[LIVRO] “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells (resenha)

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O perigo de se ler um clássico como “A Máquina do Tempo” (de 1895) nos dias de hoje, sem contextualização nem preparação, é correr o risco de ver o livro de maneira simplista, apenas como uma novela curta e nada inovadora, pois o conceito de viagens no tempo através de máquinas já foi explorado de todas as formas possíveis. Mas esta obra é especial, pois ela foi a primeira a tratar do tema. Portanto, comecemos pela contextualização.

Esse é o primeiro livro de H. G. Wells, considerado por muitos como o criador da literatura de ficção científica moderna. Na época do lançamento o autor tinha 29 anos. Além de ser o primeiro livro a se dedicar inteiramente ao conceito de viagens no tempo e a uma máquina para tal fim, a obra tem um enorme caráter ideológico socialista. O autor era membro da “Sociedade Fabiana”, movimento político socialista organizado na Inglaterra no fim do séc. XIX e que pregava, entre outras coisas, a elevação da classe operária para que essa assumisse os controles dos meios de produção (Um parêntese: naquela época, os trabalhadores de fábricas incluíam crianças e velhos, não existiam direitos trabalhistas justos e sequer sindicatos de categoria com peso e reconhecimento, capazes de lutar por melhores condições, portanto, a situação era mil vezes pior do que a de hoje – que ainda está longe de ser ideal). Além de Wells, a Sociedade Fabiana contava com outros membros ilustres, como Bernard Shaw, Virginia Woolf e Bertrand Russel.

Confira a sinopse do livro:

O personagem conhecido apenas como “O Viajante do Tempo”, desenvolve, com base em conceitos matemáticos, uma máquina capaz de se mover pela Quarta Dimensão, neste caso considerada como a dimensão do tempo. Com ela, viaja até ao ano de 802.701 onde encontra os Elóis, pacíficos e dóceis remanescentes dos humanos, aparentemente vivendo num mundo paradisíaco, sem qualquer tipo de preocupações, até perceber que eles, na realidade, servem de alimentos para uma outra raça, os Morlocks, que vivem no subterrâneo e que, apesar de outrora terem sido dominados pelos Elóis, tornaram-se predadores destes. 

Uma forma narrativa que Wells utilizou em várias de suas futuras criações começou aqui: o uso de um personagem que participa pouco da história, totalmente secundário e sem importância, mas que testemunha tudo e nos narra os fatos. No caso de “A Máquina do Tempo” é um homem que foi convidado para um jantar com o Viajante. E é assim que o livro começa. O Viajante do Tempo convida alguns homens para sua casa, dentre eles um médico e um jornalista, para mostrar sua criação. Depois de expor a eles uma réplica de sua Máquina do Tempo, e explicar o cenceito de Quarta Dimensão (o tempo) para os convidados, o Viajante diz que espera em breve poder usar a Máquina. Em outra ocasião, enquanto todos esperam o Viajante para o jantar, ele chega todo esfarrapado, machucado e cansado. Depois de um breve descanso, começa sua incrível narrativa sobre os lugares que a máquina o levou e as situações que passou. E daí em diante o livro segue praticamente assim, com a narrativa ininterrupta das aventuras do Viajante do Tempo.

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Ao desembarcar no ano 802.701 na mesma região de onde partiu (a máquina do tempo se desloca somente de maneira temporal, permanece sempre no mesmo lugar no espaço), o Viajante se depara com um mundo praticamente abandonado. Uma sombra de um longínquo passado, com construções abandonadas e decadentes, e sem nenhuma forma de organização governamental. Logo que chega ao futuro, o Viajante se vê também frente a frente com criaturas humanoides estranhas, que passa a chamar de Elóis, seres de constituição franzina, de certa forma belos e de comportamento lúdico e inocente. O Viajante nota que os Elóis não trabalham, não produzem e não se preocupam com quase nada, apenas vivem em um eterno ócio. A única coisa temida por eles é a escuridão. Quando a Máquina do Tempo desaparece, o cientista começa a procurar, e chega à conclusão que provavelmente ela foi levada para uma espécie de abrigo subterrâneo, cuja entrada fica abaixo de uma enorme estátua de esfinge. O Viajante nota também que há alguns buracos profundos espalhados pelo chão de todo o lugar, algo parecido com dutos de ventilação. Os Elóis evitam e temem esses dutos.

Ao adentrar em um salão escuro, procurando por alguma possível entrada para o subsolo que o levasse até a Máquina, o Viajante descobre a existência de outros seres, esquivos e de constituição  que lembra os primatas (também são frágeis, mas sua constituição física é bem mais rígida que a dos Elóis), além de terem pele muito branca e olhos vermelhos – características típicas de animais que passam tempo demais no subsolo sem nenhum contato com a luz. O Viajante passa a chamá-los de Morlocks. Os Morlocks se aventuram na superfície durante a noite para capturar e canibalizar Elóis, daí a origem do medo que esses têm da escuridão.

Elois e Morlocks são descendentes diretos dos seres humanos. Os primeiros são seres amigáveis, sempre felizes e dispostos a brincadeiras e agrados, ao contrário dos Morlocks, que apesar da pouca força física, são violentos e nada dispostos à comunicação ou interação. O viajante nota que toda a produção, e consequentemente todo o trabalho do mundo, é feita(o) por Morlocks no subsolo, de maneira mecânica, “naturalizada”.

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Não me adiantarei mais na história, e evitarei comentar sobre qualquer fato que configure “spoiler”, e possa arruinar o prazer da leitura dessa obra obrigatória para fãs de Sci-Fi. Arrisco dizer que, perante todo o discurso socialista presente no livro, a história de um viajante do tempo e sua máquina se tornam meras alegorias, algo secundário. Claramente temos nessas duas raças humanoides do futuro as representações clássicas de Opressor e Oprimido, Classe Dominante e Classe Dominada. O panorama apresentado no livro é a visão de Wells de um possível futuro onde o Capitalismo triunfou e foi levado até as últimas consequências.

É interessante notar que ambas as raças tiveram seus comportamentos naturalizados. Nenhuma pensa de fato nos costumes e práticas de sua realidade, ou faz algo para que ela mude. Os Elois podem ser os seres dominantes, mas eles não são maus. Não são exploradores no sentido de se aproveitar conscientemente do mais fraco. Para eles é normal ter uma vida acima do subsolo, uma vida regada de prazeres e sem nenhuma obrigação laborial ou sequer moral. E o mesmo para os Morlocks: eles não conhecem outro modo de viver e, portanto, não têm nenhuma intenção de deixar o subsolo para tentar viver com/como os Elois (uma observação: no começo do século XX a maioria dos trabalhadores do setor industrial passava a maior parte de seus dias em fábricas escuras, trabalhando incessantemente, algo não muito diferente dos Morlocks).

Traçando um paralelo com a ideologia e nosso mundo, o autor soube tratar o tema de maneira inteligente, sem simplificar as relações de classe a uma luta dicotômica e de fácil solução. Muitas vezes a dificuldade de se mudar o mundo não está no ato em si, mas na incapacidade das pessoas em adquirir a consciência necessária para pensar em uma possível ação. O fato dos Morlocks caçarem e canibalizarem os Elois, por exemplo, pode ser comparado à violência em nosso mundo, quando os mais pobres roubam e matam os mais ricos. Não é difícil encontrar mais similaridades entre a sociedade atual (que em sua organização social, no fim das contas, não mudou tanto desde o começo do Século XX) e a sociedade retratada na obra. Muitas pessoas hoje em dia trabalham diariamente sem nenhuma ambição ou chance de “subir na vida”, trabalham apenas para suprir suas necessidades básicas. O caráter lúdico e inocente dos Elóis, como mais um exemplo, pode ser comparado ao de pessoas que, tendo uma vida abastada, não se importam com os menos favorecidos e seus problemas, mas temem quando esses menos favorecidos fazem algo que resulte em um abalo de seu padrão de vida.

A grande sacada do livro é que ele não mostra uma solução para o conflito entre Morlocks e Elóis, mas faz algo tão importante quanto: expõe e problematiza a situação. A maior parte da obra é dedicada a essa parada do Viajante, no entanto, ele realiza outras viagens através do tempo na parte final.

A Máquina do Tempo” se trata, na verdade, de uma novela política que tem como pano de fundo a ficção científica, e não o contrário. Mas é claro que isso não tira em nada seu mérito. Saber mesclar uma questão tão séria e complicada, como a organização social e os problemas políticos de uma sociedade (no caso, a britânica), com uma história criativa e cheia de aventuras e inovações em relação ao conteúdo, não é para qualquer um.

a maquina do tempo h g wells nova alexandriaUma dica (para que os leitores usem a imaginação): as descrições presentes na obra não são ricas em detalhes, mas pela época em que foi lançada, no ápice da era vitoriana, não é difícil imaginar uma certa roupagem steampunk em relação à máquina do tempo.

A obra teve, além de algumas adaptações obscuras para a tv e rádio, duas adaptações cinematográficas. Uma em 1960, dirigida por George Pal, e uma releitura em 2002, dirigida por Gore Verbinski e Simon Wells (nota do editor: bisneto de H. G. Wells), com Guy Pearce no papel principal.

[A edição lida para essa resenha foi traduzida por Daniel Piza (jornalista que faz muita falta nos dias de hoje) e publicada pela editora Nova Alexandria em 1994.]

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