[LIVRO] “A Autoestrada” de Richard Bachman/Stephen King (resenha)

Stephen King

Hoje, dia 21 de setembro de 2015, o tão conhecido autor americano Stephen King completa seus exatos 68 anos. E por que não prestigiar este dia com uma de suas maiores criações: Richard Bachman?!

Richard Bachman era o tipo de sujeito para dias chuvosos, se é que algum dia houve alguém assim.

Bachman era um produtor de laticínios de New Hampshire, que passava suas noites de insonia escrevendo na sua máquina Olivietti, ao lado de um copo de uísque. Morreu em 1985, de “câncer do pseudônimo”.

Para Stephen, Bachman havia se tornado uma espécie de id, onde ele tinha permissão para pensar de um jeito que não podia pensar, e falar de um modo que não podia falar. Ele era o lado vampiro de sua vida, que foi morto pelo sol da revelação.

auto estrada-OK.aiPorém, a morte do seu alter ego não o impediu de lançar mais obras em seu nome.

Ao mudar-se de casa, a viúva de Bachman, Claudia Inez, encontrou uma caixa de manuscritos esquecidos em seu porão – que continham obras como “Os Justiceiros” e “Blaze”.

Mas A Autoestrada (Roadwork) faz parte das produções lançadas ainda “em vida” de Richard Bachman.

O cenário são os Estados Unidos em completa inquietação política e social, durante a crise energética no governo Nixon.

Mas essas não são as maiores preocupações de Barton Dawes.

Bart (ou George) está completamente perturbado por seus fantasmas passados, e isso podemos perceber logo nas primeiras linhas, quando o encontramos conversando com Freddy (ou Fred), uma voz interior.

Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que era acionado sempre que parte dele tentava perguntar: Mas por que você está fazendo isso? Um pedaço de sua mente ficava escuro. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo. A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu. Tudo está bem. Vamos continuar, Freddy – onde estávamos?

Não dá pra identificar ao certo há quanto tempo Bart encontra-se tão transtornado, mas sabemos que sua situação foi piorada com a construção de uma nova autoestrada.

Mas por que ela surtia tanto efeito assim nele? Bem, acontece que para que a construção fosse efetivada, a casa e a empresa de Bart deveriam ser desapropriadas.

Todas essas mudanças repentinas causam uma total desestruturação em sua vida perfeitamente estática e sem emoção, mas que nem sempre fora assim. Ele já tinha sido feliz. Com sua constante ascensão na lavanderia Blue Ribbon, ao lado de sua esposa Mary, com quem tivera um filho. Porém, com Charlie também veio um tumor cerebral “do tamanho de uma noz”, infelizmente, inoperável, que resultou na morte precoce do garoto.

E era por tudo isso que Bart não podia deixar que a estrada fosse construída. Para ele, ela não estaria passando apenas por cima do seu lar e do seu trabalho, também estaria destruindo sua vida e suas recordações. Ele simplesmente não podia permitir.

Então, aos poucos, nosso personagem vai de “cidadão comum” para “ameaça ambulante à comunidade” – transformação que é relatada ao longo dos três meses que sucedem à demolição: Novembro, Dezembro e Janeiro.

E assim como a divisão do livro em partes cronológicas, os capítulos também são. A narrativa segue como um diário da vida de Bart, relatada através de um narrador onisciente, mas que foca quase que unicamente na perspectiva de Bart, o que dificulta um pouco sobre um completo entendimento da (in)sanidade dele.

Em alguns momentos podemos acreditar que ele está totalmente paranoico, mas depois vemos algumas situações que chegam a justificar a loucura do personagem. Por mais que o vejamos perturbado, seria isso uma doença dele ou do mundo?

Continuo fazendo as coisas e elas continuam não dando certo. Acho que é porque estou meio velho para fazê-las darem certo. Uma coisa deu errado alguns anos atrás e eu sabia que era ruim, mas não sabia que era ruim para mim. Achei que tinha apenas acontecido e que eu iria superar. Mas as coisas não param de desmoronar dentro de mim. Estou de saco cheio. E não paro de fazer coisas.

Pouco a pouco vamos descobrindo as raízes dos problemas psicológicos de Bart através das próprias recordações dele. E vamos também nos deparando com seus terríveis pesadelos, suas drásticas alterações de humor, e até mesmo em sua alucinações, o que nos deixa ainda mais ligados ao personagem.

Confesso que em pouco mais da metade do livro já é possível se adivinhar o final. Mas isso felizmente não compromete a trama. Com as ótimas descrições do autor, conseguimos realmente adentrar na cabeça protagonista, o que nos causa um desejo enorme de querer saber como ele vai resolver tudo aquilo, por mais previsível que seja.

É o tipo de história que nos faz criar uma certa conexão com o personagem, até porque, diferente dos livros do Stephen, não há nada de extraordinário na trama. Todos os fatos são possíveis e, por mais que possamos não entrar nas mesmas condições que Bart, em algum momento de nossas vidas iremos compartilhar de alguns de seus sentimentos – como culpa, arrependimento, impotência, revolta ou busca por justiça.

Definitivamente é um título que eu recomendaria para qualquer leitor. Com uma trama tão humana e febril, acredito que seja um desses livros capazes de conquistar qualquer um (principalmente aqueles que possuem uma certa loucura dentro de si, e que enxerga uma certa beleza na destruição).



E se ainda estiverem indecisos se devem ler ou não, saibam que, para mim, Bart Dawes poderia entrar na até então tríade dos que apenas querem ver o mundo queimar.

some people just want to watch the world burn


auto estrada-OK.ai

Richard Bachman

Suspense

Suma de Letras

304 páginas

22,4 x 16 x 1,8 cm

Leia um trecho do livro em PDF

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