[LIVRO] A cor que caiu do espaço

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“A oeste de Arkham as colinas se erguem virgens, e existem vales de raízes profundas que nenhum machado jamais cortou. Existem desfiladeiros sombrios e estreitos onde as árvores se inclinam de maneiras fantásticas e onde pequenos riachos correm sem jamais ter refletido a luz do sol.”

Há que se ressaltar antes de mais nada que “A cor que caiu do espaço” é um dos contos mais bem criticados do autor homenageado esta semana, tendo sido considerado pelo próprio Lovecraft o seu escrito favorito. A despeito da fama inegável de Cthulhu, a cor que veio num meteoro tão misterioso quanto as nuances que continha foi para o autor a obra de melhor feitura, de mais aproveitamento literário.

The_Colour_Out_Of_SpaceSe pudéssemos dar uma cor ao conto que fala de uma cor misteriosa sem jamais revelá-la, essa cor seria algo como um cinza aterrorizante. O cinza carregado de morte das tumbas nos cemitérios. O cinza das criptas ou das paredes de casas há muito abandonadas. O cinza da pele dos monstros dos contos ancestrais…

“A cor que caiu do espaço” é narrado por um homem – e aqui já começa o mistério, pois seu nome jamais é revelado ao longo da história – , trabalhando a serviço do governo de Boston para procurar um lugar ideal para um reservatório de água. Ele chega aos arredores de Arkham, onde acha um grande local de aproximadamente 20.000 metros quadrados e sem vida, e começa a entrevistar os moradores sobre o estranho lugar, sem sucesso, já que os moradores da região temem o que chamam de “descampado maldito.”

color out of spaceSe conta que muitas pessoas tentaram morar naquela área, mas fugiram pouco tempo depois, havendo relatos de pesadelos horríveis e eventos inexplicáveis relacionados ao local. O “descampado maldito,” nome que o Narrador primevo chega a considerar uma besteira de um povo provinciano por demais afeito a folclores, é um lugar soturno, que gera uma aura de temor desconhecido. O Narrador, então, aconselhado pelos moradores locais e atiçado por uma curiosidade que se estende além de seu dever de funcionário público, procura Ammi Pierce, um senhor que vive isolado, pois é o mais próximo morador do tal Descampado. E dele vem a história do bizarro e incompreensível evento que veio do céu em forma de meteoro (aerólito).

Como não é todo dia que um objeto vem do espaço e cai nos arredores de um povoado, a queda do meteoro causou grande movimento e muitos comentários. O tal objeto foi ter sua parada na fazenda da família Gardner, que a princípio, graças às atenções dadas ao objeto e ao ocorrido, achou-se sortuda e chegou a gozar da “fama” momentânea.

a-cor-que-caiu-do-espaco-arvoreMas coisas inexplicáveis começam a ocorrer quando da análise da rocha de origem desconhecida por parte de especialistas e professores de uma Universidade próxima. Os estudiosos constatam que o aerólito muda de tamanho, reduzindo-se progressivamente, além de possuir um calor que não se dissipa e uma composição química que parece não reagir com nada.

Por fim, ao surgir um buraco na pedra (ou naquilo que sobrou dela), o que sobra da queda do corpo misterioso é a cor de nuances que o olho humano não pode reconhecer.

a-cor-que-caiu-do-espaco-pocoA narrativa de Lovecraft guarda uma ambientação fantástica de degradação, pontualmente marcada por pequenos acontecimentos gradualmente mais e mais estranhos.  À medida que o tempo passa, qualquer coisa de natureza inexplicável vai acontecendo nas adjacências de onde caiu o objeto de natureza sideral. O solo da fazenda dos Gardner se modifica, assim como a vegetação, os repolhos, as árvores, os animais. Tudo vai aos poucos sendo tomado pelas garras invisíveis de uma maldição que a tudo contamina, transformando cada elemento provido de vida em coisa estéril, sem essência, e de tal forma envolta pela morte (ou seja lá o que for a terrível coisa que Lovecraft tenta passar em seu relato aterrorizante) que tudo, absolutamente tudo, vai se esfarelando, perdendo a flexibilidade, ficando cinza… Tudo e todos são consumidos nas terras dos Gardner. Um a um, os membros da família vão se deteriorando, tornando-se não-pessoas, coisas indescritíveis – de fato jamais colocadas no papel, imagens temerosas deixadas por conta de cada leitor.

Ammi, grande amigo de Nahum Gardner, nos serve como os “olhos” do leitor, sendo o segundo narrador (ocorre quase que uma narrativa dentro de outra narrativa, embora Ammi nunca fale em primeira pessoa). É por seus olhos que o desenrolar dos fatos nos é mostrado, tendo sido ele a maior de todas as testemunhas do sombrio ocorrido.

The_Colour_Out_of_Space_08_by_Pixx_73Lovecraft não estabelece elementos claros e determinados para promover o desconforto psicológico no leitor. À medida que tece a narrativa de fatos não muito detalhadamente explicados, H. P. Lovecraft deixa o não dito como base para dar asas à imaginação mais hedionda de cada um que testemunha seus escritos. Se descrevesse com exatidão matemática os elementos causadores do terror em “A cor que caiu do espaço,” talvez nosso autor maldito nada mais pudesse do que promover a feitura de uma história fantástica com argumentos baseados numa espécie de suspense ou terror cósmico. No entanto, Lovecraft, em sua genialidade ímpar, parece conhecer tanto da natureza humana que ressalta o que mais nos toca: nossas particularidades.

Assim, provido do conhecimento de que o terror é algo extremamente subjetivo, o autor deixa, a todo momento, pairar o mistério das coisas terríveis, execráveis, inomináveis e, por isso, jamais ditas verdadeiramente.

a-cor-que-caiu-do-espaco-homemA cor parece sugar a energia vital do solo, da água, dos animais da fazenda dos Gardner, e – horripilantemente – das pessoas, deixando onde havia vida, apenas rostos e restos ressequidos de coisas indefinidas, secas, torradas, esfareladas, acinzentadas, como se reduzir a vida fosse conduzir às cinzas, levar ao pó.

A magia do não dito de Lovecraft funciona como o truque de um ilusionista que transporta os sentidos do leitor para o ambiente mais fértil do mundo: a própria mente. Ao promover esse transporte, Lovecraft joga com os medos interiores, medos que o próprio escritor não traz ou não conhece, pois não pertence ao que foi forjado pelo punho do macabro autor. O medo que a literatura lovecraftiana nos provoca é tão nosso (meu, teu, tão particular) que cada um o desenhará em sua imaginação com a forma e as cores mais temíveis. Lovecraft nos joga um tapete para que, sobre ele, possamos montar nossos tenebrosos castelos mal assombrados.

Ao dizer o mínimo é que Lovecraft nos dá a pena e as tintas de nossa subjetividade, nos faz embaralhar cartas em branco… Nos perde para que possamos fazer-nos encontrar em algum quarto escuro com um ser inominável…

Quem cria o terror de Lovecraft somos nós, e é isso que acontece ao montarmos na nossa cabeça o descampado maldito, a mazela de cada animal, a condição demoníaca de cada Gardner…

E a cor…

Aliás, para você, qual cor caiu do espaço?

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