[LIVRO] A Floresta Sombria, de Cixin Liu (resenha)

Após descobrir que a Terra será invadida por alienígenas tecnologicamente muito superiores, a humanidade tem 400 anos para encontrar meios de combatê-los. Para isto é criado o Projeto Barreiras, dando a quatro indivíduos recursos quase ilimitados para buscarem formas de evitar nossa extinção.

Antes de começar a falar de A Floresta Sombria, o Livro 2 da trilogia O Problema dos Três Corpos (cujo primeiro livro eu já resenhei), escrita por Cixin Liu, e publicada no Brasil pela Suma de Letras, gostaria de falar um pouco sobre as obras que li e assisti antes dele. Isto fará mais sentido após a leitura dos dois parágrafos seguintes.

Sugestão: ouça a trilha sonora original de O Vingador do Futuro enquanto lê esta resenha. A experiência será mais rica. 😉

No início do ano eu passei por uma fase em que li muitas histórias sobre o fim do mundo (como nós o conhecemos). Começou em meados do ano passado, quando li o 2º livro da trilogia Arquivos Têmis, Deuses Renascidos (resenhado aqui). Depois resolvi ler As Tumbas de Atuan (resenhado aqui), que apesar de não falar do fim dos tempos, é uma obra cujos personagens passam a maior parte da história em cenários tão desoladores quanto uma realidade pós-apocalíptica. Paralelo à leitura do livro, comecei a assistir Justiça Jovem, que na 2ª temporada mostra o grupo de jovens heróis tendo que lidar com uma invasão alienígena que ameaça todo o planeta. E quando terminei de assistir a série, veio Vingadores: Guerra Infinita, com a união dos heróis da Marvel nos cinemas tentando impedir que Thanos matasse metade dos seres vivos do Universo.

Nesse período também terminei a leitura dos Vingadores de Jonathan Hickman, quando os heróis tiveram que encarar uma ameaça tão devastadora que terminou com o Multiverso sendo destruído. E paralelo a tudo isto, estava assistindo, por recomendação da minha namorada, a Raquel Pinheiro daqui do NGF, a série The 100, que acompanha um grupo de sobreviventes num mundo pós-apocalíptico dominado por clãs.

Onde quero chegar dizendo isto tudo? A resposta é simples: A Floresta Sombria também é da categoria de obras que testam a persistência de seus personagens em suas tentativas de buscar caminhos para que sua espécie sobreviva.

(Cabe aqui um parêntese antes de seguir para a resenha da obra em si: eu luto contra depressão e ansiedade desde a adolescência. Hoje estou com 36 anos e tomo antidepressivos e ansiolíticos há mais de cinco anos pra preservar minha saúde mental. Ano passado, mais especificamente de agosto em diante, estes dois problemas pioraram. Entre os caminhos que escolhi para retomar o controle, um deles foi manter minha mente  ocupada com leituras. Uma dessas leituras foi Deuses Renascidos, que citei no início do texto. Se você tirar um tempo pra ler minha resenha do livro, notará que falei um pouco de meus problemas nela. Também fiz isto em outras ocasiões, como na resenha que escrevi da graphic novel Repeteco, ou na que fiz de As Tumbas de Atuan. Isto porque eu creio que uma das funções da boa obra de ficção é ajudar o leitor a refletir sobre seus problemas e ajudá-lo a buscar soluções. Não digo que encontrei muitas para os meus durante a leitura dessas obras, mas aliviou o peso que eu sentia.)

Talvez você esteja pensando que eu devia investir meu tempo em leituras mais leves que estas. Em parte, até concordo com você. Dependendo do dia, eu prefiro – e até preciso – ocupar minha cabeça com obras mais cativantes e otimistas. Mas tem um aspecto das histórias desesperadoras, como as citadas acima, que tornam suas leituras catárticas: a chance de observar indivíduos lutando para superar situações aparentemente intransponíveis, crises mais extremas do que aquelas que vivemos no dia-a-dia, desafios que estão muito além dos que possivelmente enfrentaremos em nossas vidas. Em Deuses Renascidos os personagens lutam contra invasores alienígenas usando robôs gigantes; em A Floresta Sombria a humanidade se prepara para uma invasão alienígena que acontecerá daqui a 400 anos (!), tentando desenvolver as tecnologias necessárias para, entre outras coisas, criar uma frota espacial. Essas ficções me ajudaram a amenizar os efeitos da depressão e da ansiedade.

Durante a leitura de A Floresta Sombria, um dos sentimentos que mais tive foi a angústia diante das situações extremamente desesperadoras vivenciadas pelos personagens. O primeiro livro da trilogia já era angustiante, neste essa sensação é ainda maior, pois a ameaça alienígena apresentada no livro 1 se torna mais presente, mais próxima, mais desafiadora e inescapável. Tudo parece conspirar para a derrota da humanidade, dentro da cadeia de eventos narrados pelo autor.

Liu inicia o livro 2 com um prólogo que remete sutilmente a Guerra dos Mundos: acompanhamos dois cientistas conversando sobre os axiomas da civilização cósmica do ponto de vista de uma formiga (!). Em seguida, ocorre uma conversa entre um terráqueo e um alienígena de Trissolaris. Nas 11 páginas do prólogo, vamos do ponto de vista de um inseto terráqueo para o de um alienígena que está a mais 4 anos-luz de distância da Terra (1 ano luz equivale a 9.460.730.472.580,8 km), com dificuldades de entender ações humanas como “enganar” e “mentir”. Com este belo e instigante início, Liu atraiu minha curiosidade em poucos parágrafos.

Quatro séculos é o tempo que separa a humanidade dos trissolarianos.

Agora, pare um pouco pra pensar nisto!

Pensou? Então, prossigamos!

A escala temporal imaginada por Liu, somada ao fato dos alienígenas temerem a humanidade pela falta de transparência de nossas mentes, já cria um grande diferencial entre esta e a maioria das ficções científicas que eu já li.

Mesmo com quatro séculos de “vantagem”, a humanidade precisa lidar com problemas muito atuais: as potências globais querem tomar a dianteira, seja assumindo a defesa do planeta, ou tendo a iniciativa de cair fora dele antes dos alienígenas chegarem. Os países mais “desenvolvidos”, previsivelmente, não querem dividir seus conhecimentos e tecnologias com os menos avançados. A velha conhecida “luta de classes” é revivida pela ameaça da extinção da humanidade por um inimigo em comum. Para mim, pouco importou a complexidade das relações políticas e econômicas descritas por Liu – que foi bem esforçado e minucioso em imaginá-las no cenário proposto na obra – porque a mensagem por trás delas é até simples: diante da necessidade de sobreviver, exibimos o que possuímos de melhor e de pior. Diante de nossa possível extinção, resta-nos orar para que o saldo das melhores seja maior que o das piores qualidades naqueles indivíduos dispostos a lutar pelo bem-estar global.

Não posso deixar de admirar a elegância dos contrastes de escala que Cixin Liu faz em A Floresta Sombria. Se logo no início ele relata um momento histórico do ponto de vista de uma formiga, em outro ponto testemunhamos dois oficiais da marinha chinesa conversando sobre as chances da humanidade sobreviver à chegada dos trissolarianos enquanto observam a construção de um porta-aviões, que é comparado a um labirinto de cavernas pré-históricas. Só isto reforça a ideia de que os personagens estão diante de uma tecnologia que, na futura guerra espacial, será uma imensa e inútil sucata.

Outro truque narrativo muito bem usado por Liu é a construção de expectativa pelo encadeamento de ocorrências que deixam o leitor tão curioso e perplexo quanto os personagens. Um bom exemplo disto podemos encontrar na parte 1, quando Luo Ji é conduzido por Shi Qiang numa viagem cujo propósito ele desconhece. Isto logo após testemunhar o atropelamento de sua amante, da qual sequer lembrava o nome (!). Paralelo a isto, tomamos ciência do temor mundial da vindoura guerra contra os trissolarianos, e do quanto ele está afetando a política, a economia e as sociedades do planeta.

Numa outra trama, Liu aborda as dificuldades de Zhang Beihai, o oficial responsável pela Força Espacial Chinesa, para combater o derrotismo que ameaça – nas palavras dele – “erodir o moral” e “colapsar o poder militar”, única forma de defesa futura contra a invasão trissolariana

Tudo isto é bem coordenado pelo autor, em uma narrativa minuciosa que vai alternando entre as tramas para manter nosso interesse no avançar delas, e em seus possíveis cruzamentos.

Um dos pontos mais curiosos do livro é aquele no qual Liu dedica mais de 10 páginas ao que muitos podem considerar, inicialmente, uma digressão sem propósito: o caso de amor entre Luo Ji e uma mulher imaginária, uma personagem que ele criou para um livro que foi pedido de presente de aniversário por sua ex-namorada, uma escritora de livros infantis. Esse é o tipo de recurso literário cujo uso normalmente não esperamos numa obra de ficção científica. Mas Liu o fez com muita sensibilidade, abordando questões psicológicas, filosóficas e até metafísicas, e enriquecendo Luo Ji através de seu amor por um ser ficcional. Além de concluir com um apontamento que justifica todo o seu esforço.

Esse cuidado em criar passagens quase puramente contemplativas é um dos diferenciais da escrita de Liu para a de autores ocidentais do gênero. Ele não hesita em dar-nos momentos de respiro, que nos levam a pensar sobre questões da natureza humana não diretamente relacionadas à trama central, mas ao drama pessoal de seu protagonista, o que também nos ajuda a ter empatia por ele.

Quando finalmente é explicada a ideia do Projeto Barreiras, é difícil não achá-la brilhante. Se os inimigos da humanidade são alienígenas capazes de invadir qualquer tipo de rede de informações, como esconder nossas estratégias de combate deles? Elaborando-as nas mentes de indivíduos especialmente selecionados, de forma que elas fiquem inacessíveis aos sófons (partículas subatômicas “espiãs” capazes de ler e transmitir informações em velocidades maiores que a da luz, enviadas à Terra pelos trissolarianos). Se o conceito em si é engenhoso, os indivíduos escolhidos e os motivos pelos quais foram selecionados são, no mínimo, questionáveis. Mas cabe a cada leitor tirar suas próprias conclusões a partir das ações de cada uma das Barreiras, e suas repercussões na trama.

Os momentos iniciais de Luo Ji como Barreira lembram muito o clima insólito dos livros de Franz Kafka. Imagine se você ganhasse da noite pro dia a responsabilidade de encontrar um meio de salvar a humanidade. É um acontecimento inusitado demais para um indivíduo relativamente comum, certo? Desenvolver essa situação num livro exige uma abordagem diferenciada, e Cixin Liu foi muito feliz em descrever as reações de Luo Ji diante de uma missão dessas.

A maneira como Luo Ji assume seu papel de Barreira é, ao mesmo tempo, muito humana e excêntrica. Além disto, ela casa com a ideia universal de busca por um objetivo pelo qual lutar, o que ele encontra fatalmente, fazendo uso dos poderes que ganha para cumprir sua missão.

Sei que estou me repetindo, mas preciso, de novo, falar do impressionante escopo com o qual Liu trabalha. Este segundo livro me remeteu à trilogia Fundação de Isaac Asimov, mais especificamente à batalha a longo prazo da humanidade contra uma força capaz de levá-la ao seu fim. Os trissolarianos são uma ameaça temporalmente distante dentro da trama, mas Liu foi perspicaz ao estabelecer os perigos e inimigos que a espécie humana deve enfrentar antes de lidar diretamente com os alienígenas. Este é um dos aspectos mais fascinantes da trilogia: seu senso de ameaça e de urgência independe da proximidade dos alienígenas, que só chegarão à Terra em quatro séculos.

Liu também foi talentoso o bastante para criar imagens recorrentes que pontuam e comentam a intrincada trama. O porta-aviões Tang, por exemplo, que aparece três vezes na parte 1, sempre sendo observado por Zhang Beihai e Wu Yue, metaforiza o declínio do investimento na indústria bélica tradicional chinesa, e a mudança de seu foco para o Conselho de Defesa Planetária, a fim de participar dos esforços para impedir a invasão da Terra pelos trissolarianos. São trechos rápidos, mas que funcionam para salientar mudanças importantes na política do mundo imaginado pelo autor.

Na segunda parte, Liu apresenta um novo desafio às quatro Barreiras: os Destruidores de Barreiras, indivíduos designados para tentar desvendar os planos que elas estão armando contra os trissolarianos. Nela vemos releituras de mitos bíblicos, como o Paraíso Perdido, mas sem perder o foco da trama principal, que segue narrando as dificuldades da humanidade em superar o clima de derrotismo global diante de sua impotência contra a superioridade tecnológica dos alienígenas.

Uma coisa que Liu faz muito bem é transmitir em seu texto o grau de dificuldade e complexidade que a humanidade enfrenta para construir uma frota espacial. Dá pra sentir a aflição dos personagens diante do imenso desafio em passagens como esta:

Não bastasse a destreza de Liu em conduzir diversas tramas paralelas, ele narra excepcionalmente uma das poucas sequências de ação do livro: um tenso assassinato a tiros no espaço. Dá pra visualizar em câmera-lenta o acontecimento, e a estratégia usada pelo atirador para despistar suspeitas é muito engenhosa.

Outros momentos que me remeteram à Fundação de Asimov foram os que narram a interferência da humanidade na “geografia” do sistema solar . Nos primeiros anos da expansão da espécie humana para além de seu planeta natal, ela coloniza Marte e as luas de Júpiter; e abre uma cratera em Mercúrio para construir uma base de lançamento de mísseis contra os trissolarianos (o que, pra mim, foi uma referência de Liu à Crise dos Mísseis de Cuba da Guerra Fria, reencenada numa escala cósmica, onde pode representar a sobrevivência da humanidade).

Outro questionamento levantado pelo autor surge com uma tecnologia que possibilita implantar na mente humana a fé na vitória contra os alienígenas. É uma ideia arriscada, que toca em temas espinhosos, mas acaba combinando com a situação-limite vivenciada pela humanidade na trilogia. Quais sacrifícios estamos dispostos a fazer pela sobrevivência de nossa espécie? Uma fé artificial pode ser tão forte e efetiva quanto aquela que é fruto da experiência humana?

Na parte 3, ambientada 200 anos no futuro, Luo Ji desperta numa era onde a humanidade aparentemente venceu o derrotismo, avançou sua tecnologia e, supostamente, superou a dos trissolarianos.

No futuro imaginado por Liu, a tecnologia é personalizada; tudo, de aparelhos domésticos a peças de roupa, tem acesso à internet; toda superfície de todas as edificações servem como telas touch screen (numa extrapolação brilhante da tendência que já existe no presente); as línguas inglesa e chinesa formam um novo idioma; a energia é wireless, transmitida através de micro-ondas; grande parte da humanidade vive em complexos edifícios em forma de árvores monolíticas nos subterrâneos (vindo, daí, uma das possíveis interpretações do título do livro); e as frotas espaciais asiática, europeia e norte-americana têm status de nações independentes.

Tudo é simultaneamente maravilhoso e perturbador na Terra de 200 anos depois. Mas suas maravilhas são fruto de um imenso custo, a Grande Ravina (possível referência à Grande Depressão), que extinguiu grande parte da população mundial. Por isto o fascínio de Luo Ji pelos avanços tecnológicos e pela aparente superioridade da espécie humana diante dos trissolarianos é também angustiante. O peso do que está por vir ainda é um incômodo constante. Isto dá um tom de expectativa à parte 3, que perde na urgência, mas ganha na sensação de mau agouro aguardando no horizonte. Porque uma das grandes verdades da vida é que, quando tudo está bem demais, devemos nos preocupar com o que vem depois…

O terço final d’A Floresta Sombria pode ser mais “calmo” no que se refere ao ritmo, mas nos reserva algumas surpresas, como as revelações das intenções de alguns personagens, que tornam imprevisível o desenrolar da narrativa.

A desesperança é tão vasta e esmagadora na reta final do livro, que chega a ser difícil ler suas páginas. Não recomendo fazê-lo em dias mais angustiosos e melancólicos, pois Liu foi muito certeiro no tom escolhido para imprimir a sensação de fim inescapável. Todos os núcleos narrativos são afetados por um ressurgente derrotismo e uma depressão em escala cósmica.

A visão que Liu transmite da civilização cósmica é tão inquietante quanto a dos deuses alienígenas concebidos pela imaginação de Lovecraft. Talvez a perspectiva descrita aqui seja ainda mais perturbadora, pois a fonte do terror cósmico de Liu não são indescritíveis entidades divinas oriundas de outras dimensões, mas civilizações alienígenas esperando a hora certa de agirem, tendo como diretriz a sobrevivência do mais apto numa escala cósmica.

A pergunta que Liu deixa para si mesmo no final de A Floresta Sombria é um desafio para si mesmo (e para nós): Como reconstruir a fé de uma civilização planetária após arrasá-la completamente? No lugar de nos dar respostas fáceis, a obra nos faz pensar se tais acontecimentos ocorreriam de forma muito diferente em nosso mundo. Isto foi o que mais me assombrou durante a leitura, e me fez lembrar daquela formiga do início do livro, testemunha de eventos que estavam muito além de sua limitada compreensão, enquanto tateava letras na lápide de mulher que teve a sorte de morrer antes dos trissolarianos chegarem.


Editora Suma

Brochura

Tradução: Leonardo Alves

16 X 23 cm

472 páginas

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2 thoughts on “[LIVRO] A Floresta Sombria, de Cixin Liu (resenha)

    • Obrigado pelo comentário, Renato. Fiquei contente em saber que gostou da resenha.

      Sobre a outra interpretação que dei para a origem do nome do livro, é só uma das interpretações possíveis, não a principal.

      Concordo contigo sobre este trecho que citou ser onde a origem do título fica mais explícita. Normalmente um autor nomeia um livro com um título que sintetiza a principal mensagem que quer passar através da obra. Sem dúvida essa conversa entre o Lui Ji e o Shi Qiang é a que melhor resume o significado dos eventos narrados por Cixin Liu até aquele momento. Além de ser uma pungente lição de humildade.

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