[LITERATURA] Retomando os Passos do Herói – Voltar ao Spohrverso

Se você não é fã do Eduardo Spohr, talvez seja uma tolice que leia esse post.

Recomendaria que, em vez deste artigo, tentasse ler os livros do autor.

Na verdade só o que faz jus à escrita de Spohr é ela mesma.

Mas se você já é fã, antigo conhecido, nerd de muitos anos, e espectador fiel das batalhas épicas que abalaram realidades múltiplas, por favor, chegue mais, pegue seu café… Vamos conversar.

Não posso culpar os maravilhosos autores e editoras dos quais tenho recebido livros. O site Nerd Geek Feelings recebe AS MELHORES OBRAS DO BRASIL, e busca entregar resenhas com qualidade. Mas, diante do cansaço, mesmo os leitores mais vorazes podem acabar pendurando a espada e se esquivando do combate. Assim, ontem, no auge de uma dor de cabeça, e sentindo que tinha a obrigação de adiantar algumas leituras para gerar conteúdo de qualidade para a página, meus olhos se perderam em um bloco de quatro livros, um alaranjado, os outros variando entre o azul turquesa de tons variantes ao gris-de-paine bem claro. Quase sem perceber, minha mente puxou uma canção do fundo do baú. A estante estava próxima demais, e eu distante da realidade vigente…

No segundo verso mental de “Can’t take my eyes off of you“, catei Herdeiros de Atlântida com as pontas dos dedos. Um novo vigor se instalou em mim. Eu estava mesmo com saudades de sentir com força as variações mais delicadas do tecido da realidade.

Mas, calma… Pegue o café – aquele que você ia pegar para ler esse post – e vamos por partes.

Órfãos da Gehenna:

A história de Denyel terminou, talvez da melhor forma. Da mesma forma, da melhor forma terminaram Kaira e… Não… não darei spoilers.

Mas é um fato que todos os sedentos leitores de Spohr acabaram com um sentimento de que, sem um universo paralelo repleto de anjos e demônios, tudo estava meio vazio.

Eduardo foi mestre em suas ideias de como conduzir cada pequeno viés do enredo complexo traçado na trilogia Filhos do Éden (que tem um início base opcional em A Batalha do Apocalipse). Como um bom escritor, Eduardo soube como dar um fim à trama sem deixar enfadonha a narração dos fatos, prolongando tomos e mais tomos, como é o sonho da maioria dos editores.

Talvez, se tivesse continuado, nosso escritor Nerd-mestre de RPG – Nerdcaster, houvesse se enrolado em algum pormenor, desgastando personagens que ele conseguiu marcar fundo em nós.

Mas é inegável, e se você é fã irá concordar comigo: que falta não faz um livro do Spohr, hein?

Efeito Spohr:

Você pode conhecer fãs “normais”, fãs regulares, fãs excelentes do Spohrverso. Mas certamente não conhece fãs como eu e a maior parte dos meus amigos. Basta dizer que projetos foram montados (é secreto), e ainda andam para a concretização de uma nova mídia do livro. Os passos são lentos e há toda uma questão jurídica e de casting. Mas talvez tenhamos uma grata surpresa em breve.

Mas não é só isso (como se fosse pouco). Eduardo terminou de escrever (segundo ele mesmo) A Batalha do Apocalipse em 5 de maio de 2005.

Nesse curto espaço de tempo – que é bem longo, se você fizer todas as contas – o mundo mudou, as opiniões mudaram, as gerações cresceram… Mas, ainda assim, Eduardo Spohr, com seu jeito tímido e cavalheiresco (e piadas dolorosas) consegue arrastar multidões de fãs para eventos de literatura – em um país em que ler é uma raridade, quase um requisito de segregação social.

O Suor da Batalha:

No último livro da série, há uma parte específica que vai um pouco além das camadas mais visíveis da história.

Na verdade, claro, isso ocorre por todo o livro, por meio de acontecimentos sutis que tem sua marca no mundo físico, no mundo espiritual (do livro, claramente), e no mundo das ideias.

Mas a passagem em que Kaira entra em batalha e vence, motivada pelo sangue de um ferimento, por qualquer razão, parece-me forte demais. O suor da batalha deve ser mesmo o combustível dos mais fortes para permanecer lutando, e isso, como eu disse, se aplica ao âmbito material (à estrutura dos livros) e ao âmbito filosófico, ou ao mundo das ideias. Bem ou mal, no meio de uma aventura incrível, em que o leitor sente a adrenalina crescer quase como se pudesse ver a batalha de perto, há a lição de que todas as coisas precisarão de uma motivação, e essa força interior nunca virá de forma calma. Pelo menos não na maioria dos casos.

Os exemplos de força e persistência, óbvio, são muitos, de modo que o suor da batalha é derramado do prólogo de A Batalha do Apocalipse ao Epílogo de Paraíso Perdido (uma brincadeira com Mark Twain?).

O sangue da batalha, que embebe cada página de rubro, talvez seja o nosso maior atrativo nesta literatura fantástica: É na queda de cada anjo (com o perdão do trocadilho) que nos vemos humanos e falhos, mas dispostos a nos erguer motivados pelo suor da batalha que escorre de forma intermitente por nossos poros.

E quem não houver se sentido guerreiro, dentro de sua pequenez, que atire a primeira espada.

O Novo Caminho do Herói:

Eduardo, sob a pena de aguentar as piadas de muitos de seus companheiros de nerdcast, sempre defendeu e ressaltou o olhar filosófico/ literário de Joseph Campbell. O eminente escritor remontou a jornada do Herói – a ideia do herói clássico, como personagem central de uma narrativa que passa por uma série de etapas importantes para a formação de sua personalidade.

Campbell, claro, não criou a Jornada do Herói, mas fez uma espécie de codificação daquilo que víamos em todas as obras da cultura ocidental.

Contudo, embora esse seja seu escritor base (digamos assim) para a visualização da abertura clara de uma trama complexa, em que o protagonista exerce seu papel de forma a traçar o caminho do Herói, posso ousar dizer que Spohr conseguiu fugir da demanda natural de construir o arquétipo “esperado” e fez o sua própria jornada do Herói.

Não me refiro a Ablon, que certamente faz jus a todas as qualificações cabíveis ao Herói clássico e é capaz de deixar qualquer Aquiles Feat. Heitor no chinelo.  Mas se pensarmos em Denyel, que rouba a atenção nos 3 livros escritos posteriormente, chega a ser engraçado notar como Spohr parece ter tentado (ainda que de forma inconsciente) o arquétipo do herói.

Bom… isso teve lá um culpado… Mas, vocês precisam ler, caso não saibam.

Gaaaaato, gaaaaaato….

O que Costuramos do Tecido:

Houve, no início do ano, rumores (incertos, sempre incertos) de que nosso caro paladino poderia, em algum momento, sem fugir do maravilhoso Spohrverso, enveredar pelas religiões africanas. Houve quem dissesse que o repouso do guerreiro seria ainda grande.

Com ou sem livros, aqui estamos nós, relendo livros, jogando RPG, recriando cenas, ilustrando quadros, criando momentos com personagens, refazendo desenhos, dublando, reescutando nerdcasts sobre o assunto… costurando o tecido…

Sempre, claro, na esperança de que termine o sétimo dia de descanso do Senhor desse infinito Universo.

Retomei essa semana minha leitura de Filhos do Éden. Lá vamos nós, Kaira!


Ainda não conhece as obras de Eduardo Spohr?
Então comece sua jornada agora: