[LIVRO] A Guerra Que Me Ensinou A Viver, de Kimberly Brubaker Bradley (Resenha)

A continuação de A Guerra Que Salvou A Minha Vida

“É possível saber um monte de coisas e mesmo assim não acreditar em nenhuma delas.”

Página 09, Capítulo 01

Ano passado, a pequena Ada Smith me transportou aos duros anos das duas Grandes Guerras, e me mostrou, através de seus olhos, o que acontecia lá fora, quando homens matavam homens por serem homens com o sangue vermelho errado. Ada também me mostrou, através de seus sentimentos, a guerra que travava dentro de si mesma.

Este ano tive a agradável surpresa de saber que a história da pequena Ada teve continuação. E é claro que tive o prazer de acompanhar um pouco mais da sua trajetória.

A Guerra Que Me Ensinou A Viver explora com uma profundidade sutil, mas esmagadora, as marcas que uma pessoa pode deixar em outra, usando palavras, certas ou erradas. Já no início do livro, Ada é atacada por emoções conflitantes: a cirurgia corretiva de seu pé torto e a morte da sua mãe num bombardeio. Talvez as duas emoções fossem boas. 

É verdade?”, perguntei.

“É verdade.”, ela respondeu.

“Verdade verdadeira?”

“Eu lamento muito.”, disse Susan.

“Lamenta mesmo?”, perguntei.

Eu lamentava? Achava que sim.

Talvez? Minha mãe me odiava.

A senhora não precisa ficar com a gente, eu tinha dito a ela uma semana antes, em Londres. E isso é garantido? Ela respondera.

Agora era.”

Página 15, Capítulo 02

“Não passa de um monstro, com esse pé horrível. Era o que a mãe dizia e repetia, até que eu desse tudo o que eu tinha para não acreditar nela.

Eu nunca mais teria que ouvir aquilo.

Uma súbita onda de desespero me dominou. “Era só isso?”, perguntei, encarando a Susan. “Uns dois meses no hospital davam jeito?” Eu passara a vida infeliz por causa daquele pé.”

Página 30, Capítulo 03

A guerra ainda era horrível e as coisas continuavam a piorar. A guerra dentro de Ada também chegava a um ponto crítico. A menina não parava de pensar que não estava sentindo direito. Eu devia me sentir triste por alguém que nunca me deu amor? Por que não posso dizer que estou aliviada? Jamie, seu irmão, ainda precisava dela. Mais agora. Não havia mais o pé torto, e eles eram órfãos.

Os dias se passaram, o funeral aconteceu, Susan não os mandou embora. O pé de Ada foi sarando, os dias foram ficando mais perigosos, Susan não os mandou embora. O racionamento apertou, Ada descobriu a data de seu aniversário, podia montar seu pônei, o Manteiga. Susan não foi embora, não os mandou embora. O que havia de ruim nisso?  O que havia de ruim comigo? Eu não merecia nada daquilo, merecia?

“Eu estava apoiada nos dois pés, sem muletas, usando dois sapatos. Conseguia ler, conseguia cantar. Tinha ido até a igreja já caminhando, mesmo sendo um pedação. Precisava me lembrar disso. Tentei me forçar a me sentir feliz, mas por sob a felicidade eu estava espinhosa, como se toda a pele do meu corpo estivesse esticada demais. Eu podia não ser uma aleijada, mas ainda não sabia quem eu era.”

Página 62, Capítulo 10

É curioso. Senti tanta empatia por Ada, em tantos momentos do livro, que muitas vezes quis tirá-la das páginas para acalentar a pequena, dizer que tudo ficaria bem, que a vida seria dura, alguns dias implacáveis, mas que tudo ficaria bem. É incrível o que você descobre quando se dispõe a enxergar o mundo do outro.

Impressionante as pessoas maravilhosas que conhecemos, como Ada nos mostrou ao longo das páginas, onde uma criança alemã judia é só uma criança, uma senhora rica também é uma mãe e mulher que sofria. E como uma menininha, que um dia teve o pé torto, e por muito tempo emoções tortas, sabia de um monte de coisas, e hoje acreditava em cada uma delas.

 

 


DarkSide Books

Capa dura

Tradução: Mariana Serpa

21 x 14 x 2,4 cm

280 páginas

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