[LITERATURA] Contos Malditos: Branca de Neve e Os Sete Anões

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Para dar continuidade à nossa insana série “Contos Malditos“, por que não estragar a infância de todos vocês avacalhando a doce história da Branca de Neve e os Sete Anões?

Todos vocês, leitores inocentes e criados a leite com pera, certamente conhecem a versão fofinha da Disney, gravada na década de ’30 e remasterizada trocentas vezes até hoje.

Mas nada é tão simples assim no mundo das fadas. Como eu digo sempre: todas as fadas são fodas.

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Kinder und Hausmaerchen

Vinda da tradição oral alemã – parte do folclore germânico difundido entre a comunidade de boca em boca – a história da bela menina vitimada pela bruxa má madrasta invejosa with lasers, e ajudada por sete anões gentis, foi compilada apenas por volta de 1812 pelos famosos irmãos Grimm, em sua coletânea “Histórias Para Crianças e Para Adultos” (Kinder und Hausmaerchen).

As versões, por haverem sido distribuídas de forma oral por vários cantos da região hoje correspondente à Alemanha e adjacências ao longo de muitos e muitos anos, obviamente são as mais diversas.

Em uma das versões, Branca de Neve possui uma irmã chamada de Rubra Rosa (ou Rosa Vermelha, em alguns contos), junto da qual passaria pelas mais diversas desventuras. No fim dessa história, Branca de Neve se casaria com um príncipe urso (what?!).

Aparentemente essa versão muito pouco tem a ver com o enredo do qual estamos falando aqui. Os nomes talvez, em algum momento, tenham sido apenas trocados ou confundidos.

Branca de Neve e Rosa Vermelha

Branca de Neve e Rosa Vermelha

Há ainda um outro conto, ainda relacionado à personagem Branca de Neve, em que a princesa passa a viver na companhia de 40 dragões quando foge do castelo de seu pai. Nesse conto, a moça cai adormecida por usar um anel. Esse enredo parece ter mais relação com a mitologia nórdica e crenças mais arcaicas, em que seres como dragões seriam mais bem aceitos. Além disso, é interessante notar a relação do anel com a ideia de poder. Antigamente, um anel era símbolo de realeza. Não era raro que um título fosse reconhecido ou demonstrado pelos anéis usados por uma pessoa. No caso da Branca de Neve, ter o anel como uma maldição seria o simbolismo claro do poder como algo negativo, em oposição ao abandono dos valores de riqueza (lembremos que Branca de Neve foi morar na floresta) como algo positivo. E se você, ao pensar num anel perigoso, lembrou de alguma história familiar, não se espante. Aposto que a história da qual você lembrou também possui raízes saxãs e anões… E Um Anel.

Não se sabe bem em que momento esse conto foi criado, nem suas reais influências. Mas há muitos resquícios pagãos. Em uma das muitas vertentes, por exemplo, ao invés de consultar o espelho, a bruxa/madrasta, consulta o Sol. Em outros, consulta a Lua cheia, o que remonta a rituais de magia celta, ou panteísmo.

contos-malditos-branca-de-neve-sete-anoes-06E mesmo o espelho tem traços malignos, se pensarmos em Branca de Neve como uma história para crianças: o que parece passar desapercebido quando ouvimos ou vemos a história em nossa infância, torna-se claramente uma manifestação de magia necromante, posto que um espírito é invocado para dar consultas e opiniões. Ou a bruxa/madrasta tinha um caso sério de esquizofrenia.

Em outra versão, mais conhecida por ter sido difundida pelo cinema há pouco tempo no filme “Espelho, Espelho Meu“, magistralmente estrelado por Julia Roberts, os anões não seriam mineradores ou lenhadores. Para sustentarem-se, os homenzinhos seriam, na verdade, ladrões. Levando em consideração o grande preconceito com o qual pessoas com algum problema físico eram tratadas, faz sentido. Ser anão, por exemplo, em alguns lugares da Europa Católica, poderia ser visto como resultado de uma bestialidade (sim… sexo com animais). Assim, ser assaltado por seres de caráter demoníaco no meio de uma floresta seria um excelente argumento para que caminhos ermos fossem evitados.

Mas, a história que eu e você conhecemos normalmente é a mais comum e mais contada:

No início da história contada pelos Grimm, uma rainha costurava, no inverno, ao lado de uma janela negra como o ébano. Ao lançar o olhar para a neve, picou o dedo com a agulha, e três gotas de sangue pingaram sobre a neve, o que a deixou admirada e a fez pensar que, se tivesse uma filha, gostaria que fosse “alva como a neve, rubra como o sangue e com os cabelos negros como o ébano da janela”.

Não tardou, e a rainha teve uma filha de descrições idênticas ao seu pedido: branca como a neve, com os cabelos negros como o ébano e os lábios vermelhos como o sangue. Mas, tão logo sua filha veio ao mundo, a rainha morreu. O pai deu à filha o nome de Branca de Neve, e logo tornou a casar com uma mulher arrogante, esnobe e vaidosa, possuidora de um espelho mágico que só falava a verdade.

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A rainha consultava seu espelho, perguntando quem era a mais bela do mundo, ao que ele sempre respondia: “Senhora Rainha, vós sois a mais bela”. Quando Branca de Neve fez dezessete anos, e um dia a madrasta perguntou: “Quem é a mais bela de todas?”, e o espelho não tardou a dizer: “Você é bela, rainha, isso é verdade, mas Branca de Neve possui mais beleza.”

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Cheia de inveja, a Rainha contratou um caçador e ordenou que ele matasse Branca de Neve e lhe trouxesse seu coração como prova, na esperança de voltar a ser a mais bela. O caçador ficou inseguro, mas aceitou o trabalho. Pronto para matar a bela princesa, o caçador desistiu ao ver que ela era a menina mais bela que já havia encontrado, e rapidamente a mandou fugir e se esconder na floresta; para enganar a rainha, entregou a ela o coração de um jovem veado. A rainha assou o coração e o comeu, acreditando ser de Branca de Neve, mas, ao consultar o espelho mágico, ele continuou a dizer que Branca de Neve era a mais bela.

Branca de Neve fugiu pela floresta, até encontrar uma casinha e, ao entrar, descobriu que lá moravam sete anões. Como era muito gentil, limpou toda a casa e, cansada pelo esforço que fez, adormeceu na cama dos anões. À noite, ao chegarem, os anões levaram um susto, mas logo se acalmaram ao perceber que era apenas uma bela moça, e que a mesma tinha arrumado toda a casa. Como agradecimento, eles cederam sua casa como esconderijo para Branca de Neve, com a condição de ela continuar deixando-a tão limpa e agradável.

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A rainha não tardou a descobrir o esconderijo de Branca de Neve e resolveu matá-la; disfarçada de idosa pobre, foi até a casa dos anõezinhos. Chegando lá, ofereceu um laço de fita a Branca de Neve, que aceitou. A rainha ofereceu ajuda para amarrar o laço em volta da cintura de Branca de Neve e, ao fazê-lo, apertou-o com tanta força que Branca de Neve desmaiou. Quando os anões chegaram e viram Branca de Neve sufocada pelo laço de fita, rapidamente o cortaram e ela voltou a respirar.

A rainha novamente descobriu que Branca de Neve não estava morta, e voltou a se disfarçar, mas desta vez como uma velha senhora que vendia escovas de cabelo, na verdade envenenadas. Ao dar a primeira escovada, Branca de Neve caiu no chão, desmaiada. Quando os anões chegaram e a viram, rapidamente retiraram a escova de seus cabelos e ela acordou.

622f7b4f8226f1b2d5348ae730990ac6-d490wzcA rainha, já enlouquecida de fúria, decidiu usar outro método: uma maçã enfeitiçada. Dessa vez, disfarçou-se de fazendeira e ofereceu uma maçã; Branca de Neve ficou em dúvida, mas a Rainha cortou a maçã ao meio e comeu a parte que não estava enfeitiçada, e Branca de Neve aceitou e comeu o outro pedaço, enfeitiçado. A maçã engasgou na garganta de Branca de Neve, que ficou sem ar. Quando os anões chegaram e viram Branca de Neve desacordada, tentaram ajudá-la, mas não sabiam o que causara tudo aquilo, e pensaram que ela estava morta. Por achá-la tão linda, os anões não tiveram coragem de enterrá-la, e a puseram em um caixão de vidro.

contos-malditos-branca-de-neve-01Certo dia, um príncipe que andava pelas redondezas avistou o caixão de vidro, e dentro a bela donzela. Ficou tão apaixonado, que perguntou aos anões se podia levá-la para seu castelo, ao que eles aceitaram e os servos do príncipe a colocaram na carruagem. No caminho, a carruagem tropeçou, e o pedaço de maçã que estava na garganta de Branca de Neve saiu, e ela pôde novamente respirar, abriu os olhos e levantou a tampa do caixão.

O príncipe a pediu em casamento, e convidou para a festa a rainha má, que compareceu, morrendo de inveja. Como castigo, ao sair do palácio, acabou tropeçando num par de botas de ferro que estavam aquecidas. As botas fixaram-se na rainha e a obrigaram a dançar; ela dançou e dançou até, finalmente, cair morta.


E agora que vocês já foram bastante enrolados com o lero-lero acima, contemos a história conforme a tradição oral… Que é bem mais interessante, diga-se de passagem.

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Para começar, Branca de Neve é expulsa de casa, não por motivo de inveja por parte de uma madrasta malvada. Como já comentado no primeiro conto maldito (Chapeuzinho Vermelho), as relações entre pais e filhos não eram exatamente muito boas. E a tradição oral confirma isso: há vertentes que apontam que a bruxa má, que tanto perseguiu a menina branca como a neve era, na verdade, sua mãe.

contos-malditos-branca-de-neve-snow_white_fan_art_by_claphand-d36auhxA motivação também diverge. Há quem diga que foi pura inveja da beleza estonteante da garota. Mas há versões (ligeiramente mais macabras) que sugerem algo que poderia configurar uma Síndrome de Electra, ou seja, a menina seria expulsa de casa pela mãe/madrasta por causa de um relacionamento mais estreito do que deveria com o pai. Assim, enciumada, a rainha má expulsa a filha incestuosa para evitar uma traição terrível.

Édipo Rei

Édipo Rei (sim, aquele do complexo)

Nesse aspecto, a história de Branca de Neve é quase uma reinterpretação (inconsciente?) do mito de Édipo Rei, numa versão feminina. Temos a filha que derrota a mãe e tem desejos pelo pai. Além disso, a protagonista também é expulsa de casa para ser morta, mas é poupada pelo seu algoz. Da mesma forma que Édipo.

Tendo sido poupada por um caçador, que deveria ser seu assassino (mandado pela bruxa maligna), a moça dá a sorte (?) de encontrar uma pequena casinha com SETE anões.

Esses anões, segundo o nosso querido e eufemizante Walt Disney, trabalhavam com mineração. No entanto, em outras versões, os pequenos homenzinhos eram ladrões. Inclusive, essa é a versão dada no filme “Espelho, Espelho Meu“, lançado em 2012.

Branca de Neve e os Sete Anões de "Espelho, Espelho Meu"!

Branca de Neve e os Sete Anões de “Espelho, Espelho Meu”

Agora, caro leitor, sejamos coerentes. Uma garota conhecida por sua estonteante beleza, vai parar sozinha e indefesa numa casa com sete homens (anões) que vivem juntos e isolados, provavelmente sem uma companhia feminina há muito tempo.

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É…

Se você acredita na versão Disney, em que os doces senhorizinhos anões ajudam a mocinha numa relação familiar e inocente, você também deve estar à espera do Papai Noel.

A verdade, inclusive presente em algumas das versões “perpetuadas” e divulgadas pela tradição oral (aliás, palavra adequada aqui), reza que Branca de Neve teve, sim, apoio dos sete pequenos homens, casa, comida e roupa lavada. Mas!!!!… Tudo tem um preço, e nem sempre pode ser pago em dinheiro.

Em algumas das vertentes (mais tradicionais no Norte Europeu), a pobre menina era apenas transformada em empregada doméstica (a versão pálida da Cinderela), sendo obrigada a cozinhar e cuidar da casa em troca de um teto e comida.

contos-malditos-branca-de-neve-e-seus-amantesHá, porém, algumas vertentes mais… Heterodoxas… Que afirmam que, ao se perder de seu lar e achar-se na casa dos sete anões, Branca de Neve virou a alegria da galera. Sim, é isso mesmo. Branca de Neve teria sido, na verdade, uma moça coagida (ao menos no início, até ela tomar gosto pela coisa) a prestar favores sexuais a sete homens desesperados por alguma atenção feminina.

Então, seguindo a linha mais pervertida possível, Branca de Neve, perdida e sozinha, encontra uma casa pertencente a sete anões. À menina é dada a opção de viver na casa, ter roupa e comida, mas sob condições de fazer tudo tuto que os homenzinhos pedirem. Provavelmente a garota passou por maus bocados ao servir de escrava sexual para o Zangado. Mas teve momentos de paz quando foi servir ao Soneca.

Seguindo sua vidinha desgraçada de escrava sexual, a jovem e muito alva princesa seguia em frente, quando a Rainha Má, sabedora de sua condição de mulher ainda viva, voltou a ter inveja da jovem Branca de Neve. Você, leitor, deve estar se perguntando quem diabos teria inveja de um destino maldito desses, mas as coisas na Europa pré-moderna não eram fáceis pra ninguém. Ser bonita devia valer muito!

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Tomada, então, por venenosa inveja, a Bruxa/Rainha Má descobre através de seu espelho mágico – mágico nada, era só esquizofrenia mesmo – onde está escondida a jovem de pele alva. Não contente em ter gerado para a menina uma vida de prostituição, a Rainha/Bruxa decide acabar com a vida da indefesa moça e consequentemente com a alegria dos anões.

A vilã prepara uma poderosa poção venenosa e mágica – mágica nada… era só cianureto mesmo – e nela mergulha uma maçã bem vermelha. Vestida de velhinha mofada, a bruxa sai à caça da jovem e inocente já nem tanto Branca de Neve e, ao encontrá-la, banca a senhorinha fofinha e oferece à garota a maçã envenenada.

contos-malditos-branca-de-neve-snow_white_fan_artAgora, uma pausa técnica necessária: por que a maçã? Sim, meus caros, a escolha da fruta tem, sim, a ver com o local onde este conto de fadas foi criado, posto que os pomares precisam ser cultivados em lugares frios. Mas você deve estar pensando que a maçã é, em muitas mitologias, uma fruta simbólica. Agora, pense bem de onde vem essas mitologias que envolvem maçãs. Da Europa, certo? Sim. A escolha é meramente regional e climática. Poderia ter sido uma banana.

Comovida com o presente inesperado da pobre senhorinha desdentada, Branca de Neve aceita a maçã (cuidado, professores!) e dá-lhe uma bela mordida. Como não poderia deixar de ser, a moça cai dura no chão, afinal, ninguém resistiria a uma boa dose de cianureto. A bruxa/rainha má, ainda vestida de velha mofada, vai embora, feliz e contente por cumprir sua missão de recalcada de plantão. É claro que, por ser uma obra Europeia e, por isso, predominantemente maniqueísta, o mal precisa ser punido, nem que seja via Deus ex Machina. A Bruxa Má cai num penhasco. Fim.

Os anões acham o corpo da menina jogado nas proximidades da casinha onde moram e o levam para a sala, colocando-o num caixão – o que denota um gosto por necrofilia. Dias vão, dias vêm, o corpo fica lá, as moscas pousam em cima do defunto, os anões passam, olham, admiram uma morta no meio da sala… Essas amenidades do dia a dia… Até que um príncipe aparece na região e, sabendo da história – ou atraído pelo cheiro do defunto – resolve visitar a garota cuja tez é mais branca que a neve.

contos-malditos-branca-de-neve-zombie-snow-whiteAo entrar na casinha dos anões – além de bater com a cabeça no teto – o príncipe se apaixona perdidamente pela mocinha cadáver. Sem pensar duas vezes, o galante príncipe encantado ajoelha-se e beija o CADÁVER. E, de repente, o que parecia ser apenas um asqueroso impulso de necrofilia, revela-se um truque de magia negra digno de Sacerdotes Tuli: a menina se ergue, viva.

O fim é fácil de imaginar. Como sempre, a mocinha casa com o príncipe, e os dois vivem felizes para sempre. E claro, os anões voltam a ficar na seca.

Brincadeiras à parte, muito embora o conto tenha sido bastante avacalhado acima, existe, sim, todo esse teor de erotismo, necrofilia e assassinato nas versões pré-modernas de A Branca De Neve e Os Sete Anões. Mas, se ficar com preguiça de ler, procure o filme “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam” (será traumatizante, mas você vai descobrir a solução dos anões para a falta de sexo).

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