[LIVRO] A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (resenha)

Dizer que A Guerra dos Mundos é um dos grandes clássicos da ficção científica é chover no molhado. Assim como falar que ele foi uma das primeiras – e uma das melhores – histórias sobre invasão alienígena. H. G. Wells foi um visionário. Pronto, aí estão três afirmações clichê sobre a obra.

Agora que as tirei do caminho, analisarei as muitas qualidades que tornaram o livro uma referência para várias gerações de autores de ficção científica. Começarei pela escolha dos “vilões.”

Independente de ser datada a ideia de Marte ter vida inteligente, a capacidade de um autor criar um suspense crescente enquanto prepara o leitor para a chegada de uma grande ameaça aos seus personagens é uma qualidade apreciável em qualquer época. Wells tinha o dom de construir aos poucos a tensão que antecede um evento maior. Isto acontece durante os dois primeiros capítulos, que relatam a chegada do primeiro cilindro disparado de Marte contra a Terra, trazendo em seu ventre os marcianos. Wells foi muito preciso e elegante na construção do clima e do cenário, fechando um ciclo e abrindo outro com a chegada do segundo cilindro.

Logo no primeiro capítulo há uma verdadeira lição de humildade, quando Wells nos compara a microorganismos diante da superioridade intelectual dos alienígenas. E mais tarde, embora as comparações avancem na escala evolutiva, elas continuam salientando nossa inferioridade tecnológica e intelectual diante deles:

Da mesma forma, algum respeitável dodô nas Ilhas Maurício deve ter se gabado em seu ninho, discutindo a chegada de um navio cheio de marinheiros implacáveis em busca de alimento animal. “Amanhã vamos bicá-los até a morte, querida.”

Página 95

Parte do fascínio de Guerra dos Mundos é devido ao fato de ambientar-se na mesma época em que Wells viveu (a edição original foi lançada em 1898). Isto ampliou a sensação de impotência do narrador diante da ameaça alienígena. Estou falando de um período em que ainda se locomovia usando tração animal ou, quando muito, locomotivas a vapor. Além disto, a comunicação era muito limitada – a maioria das pessoas dependia de cartas, jornais ou telégrafos para descobrirem o que estava acontecendo em localidades mais distantes de onde viviam, e normalmente as informações demoravam a chegar. Muitos com quem o narrador cruza sequer sabem da invasão marciana. Isto dá à história um tom angustiante. Boa parte desse tom se perdeu nas adaptações que o livro teve para o cinema.

Também vale apontar para o brilhantismo de Wells em descrever os ataques marcianos de maneira vaga e enigmática, levando em conta que o narrador está diante de tecnologias que não compreende. Wells também é excepcional narrando sequências de ação. O capítulo 12, “O que eu vi da destruição de Weybridge e Shepperton“, é um exemplo desta habilidade do autor:

Mas devo dizer que me incomodou a decisão de Wells descrever a aparência dos marcianos tão cedo no livro. Um pouco mais de suspense neste ponto da história tornaria os invasores mais temíveis.

Em compensação, há muitas lições que podemos extrair da narrativa de Wells. Um exemplo é quando ele descreve de maneira vaga um combate dos militares contra os marcianos do ponto de vista de um cidadão comum; ou quando relata a primeira visão que o narrador tem dos trípodes durante uma tempestade. São verdadeiras aulas de como provocar terror descrevendo fragmentos da realidade ao invés de entregar tudo de bandeja. E foi uma ótima sacada imaginar as máquinas bélicas marcianas como versões gigantes e mortíferas de seus corpos. São praticamente mechas de combate, talvez um dos primeiros da ficção científica.

Um dado interessante a ser salientado é que, ao contrário de grande parte das histórias sobre invasão alienígena, nesta tudo começa em regiões interioranas da Inglaterra, quase rurais, antes de atingir a capital.

Aquele era o mundinho onde eu vivera tão protegido durante anos, aquele caos ardente!

Página 121

O estado crescente de medo e pânico é uma das qualidades da escrita de Wells, que soube dosar muito bem a escalada de terror desperto pelos marcianos, conforme eles avançam pela Inglaterra vitoriana, num cerco cada vez mais próximo de Londres, símbolo do poder dos ingleses e seu império terráqueo.

A onda de desespero, pânico e caos foi muito bem narrada por Wells, que conseguiu transmitir a sensação de ruína inescapável resultante das consecutivas vitórias dos marcianos, e suas inúmeras técnicas de extermínio. As tecnologias e armas empregadas pelos alienígenas são tão temíveis quanto incompreensíveis em seu funcionamento. Com isto Wells aumentou a sensação de impotência, com os marcianos agindo quase como arautos do Apocalipse:

Já vimos como foi a formidável onda de medo que varreu a maior cidade do mundo no alvorecer da segunda-feira – o fluxo de pessoas em fuga tornando-se rapidamente uma torrente, desaguando num furioso tumulto ao redor das estações de trem, amontoando-se em terrível disputa ao redor da frota do Tâmisa e fugindo por todos os canais disponíveis nas direções norte e leste. A organização policial, já às dez horas, e até mesmo as organizações ferroviárias, ao meio-dia, perdiam a coerência, a forma e a eficiência – esgarçavam-se, amoleciam, até enfim juntarem-se à veloz liquefação do organismo social.

Página 173

E já que citei os arautos do apocalipse, também funcionaram muito bem, dentro do contexto da trama, alguns pontuais paralelos que Wells estabelece entre a invasão marciana e personagens bíblicos, em passagens como esta:

Os terrores invisíveis dos marcianos estavam por toda parte – a implacável espada de calor parecia riscar o céu de um lado a outro, pairando sobre mim antes de descer e me fulminar.

Página 91

Há ainda alguns breves debates religiosos, especialmente quando o narrador conhece um padre:

– Por que isso é permitido? Que pecados cometemos? O culto matinal tinha terminado, eu andava pelas ruas para refrescar a cabeça para o culto da tarde, e então… fogo, terremoto, morte! Como se fosse Sodoma e Gomorra! Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?

– O que somos nós – respondi, limpando a garganta.

Página 146

[…]

– Seja homem! – disse eu – Está enlouquecendo de medo! De que adianta a religião se ela desmorona diante da calamidade? Pense no que terremotos e enchentes, guerras e vulcões já fizeram antes à humanidade! Achou que Deus havia isentado Weybridge? Ele não é um corredor de seguros, homem.

Página 148

Aliás, esse padre é, sem dúvida, o personagem menos carismático e mais irritante do livro, por sua covardia e falta de empenho na luta pela sobrevivência, usufruindo do que o narrador conquista com seu próprio esforço. Ele age como um parasita. Pela forma como Wells o caracterizou, dá pra deduzir que o padre foi usado para expressar sua visão da Igreja Católica como uma instituição falida, pelo menos no que diz respeito à sua (in)capacidade de confortar seus fiéis diante da tragédia que se abate na Inglaterra. Se era intenção de Wells tal interpretação eu não sei, mas não há dúvidas de que é uma leitura possível.

Outro detalhe que chama a atenção é a tentativa de Wells ligar o ataque dos marcianos à Providência Divina, sugerindo que ele foi uma forma de Deus punir os ingleses por seu imperialismo. Neste ponto fica mais visível a veia socialista de Wells.

Se aprendemos alguma coisa com essa guerra, decerto foi a piedade – piedade pelas almas ingênuas que sofrem nosso domínio.

Página 257

Também merece atenção a forma mais documental com que o narrador relata os eventos ocorridos com seu irmão em Londres, simulando uma crônica jornalística feita a partir de fragmentos de informações de fontes variadas. Isto deu verossimilhança à narrativa, além de remeter aos melhores contos escritos por H. P. Lovecraft num estilo muito parecido.

Alguns capítulos são propositalmente extenuantes de ler. Um exemplo é o 16, que relata a fuga do irmão do narrador de Londres, onde não há presença dos marcianos, mas o temor de sua vinda impulsiona uma turba humana que regride a um estado que beira à barbárie, igualando toda as classes sociais, como uma espécie compulsória de “comunismo apocalíptico”:

“Mulheres tristes e abatidas andavam penosamente, bem vestidas, com crianças que choravam e tropeçavam […]”

Página 181

[…]

“Nunca antes na história mundial tantos seres humanos deslocaram-se e sofreram juntos.”

Página 188

“É certo que muitos morreram em casa, sufocados pela fumaça negra.”

Página 189
(seria um presságio das câmaras de gás nazistas?)

Comparada à parte 1 do livro, a parte 2 é mais lenta e desinteressante em alguns pontos. Eu entendi que Wells quis imergir o leitor na rotina monótona e claustrofóbica do narrador, em seus dias de confinamento com o padre, quando passa sede e fome. Ele até conseguiu traduzir em palavras a degradação física e psicológica de ambos. Mas creio que poderia ter imaginado uma situação menos enfadonha para narrar, do que dois homens presos nos escombros da queda de um dos cilindros marcianos. Ela até serve para apresentar os invasores em mais detalhes, mas não acho que foi uma boa estratégia para manter o leitor interessado no desenrolar da trama.

Também me cansei lendo o capítulo em que Wells descreve mais detalhes da biologia marciana. Pode ter sido algo impressionante na época em que Guerra dos Mundos foi publicado pela primeira vez, mas quando lido hoje o capítulo soa datado, ao contrário dos anteriores, que mesmo após quase 120 anos funcionam muito bem. Isto comprometeu um bocado do terço final da obra.

Clique aqui se não liga para SPOILERS

Mas preciso admitir que foi muito boa a sacada de imaginá-los como o extremo de seres inteligentes totalmente dedicados a atividades intelectuais, com membros e aparelho digestório tão atrofiados que necessitam usar substitutos biomecânicos para se locomoverem, e de se alimentar de sangue por sua incapacidade de digerir alimentos sólidos. Ou seja, são vampiros alienígenas.

[collapse]

Somente no capítulo 4 da parte 2 é que Wells se redime, investindo na construção de uma sequência de suspense que é tão boa que foi reproduzida nas adaptações do livro pro cinema. Falo daquela em que um marciano fica muito próximo de capturar o narrador / protagonista.

No geral é um tanto penosa a leitura dos capítulos finais. A sensação de abandono e desesperança transmitida pelo texto é bem forte. Como num apocalipse zumbi, os seres humanos disputam migalhas para sobreviverem enquanto um “agente invasor” se espalha pelo mundo, o que é reforçado pela presença das ervas vermelhas que eles plantam no solo londrino. Com sua genialidade, Wells antecipou muitos temas que seriam explorados em diversas obras futuras, sob contextos diversos.

O encontro do narrador com o artilheiro na reta final de Guerra dos Mundos é emblemático por salientar o quanto a invasão marciana afetou a mente e as crenças de seus sobreviventes. Alguns leitores podem achá-lo extremista quando ele diz que o Homem deve regredir a uma vida animalesca para sobreviver. Mas basta lembrar-se do que já vinha acontecendo antes do narrador reencontrar o artilheiro. Ainda assim, Wells usou o artilheiro parar representar aqueles que menosprezam os incapazes de agir pragmaticamente em situações extremas:

Eles não têm energia, nenhum sonho ou desejo nobre, e um homem que não tem nem um nem outro… vive apenas às voltas com medos e precauções! […] Bem, para eles os marcianos são enviados dos céus. Terão jaulas amplas e confortáveis, comida para engordar, reprodução cuidadosa, nenhuma preocupação. Depois de uma semana vagando pelos campos de barriga vazia, eles darão graças a Deus quando forem presos. Mais tarde, ficarão felizes. Perguntarão o que as pessoas faziam antes de chegarem os marcianos para tomar conta delas.

Página 264

Homens como o artilheiro passam a cogitar novos meios de sobreviver como subespécie num mundo dominado pelos marcianos, movendo-se furtivamente nos subterrâneos (uma bem possível auto-referência irônica de Wells, se levarmos em conta que os Morlochs de “A Máquina do Tempo” – lançado 3 anos antes de Guerra dos Mundos – viviam assim no futuro imaginado por Wells).

Outra ironia, que ainda hoje é uma das melhores sacadas da história da ficção científica, é a causa da derrota dos marcianos, que é brilhante por remeter diretamente ao primeiro parágrafo do capítulo 1. Mas esta vale a pena descobrir durante a leitura (caso ainda não saiba). Por isto, recomendo não ler o prefácio de Braulio Tavares, nem a introdução de Brian Aldiss antes da história. Faça isto depois! Apesar de serem excelentes análises literárias e históricas da obra e da vida de H. G. Wells, seus textos contém spoilers da trama.

Além deste material extra, a belíssima edição da Suma de Letras tem uma transcrição da entrevista que Charles C. Shaw fez com o cineasta Orson Welles e com H. G. Wells em 1940, na qual os três falaram sobre a mundialmente famosa adaptação radiofônica de Guerra dos Mundos feita por Welles dois anos antes.

E não posso encerrar essa resenha sem elogiar a decisão de incluir as ilustrações do brasileiro Henrique Alvim Corrêa, feitas originalmente para uma edição belga de Guerra dos Mundos publicada em 1906. Além de muito bem feitas, sua inserção entre os capítulos reforçou o clima devastador e aterrorizante que permeia o texto de Wells, que foi amigo de Alvim Corrêa. Só este extra já compensa a aquisição dessa edição da obra, que certamente é uma das mais belas já lançadas no Brasil, e está à altura de sua importância na história da ficção científica.



Suma de Letras

Tradução: Thelma Médici Nóbrega

Capa dura

23,2 x 16,2 x 2,2 cm

310 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino