[LIVRO] “A Mão Esquerda da Escuridão” de Ursula K. Le Guin (resenha)

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Vários gêneros literários, principalmente a ficção científica, são enxergados através de esteriótipos, o que muitas vezes faz as pessoas pensarem que as histórias de determinado gênero são os elementos já conhecidos do mesmo e nada mais. Na verdade, tanto a ficção científica, quanto todos os seus colegas gêneros literários, são apenas templates, planos de fundo e cenários para abordar os mais diversos assuntos, sejam eles relevantes ou não.

A visita de um homem a um planeta habitado por hermafroditas, pode servir para levantar importantes questões sobre as quais todo mundo deveria pensar. “Um homem deseja que sua virilidade seja reconhecida, uma mulher deseja que sua feminilidade seja apreciada, por mais indiretos que sejam esse reconhecimento e essa apreciação. Em Inverno, isso não vai existir. Julga-se ou respeita-se uma pessoa como ser humano.” Esse trecho, por exemplo, me fez pensar no quanto o mundo seria melhor se as pessoas tivessem mais respeito umas com as outras e menos orgulho e pretensões sexuais.

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Antes mesmo de iniciar a história de A Mão Esquerda da Escuridão, já desenvolvi puro respeito e admiração pela Ursula K. Le Guin ao ler a introdução do livro. Inclusive, no evento Encontro Intergaláctico da Editora Aleph (agosto de 2015), foram distribuídas cópias impressas dessa introdução a todos os que compareceram no evento. O texto mostra a importância e a má interpretação da ficção científica, e também o quanto a autora é uma defensora do gênero. Caso você tenha ficado curioso, confira o discurso que a autora fez na premiação National Book Awards em novembro de 2014.

Se você topar com A Mão Esquerda da Escuridão por aí em alguma livraria, ele pode até passar despercebido. O título parece nome de livro de fantasia sombria, e a capa da edição mais recente publicada pela editora Aleph não é atrativa e não chama nem um pouco de atenção. Ela também não é feia, o que não é o mais importante para um livro, mas a capa ajudaria bastante na propagação da obra. É somente quando se mergulha nas páginas escritas por Ursula K. Le Guin, que o leitor se dá conta de que está diante de uma preciosidade.

“O inesperado é o que torna a vida possível.”

Entrando na história, acompanhamos a saga de Genry Ai, um homem que vai ao planeta Gathen (também conhecido como Inverno) com a missão diplomática de propor que ele se junte ao Ekumen, que se trata de uma união planetária já com mais de 80 planetas membros, com a intenção de promover a troca de conhecimento entre eles e o comércio aberto. Acontece que os seres humanos desse planeta são um pouco complicados de lidar.

Primeiro, sua fisiologia é diferente da fisiologia dos demais seres humanos dos outros planetas. Eles permanecem um tempo como eunucos, e quando chega seu período fértil, o kemmer, eles podem tanto desenvolver o órgão reprodutor masculino, como o órgão feminino. Quando um gatheriano tem o órgão reprodutor feminino, ele pode engravidar. Embora haja essa androginia, esses seres também se generalizam como “homens”. Mesmo quando estão no kemmer da forma feminina. Não existe conceito de “mulher”.

Segundo, que sua cultura, filosofia e estilo de vida são conservadoras, e sua civilização é um pouco atrasada. De que forma? Eles não possuem nenhum veículo que voe, e também não acreditam em vida extra-terrestre. Com a chegado do chamado “Enviado”, Genry Ai, os gatherianos o consideram uma aberração por sua fisiologia apenas masculina. O chamam até de pervertido por permanecer o tempo inteiro no kemmer. Também o consideram um mentiroso ao afirmar sobre a vida fora do planeta Inverno.

Ursula extrai ao máximo as questões que podem ser levantadas a partir dessas complicações. Os gatherianos não são muito diferentes da sociedade atual. Eles são intolerantes, hostis, não confiáveis.

Se a civilização tem um oposto, é a guerra. Das duas coisas, ou se tem uma ou outra. Não ambas.

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Eu poderia falar que o livro aborda igualdade sexual, natureza humana e várias outras coisas. Mas direi algo muito mais importante: Leia o livro! As idéias impostas pela Ursula em 1969 são tão atuais que conversam melhor com a sociedade de hoje do que várias outras obras de nossa década.

— Você ainda não percebeu, Genry, por que aperfeiçoamos e praticamos a Vidência?

— Não…

— Para demonstrar a completa inutilidade de saber a resposta à pergunta errada.

Além da saga de Genry Ai, o livro também possui vários elementos que ajudam a enriquecer a história. Os gatherianos, suas características, o planeta como um todo, uma religião e uma mitologia própria. Mas o que realmente me arrebatou, foi sua ideologia.

— O Desconhecido — (…) —, o não previsto, o não provado: é nisso que se baseia a vida. A ignorância é a base do pensamento. A não-prova é a base da ação. Se houvesse certeza de que Deus não existe, não haveria religião. (…) Mas também, se houvesse certeza de que Deus existe, não haveria religião… Diga-me, Genry, o que sabemos: O que é certo, previsível, inevitável… a única certeza que você tem sobre seu futuro, e o meu?

— Que vamos morrer.

— Sim. Só existe realmente uma pergunta que pode ser respondida, Genry, e já sabemos a resposta… A única coisa que torna a vida possível é a incerteza permanente e intolerável: não saber o que vem depois.

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capa1A Mão Esquerda da Escuridão
Ursula K. Le Guin

Editora: Aleph
Ano: 2014
Encadernação: brochura
Nº de Páginas: 296

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