[LIVRO] A Arte de ser Normal – O livro que NÃO pode ter spoilers

Li A Arte de ser Normal em inglês, após uma compra despretensiosa de um livro qualquer para distrair a cabeça.

O título original, embora bem claro, não despertou em mim nenhum tipo de curiosidade real.

Para ser sincera, até torci o nariz com a premissa da história.

Porque todos somos preconceituosos babacas, não é mesmo?

 

Mas, como disse Philip Pulman, esse é o tipo de livro que muda sua vida.

Venha comigo nessa resenha para descobrir porque.

Sobre o que é?

Eu sei que a capa entrega bastante do tema, mas todo livro vai além de sua capa. A Arte de ser Normal conta a história de dois meninos, que possuem problemas diferentes e cujas vidas se cruzam em uma espécie de conspiração do destino para que um ajude o outro.

Leo é um adolescente determinado e estudioso, que enfrenta problemas graves com sua família, sua mãe problemática e as condições em que vive.

Na outra ponta da história, temos David, um pré-adolescente que vive uma vida confortável, com uma família estruturada e tudo para ser feliz. Exceto por um detalhe: David é uma menina presa no corpo de um menino.

Sobre estar preso no corpo errado.

Eu não compreendo a sensação de estar presa em um corpo que não me parece adequado. Talvez, você também não. E essa é a grande questão levantada no livro.

Com uma narrativa leve, fluida, e muito bem amarrada, Lisa Williamson consegue traduzir os sentimentos de David, aos onze/doze anos, perdido em seu mundinho particular.

O menino sofre ao ver que, por mais que sua vontade seja a de ser mulher, não há o que, em seu corpo, o ajude. A puberdade grita alto e David se vê cada vez mais alto, mais bruto, começando a ter pelos no rosto… Enquanto isso, sua irmãzinha tem sua menarca (primeira menstruação).

David é isolado por si mesmo, porque não se identifica com ninguém, e pelos adolescentes com quem estuda, porque eles não são capazes de enxergar nele um ser humano “normal”.

David não é gay. Não é um rapazinho que está feliz com suas condições biológicas, e apenas tem uma orientação sexual diversa do “padrão”. David é um pré-adolescente trans.

Seria muito mais fácil se ele ignorasse isso tudo, você não acha?

Acontece que a vida não funciona assim.

Ser transexual é ter o que os médicos chamam de Transtorno de Identidade de Gênero. Ou seja: é nascer com um determinado sexo, mas não se identificar com ele. E esse “transtorno mental” leva a pessoa a procurar tratamentos, e até cirurgias, que possam fazer seu corpo se parecer cada vez mais com o sexo com o qual ela se identifica.

Trata-se uma condição extremamente complexa, e só quem realmente está nela pode compreendê-la plenamente.

(Excerto retirado do site HYPE SCIENCE)

Ser Trans não é ser homossexual.

Eu sei que você leu isso com descrença. Eu também li isso no livro com uma carga de incredulidade enorme.

Mas creia: faz todo sentido. Até há casos em que a transexualidade vem acompanhada de homossexualidade ou bissexualidade.

Mas, se falamos apenas do humano trans, não estamos falando de homossexualidade.

David, em determinada altura do livro, deixa isso tão estupidamente claro que é engraçado como algo tão óbvio pode ser fonte de dúvida AINDA.

“Acredita-se por aí que uma pessoa transexual é apenas uma pessoa muito gay que em um certo ponto quer ser do outro gênero, para assim ser normal. Isso é muito comum na televisão e nos filmes, onde muitas vezes não há distinção entre gays, travestis e transexuais. A relativamente simples premissa de se sentir bem com uma coisa que é diferente ainda tem que ser infiltrada na cultura pop. E quando você tentar explicá-la, muitas pessoas vão ficar zangadas”. 

(Excerto retirado do site HYPE SCIENCE)

A Experiência Humana em “A Arte de ser NORMAL

Não sei se existem realmente pessoas normais, e isso é um ponto levantado no livro de forma sutil.

Ninguém diz nada, mas esse problema está lá nos estapeando o tempo todo.

O que te faz ser normal?

O que garante a você que sua vida é normal?

É claro, contudo, que a “anomalia” aqui tem um foco bem específico: a sexualidade de David, escondida dos pais e revelada apenas a um casal de amigos jovens demais para dar conselhos verdadeiramente úteis.

Acompanhar a jornada de David é algo especial. Por seu sofrimento, por sua capacidade de cativar o leitor, por sua força…

Quando Leo começa a ajudar David, as coisas acontecem por acaso, e mais adiante, a história parece nos sacudir tão fortemente que nada fica no lugar.

Leo nos tira dos trilhos com sua história de rapaz desajustado, criado sem pai, criado sem compreensão, mas capaz de ajudar David e se deixar ajudar por ele.

O garoto chamado Leo

Dono de um passado pesado e misterioso demais para um moleque tão jovem, Leo parece apenas um adolescente no auge de sua insuportabilidade nas primeiras páginas do livro.

Toda a história é contada em capítulos alternados entre a narração de Leo e a narração de David. Isso nos permite enxergar cada medo, raiva, problema e alegria da maneira como eles sentem e descrevem.

Assim, à medida que caminhamos pelas sendas de Leo, passamos a tomar uma antipatia por seus desafetos, e até começamos a temer fortemente o que o rapaz teme.

Cercado da fama de bad boy, psicopata e outras coisas similares por ter saído de um colégio “barra pesada”, Leo conquista o leitor com seu jeito de anti-herói incompreendido.

É em Leo que mais fortemente compreendemos o lado humano dessa história. Desde sua busca desesperada por seu pai ausente, até suas frustrações familiares, Leo é a linha que guia nossos corações ao que mais profundamente nos toca nesse livro tão bem-escrito, e tão necessário a todos nós.

Um livro necessário

Amo distopias, sou louca por sci-fi, adoro mitologiaSou fã de humor também

Mas A Arte de ser normal, conforme dito acima, é um livro NECESSÁRIO.

Eu cheguei a citá-lo na Resenha de Justin (da Editora Nemo), e não poderia deixar de fazer essa resenha.

Não é uma resenha patrocinada, não foi um livro que eu ganhei, não foi um livro indicado por ninguém. Mas garanto que esse livro é um livro que precisa ser lido por todos aqueles que ainda estão enrolados nos laços de seus preconceitos.

Acredite: não haverá outro livro, filme, HQ, que explique tão bem, e com tanta sensibilidade, o que é ser trans, ou pelo menos todas as dores que isso envolve.


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Outras leituras sobre o tema:


Editora Rocco

Tradução: Cláudia Mello Belhassof

Brochura

20,6 x 13,4 x 2,2 cm

384 páginas

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Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso, é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.