[LIVRO] A Imortalidade: Milan Kundera no limite do onírico (resenha)

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Com o rádio ligado, repousando no limbo que invade o corpo momentos antes do despertar, o narrador deixa que seus pensamentos flutuem e se deixem guiar pelas ondas de rádio, que ora são movidas pela voz mais aguda do narrador mais animado que dá notícias confusas – misturadas pela embriaguez do sono do ouvinte – ora, move seu foco para coisas mais sérias, como uma determinação do importante deputado Bertrand Bertrand (e que nome capaz de provocar sono, não?). Estamos em um sonho ou não?

O que Kundera parece fazer em A Imortalidade (assim como em todos os seus livros) é suspender no ar, como faria um malabarista, um grande número de elementos coloridos de diferentes formas e funções, não relacionados uns aos outros. E lá ficam tais elementos: suspensos no firmamento, jogados pelo autor a fim de que nós, leitores, não possamos ter noção de que forma terão quando caírem. Aos nossos olhos, por demais destreinados diante da mente genial de Milan Kundera, parecem fadados a caírem desajeitados e sem forma certa os objetos suspensos, dando à trama até então escrita um tom sem sentido, uma não coerência digna de quem se faz de intelectual sem compreender sequer os óculos que porta à ponta do nariz.

Contudo, Kundera une com maestria cada elemento que conduz de volta ao lugar onde deveria estar – antes de suspenso por seu fazer literário – fazendo da cama de gato, do emaranhado louco de linhas vitais que se enrolam umas nas outras, um belo filtro de sonhos.

a imortalidade milan kundera Man Walking Dog in a Rainy ParkÉ impossível dizer, em A imortalidade, quem é o narrador/autor onisciente Kundera e quem é simplesmente o personagem romancista Kundera, amigo do confuso e rebelde professor Avenarius. Ao tecer a trama de seu (literalmente) indescritível romance, vemos Autor dissolver-se em personagem e vice-versa, cena a cena, página a página, em cada passagem, com a minúcia de que, ao termos em cena apenas o romancista não onisciente Kundera em jogo, temos também apenas a narrativa superficial (não psicológica) dos personagens adjacentes.

Ao jogar com o real/irreal, ficção/relato verídico, Milan Kundera faz não só de si mesmo um personagem, cuja fluidez o faz passear entre o verídico e o criado, mas também os outros personagens. Não só o Professor Avenarius, primeiro apresentado a ter contato com Kundera e, conforme já sucintamente comentado, apenas descrito em sua forma psicológica quando afastado de seu amigo romancista.

Mas logo vemos que outros personagens passam a atravessar livremente o limiar criado pelo autor desta forma que apenas ele, em sua genialidade ímpar, poderia fazê-lo.

E quanto a este aspecto permanecerá a pergunta: Em A Imortalidade estamos lidando com personagens criados pelo Milan Kundera criador do Kundera romancista, ou simplesmente lidamos com personas feitas pelo romancista Kundera?

Ou os dois?

Talvez. A interpretação dependerá unicamente do leitor e de sua capacidade de abstração nesse livro que, conforme o próprio autor confidencia a Avenarius em determinado ponto, não foi feito para ter seu enredo recontado. Afinal, se fosse fácil que sua trama fosse reproduzida, seria deveras fácil colocar o livro em uma mídia cinematográfica, o que desagradaria absolutamente nosso misterioso e, por que não dizer, fluido, Milan Kundera.

a imortalidade milan kundera oculos antigos aquarelaA imortalidade começa tratando da história de Ágnes, criada, conforme já mencionado, dos devaneios oníricos matinais do narrador, que fixou-se no rosto de uma mulher madura que viu passar muito fugazmente ao fim da aula de natação ministrada pelo professor Avenarius. Ao ganhar atenção do autor, tornando-se foco momentâneo dele, notamos que o núcleo da existência da persona Agnes orbita em torno de seu falecido pai, com quem matinha uma relação próxima e de muita identificação. Enquanto sua irmã mais jovem, Laura, parecia-se por completo com sua mãe, em seu jeito impetuoso e intempestivo, Agnes era fleumática e pouco afeita a grandes reações com seu pai. Por essa razão, não era raro que ambos estivessem sempre juntos. E por essa razão também, não era raro que, havendo morrido primeiro a mãe de Laura e Agnes, o pai tenha se afastado de todos, e apenas Agnes tenha tentado compreender seu movimento de isolamento. Durante todo o romance vemos Agnes evocar a figura e lembranças doces e melancólicas do falecido genitor, que conferem ao homem uma imortalidade de tal forma pessoal a esta personagem da qual falo agora, que só quem lê este livro poderia compreender. O pai de Agnes (cujo nome jamais é mencionado, pois não haveria importância dar nome a alguém cuja imortalidade reside apenas no fato de haver sido pai da Agnes) é tão chamado por sua filha em pensamentos, recordações, momentos de reflexão, que mesmo após morto, permanece presente em muitas coisas, estando, ousaria eu dizer, mais presente até mesmo que seu marido, sua filha e tantos outros vivos que a cercavam. Agnes, a todo momento, mesmo sem o consentimento de seu genitor, dava-lhe a inescapável Imortalidade.

Mas quando ela mesma pensava na possibilidade de haver para si mesma – ou seja, na realidade tangente – uma forma qualquer de vida após a vida, ou seja, uma maneira qualquer de imortalidade, seus pensamentos acerca disso são perturbadores.

Seria a continuidade da existência não corpórea um eterno conviver com o insuportável murmurar das falantes colegas de sauna, ou o perpétuo claustro familiar. Não suportaria nem um, nem outro.

Podemos imaginar que a ideia de imortalidade em alguns momentos do livro se aproximam das expostas por Grant Morrison em seu livro Superdeuses (Seoman, 2012):

a imortalidade milan kundera copo aquarela“Agora eu era capaz de “ver” numa perspectiva em 5-D. Tornou-se impossível olhar para um copo, por exemplo, sem vê-lo como a superfície visível de algo muito maior e ainda mais espantoso; algo que recuava através de seu progresso até minha mesa e além, de volta até sua fabricação. O copo era o topo de um fio que, se pudesse ser seguido de volta através do tempo, tinha uma conexão física imediata com as origens dos leitos pré-históricos de argila criados pela desagregação das rochas primordiais, compostas de elementos de uma estrela em resfriamento, que por sua vez era uma fagulha resplandecente de uma inimaginável, e ainda ocorrente explosão na aurora do tempo e do ser. Somente aquele copo fora todas estas coisas no tempo. Um dia ele se quebraria, mas seus fragmentos prosseguiriam eternamente. Se um copo era um processo espetacular, em constante mutação, desagregação e reformulação incessante, como seria o corpo humano, metamorfoseando-se de maneira mais extravagante e total que qualquer lobisomem de efeitos especiais, da pequena e flexível infância à encorpada maturidade auto-consciente e auto-replicante da adolescência, até a flacidez da meia idade, e a folha seca em decomposição da senhorilidade? Mesmo quando morremos nosso processo físico continua; séculos reduzem nossos corpos a pó, reciclando cada átomo de tal forma que o ar que você respira hoje pode conter uma partícula do que uma vez foi Napoleão. Um átomo de ferro em seu corpo pode ter saído da sobrancelha de Jesus Cristo.”

(Traduzido por Rodrigo Ferreira)

Sentimos em todos os romances de Kundera, mas sobretudo neste, que o cotidiano é um plano de fundo pintado com cores fortes no teatro em que atuam as personagens criadas – ou orquestradas – pelo romancista.

a imortalidade milan kundera oculos escuros aquarela

As analogias usadas pelo autor são um excelente exemplo disso. As comparações utilizam elementos ordinários e, por isso, deveriam ser hediondas. No entanto, até mesmo as pequenas coisas – os óculos de sol de Laura, ou os óculos de grau de Bettina, a foto ampliada, o corpo da mulher vitimizada emagrecido, a ridícula imagem de duas mulheres crescidas no colo de um homem de meia idade – tornam-se poéticas e únicas, ao mesmo tempo que ganham uma solidez realista na pena de Kundera.

A cada parágrafo temos ainda o autor a entornar mundos de pequenas informações que, sendo no enredo pequenos pontos de apoio, vão unir-se à frente em um futuro que, na realidade, não é futuro. Não há uma linearidade temporal.

E se de súbito o autor se volta para a querela de Goethe e, em seguida retorna a Paul, indo em seguida para Avenarius e percorrendo as confusões de Laura e Agnès pelo simples intuito de mostrar como as diferentes formas de Imortalidade podem se apresentar: no diálogo entre Hemingway e Goethe, na Imortalidade consciente e metalinguística, na Imortalidade imaginada, na Imortalidade daqueles que ficam marcados para sempre na história da humanidade por um ato grandioso, ou na Imortalidade daqueles que cometem o erro patético de marcar seus nomes no infinito decorrer do tempo com as letras mais tortas?

Afinal, caro leitor… De que fala a imortalidade?

Só quem se aventurar (e este é um desafio) poderá compreender a força da entidade da qual jamais nenhum de nós se livrará.


a imortalidade milan kundera companhia das letrasTítulo original: L’IMMORTALITÉ

Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Anna Lucia Moojen de Andrada
Capa: Alceu Chiesorin Nunes
Páginas: 408
Formato: 14 x 21,5 cm
Acabamento: Capa dura
Lançamento: 27/01/2015
Selo: Companhia das Letras

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nota-5


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