[LIVRO] A Alcova da Morte, de Nikelen Witter, Eneias Tavares e A. Z. Cordenonsi (resenha)

Enquanto a alta sociedade carioca se reúne para a inauguração da monumental estátua do Corcovado, nos bastidores do evento ocorre um crime que desafia a polícia. Entra em cena Maria Tereza Floresta, Firmino Boaventura e Remy Rudá, detetives da agência Guanabara Real.

A trama desse primeiro romance do trio ocorre num Brasil alternativo do século XIX, mais especificamente em 1892, no qual figuras históricas e eventos marcantes do período se misturam com alta tecnologia movida a vapor. Ou seja, somos apresentados a um Rio de Janeiro steampunk.

O assassinato inicial é o que leva os três integrantes da Guanabara Real a seguirem pistas que os conduzem por caminhos perigosos, envolvendo-os com poderes maiores do que estão acostumados a lidar.

Mas estou me adiantando aqui. Antes é preciso falar de um dos diferenciais da história: o fato de ter sido escrita por três autores.

Nikelen Witter é a responsável pelos capítulos estrelados pela investigadora particular Maria Tereza Boaventura, uma mulher de passado misterioso que, de alguma forma, tornou-se uma figura influente numa sociedade ainda muito machista, em parte por ser dona de sua própria agência de detetives.

André Zanki Cordenonsi é o autor dos capítulos focados em Firmino Boaventura, ex-escravo, gênio da engenharia, perito em desvendar qualquer tipo de mecanismo, e habilidoso o bastante pra ter construído uma prótese para si mesmo após perder uma de suas mãos num caso anterior da Guanabara Real.

Eneias Tavares escreveu os capítulos narrados do ponto de vista de Remy Rudá, o místico de descendência indígena, com um passado trágico que o levou a optar por uma vida excêntrica e, para muitos, escandalosa.

Esse arranjo foi muito bem pensado, pois cada autor escreveu 7 capítulos, exatamente o número de dias em que se passa a trama. Portanto, ela inteira é contada em 21 capítulos. Sugestão: leia 3 capítulos por dia durante uma semana. Te ajudará a imergir na história. Isto se conseguir, é claro.

A Alcova da Morte é uma obra de leitura muito dinâmica. Os capítulos, em sua maioria, variam entre 10 e 12 páginas, e todos foram escritos num estilo bem conciso. Apesar disto, cada autor conseguiu imprimir personalidade ao seu texto, mesmo fazendo parte de uma trama maior. Isto ajudou bastante na tarefa de apresentar e desenvolver cada personagem.

Outro ponto que deve ser elogiado é a forma como revelaram parte do passado de Maria Tereza, Firmino e Remy: fazendo rápidas menções a eventos passados, ou a casos anteriores da Guanabara Real. Isto tanto deu uma profundidade maior aos personagens, como deixou ganchos para futuros livros, que podem explorar mais a fundo o passado da agência.

Também chama atenção o detalhe de cada um dos três representar parcelas da sociedade brasileira que desde sempre foram menosprezadas ou vítimas de preconceitos. Felizmente aqui não há vitimismo, mas vários momentos em que cada um mostra do que é capaz, apesar do que sofreu um dia.

Além do mistério central que move a trama, também há mistérios menores que a percorrem, como a identidade dos “contratantes” para os quais Maria Tereza está investigando o sumiço de várias pessoas, que podem ou não estar relacionadas ao crime do Corcovado.

A combinação dos três autores conseguiu criar uma história com personagens muito bem construídos, numa trama que soube equilibrar tecnologia, misticismo e conspiração tão bem quanto o trio de personalidades contrastantes. A dinâmica dos três funciona tão bem que acreditamos facilmente que eles se conhecem há muitos anos.

O desfecho ao mesmo tempo que amarra as pontas soltas, deixa um gancho para uma continuação capaz de deixar qualquer leitor ansioso pra saber o que vem pela frente.

Em suma, se você gosta de histórias de detetive bem narradas, leia A Alcova da Morte. Aqui está um trio de autores e de personagens que merecem a sua atenção.



AVEC Editora

Brochura

16×23 cm

240 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

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Saraiva