[LIVRO] A Catedral do Mar – Arnau e a Odisseia Catalã

Anos atrás um livro virou febre entre meus amigos.

Muito se falava do tal “A Catedral do Mar“, de um autor com nome sei lá de quê, e que, até pouco tempo, eu juraria que era brasileiro (Ildefonso Falcones é Espanhol).

Mas, retornemos aos meus amigos antes de falarmos do livro.

Por alguma razão, todos que liam o tal livro (que agora rodava de mão em mão, além das outras cópias compradas) ficavam estupefatos. Quando eu, sem interesse algum, lhes perguntava a razão de tanto interesse em um livro aparentemente prolixo demais, a resposta era invariavelmente a mesma. Algo como; “eu comecei a ler e não consegui parar”.
Eu precisei ler para compreender a força desse livro. E poderia dizer que fora magia, mas A Catedral do Mar é dedicado à Catedral de Nossa Senhora do Mar. Então só poderei achar que há nesse livro qualquer coisa de milagre.

No fim das contas, não sei o que é. Mas não é normal…

Recentemente fiquei sabendo que o grande sucesso literário fez com que a história fosse televisionada. Mas não me atrevi a saber os pormenores da transformação do romance em novela ou série. NADA poderia alcançar o que se forma na mente de cada leitor que visita as páginas desse livro maravilhoso; um livro que, sem dúvidas, mostra, sob o manto de muita peleja, pactos extremos de lealdade, dores e sofrimento, a parte mais inocente, forte e valiosa de um ser humano.

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O enredo é ÉPICO, embora não seja dividido em Cantos ou versos, como diz o manual jamais escrito dos Épicos mundiais (desde as tabuinhas de Gilgamesh, até Os Lusíadas).

Talvez a maior parte das pessoas chame mesmo de romance histórico.

Mas a verdade é que isso pouco importa. Importa mesmo é saber que, em algum lugar entre os feudos da Catalunha, um homem já passado da idade de casar, (aos 31 anos de idade) chamado Bernat Estanyol, era um servo da terra e, assim sendo, devia obediência e respeito ao seu senhor feudal. Mas aquele servo não tinha muitas ideias na cabeça sobre casamento. Queria cuidar da terra que tinha, deixada por seu pai.

Só não esperava o Estanyol que chegasse ás suas terras um homem bem abastado (de terras vizinhas) ofertando-lhe seu bem mais precioso envolto em linho. Quando Bernat vê a mulher que lhe é oferecida para noiva (com o direito de levar como um brinde uma linda camisa de linho, roupa única que cobria o torso da donzela), o homem da terra começou a imaginar que talvez fosse hora de ter alguém a quem entregar seu legado. Dizem que o amor não ocorre à primeira vista, mas é certo que, já naquele tempo, ao menos o casamento poderia ocorrer.

No outono de 1320, no principado da Catalunha, Bernat observa ansioso sua noiva Francesca e os convidados de sua festa de casamento. Tudo corria bem. O vinho matava a sede e alegrava os convidados, o pão que saía do forno se fazia anunciar pelo perfume da massa cozida, as famílias sorriam em uma confraternização que talvez hoje nos pareça opressora demais, mas era normal e feliz naquela época.

Uma mulher não podia ficar sozinha. E era seu pai o senhor de seu destino e escolhedor de seu futuro marido. Coisas de antigamente…

E tudo ia como antigamente, até que lembramos que, naqueles tempos (o tal antigamente), o homem não se guiava por leis constitucionais, e nem mesmo a Igreja era pura ou forte o bastante para segurar suas animalidades; O Senhor de Bernat, vindo de uma caçada em que já havia ceifado outras vidas, fez-se sombra na festa cor-de-trigo e, como um vampiro, exigiu ser convidado para as bodas.

Não demora muito até que o Senhor do pobre Estanyol perceba os encantos de Francesca (quão bela deveria ser para conquistar um solteiro convicto em uma só olhada?) e exija o direito de firma de spoli forzada, ou seja, o direito de se deitar com a noiva em sua primeira noite.

Os detalhes são cruéis, e talvez esse tipo de acontecimento fosse muito comum antigamente (creio que sim, não sei ao certo). Francesca, é agredida e estuprada pelo poderoso Senhor feudal. Não bastasse esse fato maligno, a moça é obrigada a ter relações com Bernat (também forçado, sob pena de perder a vida), para evitar que uma gravidez seja atribuída ao senhor feudal.

Francesca não consegue se recuperar do trauma e, nos dias que seguem, não se aproxima de Bernat, que também não tem coragem de dizer coisa alguma. A moça engravida e nasce Arnau, um menino saudável e que, devido a um sinal de nascença, é indiscutivelmente filho de Bernat Estanyol. Bernat, embora vítima de uma situação que maculou sua família antes mesmo que uma família fosse, viu no pequeno filho toda a sua esperança. E a partir daqui, deste ponto, iniciamos uma Epopeia.

Correram notícias como correm os ventos. O camponês era o pai do recém-nascido. Não era apenas mais um bastardo nascido dos atos sujos de um Vassalo abastado.

O senhor da terra se tornou motivo de chacota nas redondezas; Seria ele incapaz de fazer um filho?
Decidido a dar um fim aos comentários, o Senhor manda que levem Francesca e Arnau para seu castelo e lá, mãe e filho são separados. Ela é usada como ama de leite e fica à “disposição” dos soldados – sim, para o que quiserem –  e o bebê é deixado junto ao estábulo à mercê da própria sorte.
Bernat, cuja covardia condenou seu passado recente, usou de toda coragem para resgatar seu filho. O bebê está quase morto quando é recuperado pelo pai.

É interessante como, desde o início do livro, em todos os atos de lealdade e amor ou amizade, vemos que os bons sentimentos, quando aplicados de coração, são capazes de mover montanhas…

Talvez seja esse o milagre do livro.

Mas voltando ao que dizia eu: Bernat se esconde com o pequeno filho, para que ambos não sejam pegos e mortos pelos empregados do Vassalo. Sem saber para onde ir, e à espera da recuperação de Arnau, o pai Estanyol acaba por se lembrar de boatos sobre a grande Barcelona. Se conseguisse viver na cidade durante 1 ano e 1 dia se tornaria cidadão e homem livre. Esperançoso sobre um futuro incerto, ruma para Barcelona com Arnau.
Na grande cidade, pede o auxílio de sua irmã e de seu cunhado, um artesão em ascensão e com grandes ambições. Começa a trabalhar na oficina de seu parente e percebe que sua vida pouco mudou: deixou de ser um servo da terra para ser servo da nobreza. Suas mãos tornam-se frequentemente enegrecidas e feridas pelo trabalho, mas é à noite que a recompensa vem: Por anos, Bernart só vê Arnau durante a noite, mas tem a tranquilidade de saber que seu pequeno filho está sendo bem cuidado por sua irmã. Arnau vai crescendo, torna-se menino já capaz de correr por aí a conhecer as aventuras do pequeno mundo chamado Barcelona. Conhece Joan, um garoto sofrido, sem pai e com uma mãe condenada ao enclausuramento por adultério – A história de Joan deve ser a mais triste do livro, embora nenhuma delas seja realmente fácil –  vive pelas ruas de Barcelona. Bernat se compadece do melhor amigo de seu filho e decide adotá-lo após a morte de sua mãe (a mulher que se comunicava com Joan apenas pela janela alta de um calabouço um dia se cala). E isso é tudo.

Terá sido fome? Alguma pestilência das rochas úmidas e podres? Teria sido suicídio? Sede? Não interessa.

Já disse… Isso é tudo.
Os tempos medievais não são fáceis. As abundâncias são gritantes em uns lugares, em outros reina a pobreza. Mas há os tempos de crise, e a crise muito pouco tem piedade até mesmo dos ricos.

Anos se passam e Bernat se vê em uma Barcelona assolada pela fome e desespero dos pobres. Bernat, até então um homem pacífico e dotado de virtudes bonitas, e virtudes adocicadas pela paternidade, é tomado por uma fúria enlouquecida – desespero, medo, dor –  e incita uma revolta popular. O caos toma conta da cidade, e o rei ordena que seus soldados reprimam a rebeldia e prendam seus lideres. Bernat é preso e enforcado sumariamente em praça pública, por ter ficado desesperado; por não saber como dar de comer aos dois filhos; por ser bom demais, ter trabalhado demais, ter se esforçado demais.

Arnau tem apenas 12 anos quando vê o pai enlouquecer e ser covardemente morto.

Após a morte de Bernat, a vida de Arnau e Joan tomam rumos diferentes.

Joan é apoiado pelo padre da Igreja do Mar e vai estudar em uma escola católica. Segue a carreira eclesiástica e surpreende ao se tornar um inquisidor implacável, a perfeita alegoria do homem que sofre.

Enquanto Arnau torna-se apenas virtude, e dedica-se ao bem e ao trabalho por si e pelos outros, Joan, igualmente sofredor, torna-se mal, julgador de delitos e inocências, repressor voraz, duro como as rochas que prenderam sua mãe até o último suspiro.

Arnau não tem a mesma “sorte” e passa a depender apenas de seu esforço para se sustentar. Apesar de ser um menino mirrado, se torna um bastaix (estivador), e carrega em suas costas as pedras para a construção da catedral do povo, a sua catedral. A Catedral que dá razão ao seu viver. Não apenas por motivos espirituais, mas por toda história que cada pedra ali colocada para formar a nave e as outras partes do grande templo podem contar.
Do que falei até agora?

De quase nada. A Catedral do Mar tem infinitas histórias dentro de histórias. O que estou contando é só um pequeno pedaço da linha principal que guia os fatos.

As sendas pelas quais Arnau caminha com os passos lépidos de um moleque magro, que logo se torna um homem grande, o corpo esculpido pelo trabalho incansável, são pontiagudas, feias, cheias de sangue e pólvora. Seus bons sentimentos limpam cada passo errado que dão em sua direção, como se a partir das virtudes de seu coração, Arnau tivesse as forças para enfrentar um mundo que não fora, nem de longe, misericordioso.

Na judiaria (lugar dos judeus, onde não raro os semitas eram mortos sem razão que justificasse), Arnau fala com todos e faz amigos verdadeiros. Na mesma judiaria, Arnau consola Raquel, quando o pai da jovenzinha é queimado vivo por crime algum. Por ser judeu, na verdade. (Crime terrível)

Com o passar dos anos, ascendeu da servidão… foi um bastaix, soldado, cambista e até cônsul do mar. Conquista o apoio da realeza e de homens ricos e por fim… recebe o titulo de conde. Nunca fugiu do trabalho para crescer.

Sua vida muda ao encontrar Mar, filha órfã do primeiro bastaix a ajudá-lo. Mar torna-se uma pupila, ganha seu nome e seu carinho.

Mas o tal antigamente não poupava ninguém… Arnau é obrigado a se casar (assim como sua mãe fora tantos anos atrás) e acaba tomando por esposa uma mulher perversa.

O ciúme e o ódio de uma mulher rejeitada, o leva a enfrentar a inquisição. Segredos são revelados e o passado remexido a todo instante, como uma ferida inflamada e ainda muito dolorida. Uma ferida que talvez devesse ser deixada de lado. Mas nada na vida do filho de Bernart é fácil. E é na dificuldade que outro elemento importante (essencial) para a construção dessa trama aparece com mais clareza; Assim como o óleo de baleia, misto à areia, faz a liga que une os tijolos da Catedral do Mar, a lealdade, nos poucos mas inegáveis amados amigos de Arnau, é o que leva adiante nosso herói. O rapaz, que passou a vida vivendo da justiça, a todo momento é salvo por ela, quando o mundo se aperta demais e todas as coisas parecem negras como a peste.
A Catedral do Mar não é um livro que você lerá como quem lê mais um livro ganho como presente de Natal, ou aquele título que alguém te obriga a ler. O Épico Moderno de Ildefonso Falcones tem a força das batalhas da Era de Ouro da mitologia, a bravura dos povos nórdicos, o calor humano dos povos ciganos e a lealdade que… bem… essa eu não sei descrever. É Metafísica.

Não se pode explicar A Catedral do Mar. É necessário viver a experiência literária, sentir as dores, rir os risos, ranger os dentes com as raivas. Tentar explicar esse tomo é como tentar explicar por quais motivos exatos você ama alguém, ou porque aquela ou esta música é capaz de te fazer chorar; é como tentar explicar porque vermelho é a minha cor favorita (vermelho escuro, como sangue), ou porque eu sempre sonho com o Mar.

E será o mesmo Mar da Catedral?

Não… Mas se fosse, cataria com os olhos Arnau já patriarca e seu legado. E lhe pediria conselhos.

Mas isso você também só vai entender se ler o livro.

Catedral de Santa Maria do Mar


Nota do editor: infelizmente A Catedral do Mar encontra-se esgotado nas livrarias. Recomendamos que entrem em contato com a editora Rocco pedindo uma nova tiragem. É o que faremos.

Enquanto isto, vale a pena dar uma olhada em outras obras de Ildefonso Falcones lançadas pela editora.

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