[LITERATURA] 1984: Duplipensamentos e o Big Brother

Big Brother e tudo o que você não sabia

A maior parte das pessoas proles pensa que Big Brother é apenas um programa televisivo, extremamente irritante, no qual Pedro Bial se despe de sua capa de intelectualidade e passa a se preocupar (assim como você, telespectador) com a vida alheia. Big Brother é isso. Mas não apenas. Na verdade, o conceito do Grande Irmão foi pego e transformado num enlatado de TV, destinado a ficar vigiando um bando de gente fútil e sem personalidade definida. (e olha que eu estou me esforçando pra não falar mal do programa)

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Mas você realmente sabe de onde veio a ideia de uma figura maior, predominante, que tem o poder de vigiar um dado grupo de pessoas em todas as suas ações cotidianas? Você realmente conhece o Big Brother?

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No ano de 1948, o genial George Orwell escreveu um livro que mostrava um futuro distópico, que se passaria em 1984. Esse romance deveria ser lido no colégio, mas o controle de massa não permite.

20130521-073857.jpgA essencialidade do livro reside na visão abrangente que se dá aos acontecimentos do século 20, à medida que se avançam as páginas. É impossível ler 1984 sem repensar conceitos políticos, filosóficos e, sobretudo, sem repensar o controle de pensamento que sofremos o tempo todo pela mídia.

O mundo dividido em 3 partes

O mundo, no livro, fica dividido em 3 potências após uma suposta guerra atômica: a Oceania (toda a América, a parte sul da África e a Grã Bretanha), a Eurásia (a Europa e uma porção da Ásia) e a Lestásia (todo o Leste asiático).

Basicamente temos União Soviética, Estados Unidos e China. Não por acaso.

Este mundo está em guerra constante, e nosso protagonista, Winston Smith, mora em Londres (pista número um: parte da Oceania) e é integrante do partido externo.

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Assim como o mundo é dividido em três partes, também a sociedade é duramente segmentada em três categorias: O partido interno (menos de 2% da população), o partido externo (a “classe média” da história, e como sempre quem mais se ferra), e os proletas ou não-cidadãos (os que viviam uma vida onde as leis não vigoravam, ignorantes e felizes em sua mediocridade).

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O Grande Irmão

Orwell monta um pensamento em sua obra que parece ingênua, mas tem muita força.

Todo o mundo vive uma ditadura ferrenha, onde o pensamento é cerceado a todo custo e as pessoas são controladas em seus mais íntimos pensamentos.

Tudo isso, é claro, não se deve apenas à grande quantia de teletelas espalhadas pelas ruas e todos os cômodos das casas de todas as pessoas, mas a uma premissa muito interessante.

A Oceania, ou melhor, os membros internos do partido que governa a Oceania, não se apresentam como um partido que governa a população. Em vez disso, a figura do poder é direcionada a apenas um Homem, O GRANDE IRMÃO. Ele é a ponte focal para o amor, medo e referência, sentimentos que podem ser mais facilmente atribuídos a um homem, uma persona.

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O Big Brother, O Grande Irmão, olha por ti, zela por ti, mas também te vigia em todos os seus movimentos.

Algo que achei curioso ao ler o livro foi saber que, abaixo do Grande Irmão (o vigilante), há a pirâmide social. Isso me fez lembrar de um símbolo muito conhecido.

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Newspeak – a Novilíngua e o encurtamento do pensar

Há um termo hebraico que diz Ave kedabra (leitores de Harry Potter, manifestem-se!) que significa, grosso modo, “falando eu crio“.

Em todo e qualquer tipo de mitologia encontramos referências de que foi a partir da fala que se criou o universo. Desde Jesus, como VERBO divino, até o OM, como a primeira sílaba do universo.

De fato, se você está com problemas, procura um terapeuta para… Falar…

Se está confuso, pode também pegar um bloco de notas e… Falar (de forma escrita…)

Ou mesmo, se você está na pior, pode procurar um amigo e desabafar… Falar…

A fala, ainda que internalizada, nos ajuda a organizar os pensamentos, além de facilitar a gênese de outros pensamentos mais complexos. Falar é pensar. Colocar em palavras pensamentos avulsos pode criar genialidades.

Em 1984, os cidadãos são contemplados com uma nova forma de fala. A novilíngua, onde as palavras aos poucos vão perdendo sua existência, tornando-se cada vez mais escassas. Pra quê? Para tolir o pensar…

Teletelas e confessionário

Como já dito, todo o controle do partido sobre o cidadão se dá por meio das teletelas, ou seja, câmeras instaladas ao longo de toda a casa do indivíduo, capazes de filmar e mostrar imagens.

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É pelas teletelas também que ocorre a lavagem cerebral, pois delas há uma interminável perturbação de vozes que dão ordens e incentivam os cidadãos às suas tarefas diárias, “seu dever para com o partido”.

Além disso, quando pegos em “delito”, os indivíduos são levados a confessar seus erros (e até coisas que não fizeram) em um confessionário. Em que programa de TV já vimos coisas assim? Um doce pra quem acertar só que não.

2+2=5 :. Duplipensar.

Em dado momento do livro, Winston escreve em seu caderno (aliás, a escrita TAMBÉM É PROIBIDA): “Liberdade é dizer que 2+2= 4“.

Quando pego, por cometer o crime de se aliar a Julia, e com ela manter relações sexuais, Winston é obrigado a dizer, ou melhor, a aceitar que na verdade 2+2=5, sob tortura. Uma verdadeira lavagem cerebral. Aqui entra a ideia de DUPLIPENSAR. Você pode ter certeza que dois mais dois dá quatro e, AO MESMO TEMPO aceitar que dois mais dois resulta em cinco. DUPLIPENSAR significa, pois, aceitar duas “verdades” divergentes acerca de um mesmo assunto de forma natural.

Genial, não? Bem, Winston não devia pensar como eu…

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O conceito de duplipensar também fica bem claro nas máximas proclamadas pelo partido: Paz é Guerra, Liberdade é escravidão, Ignorância é força (ou sabedoria).

O conceito de Não-pessoa e o Não-passado

Quando alguém se rebelava contra o partido ou era acusado de tal (quase sempre de forma injusta), esta pessoa sumia. Não era dada como morta, assassinada, não era presa. Apenas sumia, e era como se esse ser humano jamais tivesse existido. Todos os seus registros, documentos, ações, fotos e memórias concretas eram devidamente apagadas e o assunto morria. Aqui Orwell nos mostra a ideia da Não-pessoa, algo de certa forma comum na União Soviética, onde o processo de fazer alguém desaparecer era bem similar.

Junto com essa ideia, temos a noção de não-passado.

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Durante a tortura de Winston, O’Brien (spoiler, gente, foi mals) o pergunta algo muito interessa: “Winston, o passado existe em outro lugar que não seja na memória do indivíduo? Há algum lugar em que o passado esteja ocorrendo concretamente?“. Winston responde que não, dando a seu torturador a deixa para esclarecer uma das partes mais filosóficas do livro:

Quem controla o presente, controla o passado. Ou seja, como o presente é a todo momento mexido e alterado de acordo com o interesse do partido interno, pessoas, eventos e coisas deixam de existir, ou ganham existência, criando um não-passado. Ou um passado manipulado.

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No mais, se você for esperto o bastante, ame o GRANDE IRMÃO. Isso se não quiser parar no quarto 101.


1984-george-orwell-companhia-das-letrasCompanhia das Letras

Capa comum

20,8 x 13,4 x 2,6 cm

416 páginas

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