[LIVRO] A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers (resenha)

Não é nada fácil começar uma nova fase da vida. Rosemary precisa encarar esse desafio ao aceitar um emprego na Andarilha, a nave mineradora de buracos de minhoca, cuja tripulação tem membros de várias etnias e espécies alienígenas. Num verdadeiro teste de adaptação, a jovem precisa vencer preconceitos e o medo do novo para assumir uma nova identidade, enquanto conhece seu novo lar.

Becky Chambers pode ser novata no ramo da ficção científica, mas em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil ela conseguiu criar personagens com os quais nos conectamos facilmente. Rosemary é uma jovem que está fugindo de sua vida anterior enquanto tenta se adaptar ao novo trabalho e seus colegas. Aos poucos vamos nos entrosando com eles e descobrindo a tensão sexual entre o Capitão Ashby e Sissix, a aandriskana, uma alien de sangue frio cuja aparência lembra um híbrido de mulher com lagarto; a paixão de Jenks, o técnico de computação – um anão cheio de tatuagens, piercings e dreads – por Lovey, a inteligência artificial da nave, que também é apaixonada por ele; e somos apresentados ao Dr. Chef, um grum – alien que parece uma mistura de lontra, lagartixa e lagarta – responsável pelas refeições da tripulação; aos misteriosos Ohan, alienígenas capazes de mapear mentalmente o espaço-tempo; e a Kizzy, uma divertida mecânica de gosto e comportamento espalhafatosos. Ainda há o sisudo e mal-humorado algaísta Corbin, que prefere evitar contato com os demais enquanto cuida das algas responsáveis por oxigenar a Andarilha. A tripulação da nave é um exemplo de diversidade, com membros de raças humanas e alienígenas bem diferentes convivendo em relativa harmonia.

Fan art da tripulação da Andarilha feita por Matt Harrison

Numa ótima sacada da autora, a estrutura da Andarilha, composta de partes usadas de outros veículos, reflete a diversidade de seus tripulantes. Também é digna de nota a função da nave: abrir túneis no subespaço, conectando pontos distantes do universo. Em suma, ela constrói “pontes” entre diferentes povos, planetas e civilizações.

A Andarilha

Apesar da diversidade de espécies do elenco, todos têm comportamentos e preocupações com as quais conseguimos nos conectar. Entendemos a dificuldade de adaptação de Rosemary; a preocupação de Ashby com Pei, sua amante aeluoniana, com quem se encontra esporadicamente; o envolvimento de Jenks com Lovey, e por aí vai. Becky soube trabalhar o cotidiano deles nos deixando à vontade com os personagens durante a leitura. No início, o livro me remeteu ao companheirismo cativante do elenco principal da saudosa série de TV Firefly.

Rosemary (fan art de artista desconhecido)

O maior mérito de Becky é a construção dos personagens e a dinâmica entre eles. O cenário de ficção científica é só um plano de fundo que torna a história mais atraente, e nossa curiosidade maior.

A autora conseguiu imaginar um futuro vasto de possibilidades criativas. As raças alienígenas que descreve não são totalmente originais, pois tomam emprestadas as aparências de algumas que já vimos em outras ficções. Há alienígenas humanoides com aspecto reptiliano; outros com escamas que se assemelham a peixes; e ainda os que se parecem moluscos cheios de tentáculos, e por aí vai. Todos sapientes. Ela não foi original na elaboração das aparências, mas buscou um modo criativo de imaginar a interação de seres inteligentes com formas distintas. Das diferenças físicas e culturais entre eles, Becky criou oportunidades de levantar questões que tratam de conceitos como vida, amor, comportamentos socialmente aceitáveis, convivência pacífica entre diferentes povos, cooperação entre seres de espécies variadas, entre outros. Fragmentos de documentos, noticiários, e outros artifícios literários enriquecem o universo com informações acerca de conflitos políticos, e estudos sobre a evolução da vida na galáxia (por exemplo, a razão de haver semelhanças entre elas, apesar das muitas diferenças).

Também merece menção as pinceladas que Becky dá sobre o futuro da Terra, e sobre aqueles que não quiseram abandonar o planeta natal. Há duas vertentes: os gaiaístas e os sobrevivencialistas. Enquanto os primeiros pregam a recuperação da natureza da Terra sem intervenções tecnológicas, os segundos defendem uma vida em contato direto com a natureza. Há bem mais peculiaridades que descobrimos durante a leitura, e um interessante debate entre Rosemary, Kizzy e Sissix sobre as diferenças entre ambos, e quão extremistas algumas de suas ideologias são. Também é durante esse debate que mais sobre o passado de Jenks é revelado. Mas são informações cuja descoberta merece acontecer durante a leitura, especialmente por virem das mulheres da tripulação, que fazem tudo ficar mais divertido de acompanhar. Deixo aqui uma amostra:

Mais importante que a parte científica da história é acompanhar o convívio do elenco principal. Seus problemas cotidianos, seus momentos difíceis, seus incômodos com trocas de pele, a iminência da morte, ou o fato de ter sido mãe e não pai, e por aí vai. São personagens cheios de histórias que se cruzam, e que dão vontade de conhecer mais sobre eles.

Ashby vive um relacionamento inter-espécie com uma aeluoniana que é considerado tabu (e reminiscente dos relacionamentos inter-raciais de algumas décadas atrás). Além disto, é uma situação bem compreensível para quem já viveu ou está vivendo um relacionamento à distância, e sabe quão difícil é mantê-lo por muito tempo. Um problema que certamente uma parcela dos leitores de Becky já enfrentou, e com o qual conseguem se identificar. Isto aumenta nosso envolvimento com os dramas dos personagens.

Jenks busca algo que é proibido: um corpo para Lovey, a inteligência artificial que é apaixonada por ele e que cuida da Andarilha como uma entidade onipresente. Seu dilema me remeteu à série em quadrinhos Alex + Ada (mais sobre ela aqui e aqui). Enquanto lá o que estava em jogo era a autoconsciência, aqui é a liberdade de uma I.A. ter corpo e existência física. Becky abordou com delicadeza a questão do que define os limites entre uma ferramenta inteligente e um ser artificial com individualidade, consciência e paixões. É uma atualização da velha história do amor proibido pelos tabus sociais.

Sissix, por ser mais centrada, se importa com o bem estar de todos, e tenta cuidar deles quase como uma mãe, papel que ela meio que divide com o Dr. Chef, que adora preparar as refeições pra toda a tripulação.

Kizzy é aquele tipo de pessoa de bem com a vida com quem você gostaria de sair. De longe é a mais carismática e divertida da tripulação, além de ser meio maluca.

O elenco principal na interpretação de SebasP

Tudo isto corre paralelo à trama central, que acompanha a viagem da Andarilha até Hedra Ka, planeta localizado no núcleo da galáxia, de onde perfurará um túnel que o conectará ao centro da Comunidade Galáctica. Hedra Ka é disputado pelos toremis, uma espécie conhecida por ser bastante hostil (daí o título do livro).

Sissix (fan art de artista desconhecido)

A obra pode desagradar quem prefere histórias que seguem um enredo central. A “longa viagem” do título envolve diversas paradas em outros planetas, entre eles o mundo natal de Sissix. Mesmo que seja interessante entender as complexas relações familiares dos aandriskanos – que Becky usou para falar de diferentes configurações de família- pausas como esta na trama principal podem incomodar quem prefere uma narrativa sem muitos rodeios. Ironicamente, “sem rodeios” também é a forma como os aandriskanos lidam com sua sexualidade em seu mundo natal. Pra começar, andam todos nus, e quando sentem vontade de fazer sexo, não há pudores que os impeçam de praticá-lo onde quiserem. Faz parte da cultura deles. O que, obviamente, deixa Rosemary desconcertada. Becky “se redime” no fim do capítulo sobre o reencontro de Sissix com sua família ao usá-lo para aproximá-la mais de um dos tripulantes da Andarilha.

Há momentos de grande sabedoria no livro. Quando a tripulação descobre sobre o passado de Rosemary, e Jenks sugere que ela converse com o Dr. Chef, Becky usa a conversa deles pra contar a história do médico/cozinheiro grum, nos brindando com reflexões sobre a origem da maldade, e nossa responsabilidade pela escolha entre o bem e o mal. Passagens como esta:

O companheirismo e altruísmo dos tripulantes da Andarilha compensam a estrutura episódica do livro, que mais lembra uma série de TV do que um romance. Becky estava mais interessada em focar nas relações dos personagens, desafiá-los e testar novas dinâmicas entre eles, e soube como despertar no leitor simpatia por eles, mesmo quando foca no mais antipático de todos. Um dos capítulos mais reveladores do livro consegue justificar a personalidade de Corbin, sendo um exemplo de como redimir um personagem, e fazê-lo conquistar nossa compaixão. Além disto, é um belo estudo do personagem, que nos faz rever seus atos de uma nova perspectiva.

Com Ohan, a autora tentou um “movimento” perigoso, ao igualar a visão privilegiada que ele tem da estrutura do espaço-tempo com uma experiência religiosa, e explicá-la cientificamente como o sintoma de uma doença causada por um vírus. Ou seja, o que torna Ohan um sianat par é uma doença e também uma espécie de religião. Por isto aqueles que tentam curá-lo são vistos como hereges pelo sianat, que aceitou sua condição. Na reta final, Ashby e Kizzy descobrem uma cura, que pode salvar a vida de Ohan (o preço que a doença cobra é o encurtamento da vida do hospedeiro do vírus). Isto gera um conflito entre Ohan e seus companheiros, que contrasta com seu comportamento mais pacífico durante a maior parte do livro. Difícil não enxergar nisto uma analogia do fanatismo religioso. Isto também gera um debate interessante sobre o quanto devemos interferir nas decisões de um amigo, quando elas são fruto de suas culturas e crenças.

Dr. Chef (fan art de artista desconhecido)

Há no livro uma grande preocupação da autora em defender o respeito às diferenças culturais, religiosas, comportamentais e sexuais. Por isto o elenco tão diverso, os relacionamentos inter-espécies, e as famílias disfuncionais (Kizzy é filha adotiva de um casal gay; Jenks é filho de mãe solteira; o pai de Rosemary é um criminoso; Sissix é de uma cultura em que cada indivíduo integra três famílias em fases distintas da vida, sem apego obrigatório aos filhos biológicos; Dr. Chef é de uma espécie que muda de sexo como parte de seu ciclo vital; e Lovey é uma inteligência artificial que individualizou-se ao ponto de se apaixonar por Jenks e desejar ter um corpo humano).

Do mais recluso ao mais detestável dos membros da tripulação da Andarilha, terminamos o livro nos importando com o destino de todos. Becky merece todos os elogios possíveis no que diz respeito ao desenvolvimento de seus personagens. Todos conquistam nossa simpatia, mesmo que em diferentes proporções. E nem poderia ser de outra forma, pois diversidade também exige sua dose de relatividade, e ninguém é obrigado a gostar de todos na mesma medida. Essa é a essência da diversidade: o respeito pelas diferenças, e sua aceitação.

Além de usar Ohan para este fim, Becky também fala de fanatismo religioso através dos toremis, aliens que vivem próximos do núcleo da galáxia. Eles representam os povos que se matam por discordarem das crenças religiosas uns dos outros. O risco dessa intolerância atingir mais povos além deles, e espalhar-se para um quadro mais global (ou galáctico, neste caso), é o que move a reta final de “A Longa Viagem“.

Há episódios tensos entre os narrados no livro, mas nenhum deles se equipara ao que ocorre num dos capítulos finais, quando a capacidade dos tripulantes da Andarilha trabalharem em equipe é testada da maneira mais extrema. É nele que Becky prova quão importante foi contar um pouco da vida de seus personagens nos capítulos anteriores. Todos se provam essenciais para criarmos vínculos com os personagens. Pode não ser a leitura mais empolgante e impactante que você terá de uma ficção científica, mas a experiência de conhecer Rosemary, Ashby, Sissix, Lovey, Jenks, Kizzy, Dr. Chef, Ohan e até o insuportável do Corbin, compensa a falta de ação, tramas mirabolantes, ou uma história mais pretensiosa.

Por isto o que acontece a um dos membros da reta final é como um soco no estomago do leitor. Você sente seu impacto emocional, e lamenta seu efeito em todos os tripulantes da Andarilha. Becky trabalhou tão bem a relação entre eles, que é dolorosa a experiência de ler os capítulos finais, os quais tratam de problemas como luto, despedidas e mudanças. Todos temas com os quais tivemos ou teremos que lidar no percurso de nossas frágeis existências neste pequeno planeta ora hostil, ora maravilhoso.

Mudanças são situações desafiadoras para qualquer pessoa. O que Ashby tem em sua tripulação é uma série de mudanças prestes a acontecer. Eu consegui me conectar a isto. É difícil aceitar o fato de que nem todos vão durar para sempre em nossas vidas. Becky escreveu uma história de indivíduos de origens tão distintas quanto a distância entre planetas, que, apesar disto, encontraram um meio de conviverem amigavelmente. Mas essa história não é apenas sobre a convivência deles, ela é também sobre como afetam uns aos outros, e como a ausência de alguns afetará os outros. Em suma, é sobre despedidas, e como podemos aprender a lidar com elas através de histórias. A verdade é que boa parte de nós não está pronta para aceitar o fato de que uma das constantes da vida é a mudança, e que todos nós, sem exceções, estamos aqui de passagem. Assim como um livro não dura para sempre, e nos obriga a nos despedirmos de seus personagens após concluída a leitura, uma pessoa passa por nós, e até vive conosco por boa parte de nossa existência nesse mundo. Mas isto pode mudar no futuro. Certamente irá. E dificilmente você não sofrerá com sua partida. Então, o melhor que podemos fazer é aproveitar os bons momentos, e orar para que estejamos prontos para os ruins, quando eles vierem. Toda mudança tem sua parcela de dor, mas toda evolução e amadurecimento necessita de mudanças. Becky sabe disto, e parte do livro é sobre como aceitarmos e nos prepararmos. Ou pelo menos é assim que ele soou pra mim. Pra você pode ser apenas uma história criativa com personagens cativantes se aventurando em locais perigosos do universo. Mas toda mudança tem um pouco de aventura, certo? E toda aventura tem sua parcela de divertimento. Então, que aprendamos a nos divertir, mesmo diante do risco de não conseguirmos aceitar todas as mudanças e partidas e recomeços que decorrerem dessa aventura, da qual todos participamos, chamada Vida.

Ah sim! E tem um momento, no final, entre Jenks e Kizzy, que vale por todo o livro. É com ele que encerro esta resenha:


DarkSide Books

Tradução: Flora Pinheiro

Capa dura

22,9 x 16 x 2,3 cm

352 páginas

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