[LITERATURA] Lovecraft: Uma Minibiografia do Colosso do Terror

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Howard Phillips Lovecraft, filho único de Winfield Scott Lovecraft e Sarah Susan Phillips Lovecraft, nasceu no dia 20 de agosto de 1890 em Providence, Rhode Island.

Quando tinha 2 anos, em 1893, seu pai teve um episódio alucinatório durante uma viagem de trem, que o fez ser levado de volta a Providence. Lá foi internado no Butler Hospital, onde ficou até 1898, quando morreu de uma paresia provavelmente provocada pela sífilis, causa provável de sua doença mental, embora Lovecraft sempre tenha acreditado que a morte do pai foi consequência de uma “exaustão nervosa.”

H.P. Lovecraft by blindbildLovecraft foi uma criança precoce. Com dois anos, recitava poesias. Com três, aprendeu a ler. Com cinco conheceu as fábulas dos Irmãos Grimm e As mil e uma noites, por influencia de seu avô, que despertou seu gosto pela literatura. Seu fascínio pelas lendas árabes levou-o a adotar o pseudônimo de “Abdul Alhazred” — que mais tarde viria a ser o autor fictício do terrível Necronomicon, presente em várias de suas obras, e peça integrante de sua complexa mitologia. Entre seis e sete anos começou a escrever pequenos contos de terror. 

Passou a frequentar a escola em 1904, mesmo ano em que seu avô faleceu, deixando sua família em dificuldades financeiras que a obrigou a vender a mansão onde morava, e à qual Lovecraft era muito apegado. Isto causou-lhe muito sofrimento, ao ponto de levá-lo a considerar o suicídio, ideia que ele não tentou pôr em prática.

monsters-of-lovecraftSua fase na escola, que durou apenas 4 anos, foi marcada por muitas faltas, devido à sua saúde precária – acredita-se que ele sofria de terrores noturnos (sendo os “noctétricos”, presentes em A busca onírica por Kadath, originários de um destes distúrbios de sono). Em 1908 sua vida escolar foi interrompida, quando sofreu uma crise nervosa de causa desconhecida – especula-se que foi por sua dificuldade de aprender matemática, disciplina exigida para a realização de seu sonho na época: tornar-se astrônomo.

O episódio fez Lovecraft abandonar a escola, virar autodidata, e viver em reclusão até 1913, quando chamou a atenção da United Amateur Press Association (UAPA) durante uma polêmica discussão que travou durante um ano inteiro com o editor da revista pulp Argosy, cujas histórias o autor considerava de baixa qualidade. Além de ser convidado a integrar a UAPA, Lovecraft passou a escrever para diversos jornais desde então, e entre 1915 e 1923 editou seu próprio jornal, The Conservative.

Lovecraft-of-the-AntarcticDurante este período Lovecraft estabeleceu contato com várias pessoas que compartilhavam de seus interesses, entre elas vários “expoentes da literatura de horror, fantasia e ficção científica, como August Derleth, Clark Ashton Smith, Donald Wandrei, Frank Belknap Long, Robert Bloch [autor do livro Psicose, adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock] e Robert E. Howard [criador de Conan, o Bárbaro], entre muitos outros.”

Em 1919, Susan Lovecraft sofreu um colapso nervoso, foi internada no mesmo hospital psiquiátrico onde seu marido faleceu, e diagnosticada com distúrbios mentais (entre eles histeria e depressão). Dois anos depois faleceu, vítima de uma operação na vesícula mal-sucedida.

O falecimento da mãe levou Lovecraft a considerar novamente o suicídio, mas a ideia foi mais uma vez abandonada, apenas um mês mais tarde, quando conheceu Sonia Haft Greene, uma judia ucraniana proprietária de uma loja de chapéus. Três anos depois, em 1924, casaram-se e mudaram-se para Nova York.

hplovecraftpz0O casamento durou apenas 10 meses em decorrência de vários problemas: a falência da loja de chapéus de Sonia; os problemas de saúde de Lovecraft; sua dificuldade de conseguir um emprego fixo; e seu desinteresse pelo sexo. Isto fez Sonia separar-se do autor, e mudar-se para Cleveland.

Tudo isto despertou em Lovecraft um ódio por Nova York, que “foi transformado em contos como “Ele” (1925), “O horror em Red Hook” (1925) e “Ar frio” (1926)”, que em grande parte falam da opressão e do horror que sentia na metrópole, os quais, somados aos insucessos que acumulou durante seu período lá, alimentaram os sentimentos racistas que nutria pelos imigrantes (basta reparar em como o autor descreve outras raças com repulsa em vários de seus contos, incluindo Cthulhu).

homage_to_lovecraft_by_valzonline-d34jr64Em 1926 o autor voltou para Providence, onde morou com suas tias. Coincidência ou não, “foi nesta época que o período mais fértil de toda a sua carreira” quando escreveu “O Chamado de Cthulhu” (1926), A Busca Onírica por KadathO caso de Charles Dexter Ward e A cor que caiu do espaço (os três de 1927), O Horror de Dunwich (1928), Um sussurro nas trevas (1930), Nas montanhas da loucura e A sombra de Innsmouth (ambos de 1931).

Sua última narrativa longa (A sombra vinda do tempo), assim como seu último conto (O assombro das trevas) foram concluídos em 1935, mesmo ano no qual foi diagnosticado com câncer no intestino, do qual recusou tratar, por temer uma morte semelhante à de sua mãe. Quase um ano e meio depois, no dia 15 de março de 1937, 5 dias após ser internado no Jane Brown Memorial Hospital, Lovecraft morreu com 46 anos.

Influências:

pets_by_phlegias_t_redback-d5jamheAlém de Edgar Allan Poe, que para Lovecraft foi primeiro autor a elevar os contos fantásticos ao patamar de arte no século XIX”, o autor também cita como seus pares, e possíveis influências em sua busca para tornar os contos de horror uma forma artística legítima os seguintes nomes: Villies de L’Isle Adam, William Beckford, Ambrose Bierce, S.T. Coleridge, Nathaniel Hawthorne, Washington Irving, Henry James, Guy de Maupassant, R.L. Stevenson, entre outros.

Outras duas influências de Lovecraft foram as obras de Oswald SpenglerFriedrich Nietzsche, ambos filósofos alemães que destacavam em seus escritos a decadência da civilização ocidental em decorrência da era industrial e mecanicista.

Além disto, as histórias que fazem parte do Ciclo dos Sonhos, em sua maioria protagonizadas por Randolph Carter, foram confessamente inspiradas na obra do irlandês Edward John Moreton Drax Plunkett, conhecido pela alcunha de Lord Dunsany, que Lovecraft considerava igual a ele. O autor disse o que segue sobre a obra de Dunsany:

“O reino cósmico é o reino em que vivo; os distantes panoramas desprovidos de emoção e a beleza ao luar em pitorescos telhados antigos são os panoramas que conheço e adoro.”

Temas recorrentes:

Certa vez citou como os três grandes interesses de sua vida o amor ao estranho e ao fantástico; o amor à verdade abstrata e à lógica científica; e o amor à antiguidade e à permanência.

lovecraft por mike mignolaIsto explica a combinação, presente na maioria de suas histórias, entre o horror tradicional e os avanços da ciência – das quais Lovecraft procurava manter-se atualizado em sua época.

O apreço do autor pela lógica científica também se faz presente em suas descrições realistas e lógicas do estado das coisas e do mundo que cerca os protagonistas de seus contos, sendo a única exceção o momento em que o horror sobrenatural se faz presente. Tal contraste é o que gera no leitor a forte imersão e impressão que sua escrita consegue alcançar.

hp lovecraft smallLovecraft descrevia o subgênero que criou, o horror cósmico, como um “mundo em que os seus habitantes [são] imensuravelmente insignificantes [diante de] simetrias mais vastas e mais sutis do que aquelas relativas à humanidade.” Daí as criaturas indescritíveis, as dimensões incompreensíveis e os ângulos impossíveis presentes em várias de suas obras. Alguns críticos defendem que este tema, central em boa parte de sua obra, é um reflexo do desprezo de Lovecraft pelo mundo ao seu redor, e de sua busca por conhecimento e inspiração interiores (talvez manifestações ficcionais de seus próprios demônios?). O mesmo podendo ser dito de sua visão da humanidade como uma raça condenada por um destino que lhe foge do controle, e por forças alienígenas.

Um dos temas recorrentes da obra de Lovecraft foi da luta entre a civilização e a barbárie primitiva, representada por homens cultos e bem educados que são gradualmente corrompidos por alguma influência obscura proveniente de seu contato com o desconhecido, muitas vezes cultuado por “selvagens.”

Outro tema muito abordado por Lovecraft era o da “maldição hereditária”, seja como resultado do cruzamento de humanos e não-humanos (“A sombra de Innsmouth”) ou por influência direta de magia (“O caso de Charles Dexter Ward”). Tais maldições frequentemente se manifestavam como degradação física e mental, que alguns estudiosos da obra do autor especulam como uma manifestação da preocupação de Lovecraft com o histórico de distúrbios mentais de sua família.

No que diz respeito à religião, apesar de ter criado todo um panteão de entidades alienígenas poderosíssimas adoradas como deuses por vários cultos religiosos humanos e híbridos, Lovecraft não acreditava numa “vontade cósmica central” nem na “sobrevivência eterna da personalidade”, suposições que ele considerava “absurdas e injustificáveis.” Por isto se considerava ateu, e disto originou a “indiferença cósmica” presente na filosofia expressa em sua ficção.

Fracasso de público:

h__p__lovecraft_by_moracz-d4xfpozLovecraft conseguiu publicar apenas um livro quando vivo, “A sombra de Innsmouth”, em 1936, mas seu público nunca foi além dos leitores das revistas pulp para as quais escrevia.

Foi apenas em 1939, dois anos após sua morte, que sua obra passou a ser reunida em coletâneas da editora Arkham House, fundada especialmente para publicar seus contos. Mas os livros não chamaram muita atenção na época.

Seu reconhecimento só passou a crescer em 1965, quando a editora publicou “Selected Letter I”, o primeiro volume da extensa correspondência trocada entre Lovecraft e vários autores de renome da ficção científica, fantasia e horror (previamente citados neste texto) – feito pelo qual é considerado um dos grandes escritores de cartas de seu século.

Em 1979 foi fundado o periódico Lovecraft Studies, dedicado a estudar as obras do autor. E apenas em 2005, com a publicação de Tales, um volume inteiramente dedicado a Lovecraft, veio o reconhecimento definitivo de sua obra.

Fontes: Introdução de O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias, escrita pelo tradutor literário Guilherme da Silva Braga para a Editora Hedra e Wikipedia.


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