorar a falta de algumas páginas que mostrassem a reação dos personagens após o choque do clímax ao final da história, principalmente após passarmos um livro inteiro acompanhando figuras tão consistentes.

Como resume a sinopse na orelha do livro, A Última Noite em Tremore Beach retrata os perigos que rondam vidas aparentemente simples – sem a necessidade de recorrer a clichês e elementos apelativos para entregar uma boa história. Um futuro clássico de seu gênero? Provavelmente não. Mas definitivamente garante horas de muito entretenimento, suspense e tensão.


 

Suma de Letras

Brochura

22,8 x 15,2 x 1,6 cm

272 páginas

Disponível nas livrarias:

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