[JOGO] THE WALKING DEAD: THE GAME… porque cunamãozice pouca é bobagem

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PRODUTORA: Telltale Games
DISTRIBUIDORA: Telltale Games (PC, XBOX 360, PS3, PS Vita, iOS)
JOGADORES: 1
ANO: 2012
GENERO: Point-and-click

Um fato que é pouco conhecido entre os humanos é que Marylin Monroe usava óculos. Outro fato pouco conhecido é que o Rodrigo (nosso redator de quadrinhos… ou pelo menos era, acho que agora ele deve estar escrevendo sobre ocultismo e sacrificio de crianças… sério meninos vocês bagunçam esse staff mais que puritana que usa quentão como desculpa para tocar terror fingindo de bebada) é o meu segundo mais antigo amigo. Eu conheço ele desde o tempo em que o Domingo Legal fazia especial todo ano no aniversário da morte dos Mamonas Assassinas (ao contrário de hoje, né) e já ouvi muitas opiniões dele a respeito de muitas coisas. Algumas eu discordo, algumas não. Antes de qualquer coisa, antes mesmo de continuar ou de respirar um numero impar de vezes, eu recomendo que assistão o vídeo do nosso anfitrião favorito, sobretudo a parte que ele diz o que pensa sobre adaptações. Opinião da qual eu só não compartilho porque compartilhar é coisa de comunista nojento e eu não gosto de comer criancinhas

Por isso quando ele vociferou contra Walking Dead e que só assistiria a 4ª temporada para evitar um  ataque de misseis da Coréia do Norte eu ergui uma sobrancelha e meia. Sim, é um poder meu erguer meia sobrancelha, não tentem isso em casa sem a supervisão de um adulto responsavel. Mas então, obviamente eu sabia que ele acompanhava as HQ e estava mais desapontado que o Marlon Brando no poderoso Chefão (sério, alguém lembra uma cena em que ele não pareça desapontado com alguma coisa?). Como eu não acompanho a HQ, e Walking Dead é uma série bacana, só pude imaginar que se tratava de uma de duas coisas:

1) Um ataque de pelancas que faria todo o elenco passo e futuro do RuPauls Drag Race ficar PAS-SA-DÉR-RI-MA de inveja.

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PAS-SA-DÉR-RI-MA. Ficaram de queixo caído em como eu sei separar silabas, vai dizer?

2) A HQ é uma coisa abusivamente diferente e tão incrivel que faria a barba do Chuck Norris crescer outra barba

Chuck Norris não tem um queixo sob a barba. Ele tem outro punho

Por muitos ciclos essa foi uma grande dúvida, que só foi respondida  quando eu joguei Walking Dead: The Game Season 1 E aí muita coisa fez sentido. Menos essa foto.

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Saibam pois que 2012 foi um ano de muitos lançamentos de peso como Halo 4, Borderlands 2, Mass Effect 3 e Journey, foi com muita surpresa que eu vi o jogo baseado na HQ dos presuntos perambulantes da minuscula Telltale Games abocanhar praticamente todos os prêmios possíveis e imaginaveis como melhor jogo do ano. ISSO fazia muito menos sentido do que a foto abaixo

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Ora, é fato bem conhecido que existem certas regras sagradas dos videogames que não podem ser quebradas. Tipo o videogame sempre rouba a favor do player 1, assoprar o cartucho resolve qualquer problema e adaptações sempre são um caça-niquel feito nas coxas para ganhar dinheiro. Então em que diabos de mundo uma adaptação poderia ser melhor que Mass Effect 3?

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RIP Tali’Zora Vas Normandy, viverá para sempre em nossos corações e nossasenhoradoDAT ASS

Dito isso, vamos lá fazer amizade então né?

Presuntos Andando, o jogo, é baseado na HQ e não na série de TV, e conta as aventuras de Lee Everet e sua turminha do barulho aprontando todas. Os contos inenarraveis de Lee e seus superamigos começa exatamente no primeiro dia do aposcaliupis zumbi e por um acaso incrivel do destino, nosso amigo Lee estava sendo levado para fora de Atlanta naquele exato momento. Para ser preso e enjaulado por algo muito mais sério que roubar uma bicicleta

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 Essa piada é tão racista que eu fico feliz que ninguem aqui é nerd o suficiente para entende-la e me processar XD

Se voce assistiu Walking Dead sabe o que acontece em seguida, né? O exercito falha miseravelmente em passar por cima de mortos com TANQUES E HELICOPTEROS (como, em nome de Jesus enforcado na cruz?!?) enquanto civis bocabertas montam uma patotinha feliz e contente e passam metade do dia discutindo a relação, tipo um BBB só que no lugar de eliminação no paredão tem os discursos moralistas insuportaveis  do Dalle e os chiliques da wannabe macho Andrea. Eu ficava com o paredão, apenas dizendo.

Algumas coisas são bastante simples em Walking Dead na TV: os personagens raramente passam fome (porque aparentemente NINGUEM MAIS NO MUNDO INTEIRO teve a idéia de saquear por suprimentos), matar um zumbi é tão fácil que até cuspe na cara ta derrubando presunto, e passear pelo mundo é um passeio no parque.  Quer dizer, a menos que voce se meta num lugar fechado com pelo menos 52 zumbis, nem esquente. Tanto é verdade que ninguem se dá ao trabalho na terceira temporada toda de ir até a tela e furar a cabeça dos zumbis com telha Brasilit (e isso acontece infinitas vezes na série de TV) por pura preguiça… porra eles vivem em um mundo sem TV, tirando o Glenn safadeenho, o que mais eles teriam de bom pra fazer da vida?

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Então, voce estava me dizendo como foi mordido dentro de um tanque armadurado até os dentes? Nossas garotas andam na loca de topzinho e nunca dá nada…

Bem, isso é isso. Por isso quando eu comecei a jogar Walking Dead levei alguns cagaços. Tipo que os personagens passam fome. Tipo que enfrentar 3 zumbis ao mesmo tempo é suicidio. Ir até a lojinha da esquina é mais perigoso que cantar piriguete de suplex na academia (chances grandes são que o peguete dela esteja nesse momento pegando 250 quilos de ferro com o calcanhar). Discutir com as pessoas é perigoso – porque, sabe, elas estão meio a ponto de quebrar mentalmente. Foi aí que eu me dei conta que o jogo é baseado na HQ e não na série de TV, o que é um mundo mais feio, sinistro e as pessoas são mais realistas e menos moralistas. Sério, ao invés de QUATRO EPISÓDIOS falando sobre “como estamos perdendo nossa humanidade mimimi”, no jogo isso é mostrado na pratica em uma cena. E isso tem consequencias. Alias esse é o aspecto mais legal do jogo: tudo que voce faz tem consequencias.

Não só quem voce deixa viver ou morrer, mas o que voce fala (ou não fala), que lado voce toma (ou não toma) quando as discussões explodem. Tudo que voce faz e diz acaba influenciando de alguma forma os capitulos futuros do jogo, tipo Mass Effect só que sem a facilidade de ter que escolher entre bem ou mal. Porque aqui não existe bem ou mal. Existe sobrevivencia, e existem mais ou menos filhos da puta. Ou seja, o jogo é sobre 50 tons de cinza.

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50 Tons de Cinza tutorial: beijo no suvaco é sexy

Um exemplo: tem um caipira lá com quem eu estava me estranhando faz tempo. Na primeira chance que ele teve (tipo os zumbis invadiram a loja e uma porta caiu em cima de mim) ele disse “ha-ha, te fode negão”. Se o meu relacionamento com ele fosse diferente, bem, as coisas sairiam diferente. Mas aí em pouco tempo eu já tinha mais ou menos um mapa mental do grupo: uma das vadias eu vou catar, a guria eu vou ter que proteger e ela deve ser chata como o inferno, essa daqui vai acabar surtando e aquele puto lá eu vou deixar pra morrer na primeira chance que tiver. Eu jogo videogame a anos, literalmente, eu consigo ver uma linha de plot se aproximando como um falcão que não come minhocos a tres semanas e meia. Meia hora depois eu estava colocando o meu na reta pra salvar o puto que eu ia deixar morrer, estava confiando meus segredos pra vadia a ponto de quebrar e ia enfiar uma ripa na cabeça da vadia-potencial peguete. Porque isso? Imagem Bem, tirando o fato que eu tenho transtorno bipolar, é porque o jogo é absurdamente bem escrito. Mesmo. Diante do fim do mundo acabamos vendo o pior das pessoas de uma forma que choca. Sério, eu frequentei lugares medonhos e desumanos como o 4chan por anos, mas esse jogo conseguiu me arrancar um “dafuq man, eu não acredito nisso”. E como o jogo é bem escrito, é um choque natural e verdadeiro e não uma palhaçada querendo pagar de arte e mostrar cenas “fortes” só pra agradar hipsters (oi Black Mirror, voce ainda tá por aqui? Circulando rapaz, circulando!).

Outro ponto muito relevante é que não são só as histórias que são bem escritas como os personagens. O filho da puta que parece um racista caipira a primeira vista é um pai de familia deveras dedicado. O maluco que quer te deixar pra morrer é só alguém preocupado em ter um presidiario condenado dormindo do lado da unica coisa que lhe restou no mundo. Em muitos momentos voce pensa “esse cara é um FDP, mas porra, eu teria feito o mesmo”

ImagemConheço esse sentimento, mano

Mas a grande diferença do jogo para a série de TV é que ao contrário da série de TV aqui O SISTEMA É BRUTO. Tipo tinha dois personagens discutindo e eu no maior espirito de “qualé gente, eu tenho quests pra fazer, vamo deixar disso e deixar isso pra depois” quando um dos filho da puta saca uma arma e dá um tiro na cara do outro personagem. E eu fiquei “mas…mas… isso não faz sentido, tinha um plot pra esse personagem, como você… o que você… ISSO É UM JOGO PELO AMOR DE DEUS!!! EU TINHA PLANOS PRA ESSE PERSONAGEM!!! COMO.. QUANDO… O QUE VOCE FEZ SEU ABOBADINHO DA PUNHETA?!?”. Talvez se eu tivesse intervindo com mais vontade isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse tomado um lado isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse as coisas diferentes… Imagem

E o jogo todo é assim, você vai ter que tomar um Activea pra conseguir cagar porque o seu cu esta na mão o tempo todo. Resolver os puzzles é relativamente simples, voce avança no jogo vai que vai mas escolher quais resolver primeiro, que lado tomar, que caminho seguir… são as respostas certas? Diabos, não existe resposta certa. E se eu for por ali e deixar a porta aberta e os zumbis entrarem? E se eu for pelo outro lado e me trancar sozinho com meia duzia de andadores-presuntos? É cu namãozisse o tempo todo. Até porque não existem respostas certas. Algumas mais ou menos piores DE ACORDO COM O QUE VOCE ENTENDE COMO PIOR e não uma linha moralista simples de bem ou mal, como é comum ver nos videogames. Sério Mass Effect, eu te amo, mas não vamos fingir que o seu sistema de escolhas morais (ou de qualquer jogo que me venha a mente) é mais raso que o peito de uma japonesa. E esse é o grande trunfo na manga do jogo. Cunamãozisse e não existem respostas certas.

Existem apenas relativismo moral, mas vá demais em cima do muro e o inferno come solto. Infinitos niveis de formidavel. Por isso o Rodrigo ficou tão apoquentado com a série de TV, que por duas temporadas e meia (de três) foi mais agua com açucar impossivel quando a HQ é tão mais densa e mind-blowing. Eu acho que são duas coisas completamente diferentes, mas depois de vislumbrar o mundo da HQ eu consigo entender o espirito da coisa. Afora isso, não há muito o que dizer sobre o gameplay. Voce controla Lee por esse mundão sem portera e é basicamente um point-and-click: tem um cursor na tela e voce clica nas coisas para pega-las, interagir ou abrir opções de dialogo. Bastante simples, mesmo. Uma vez ou outra o jogo te pede pra atirar e esmagar cabeças, mas a parte relevante do jogo são realmente as escolhas (cada botão dá um tipo de resposta), porque tem uma barra de tempo que corre mais ou menos devagar (conforme a urgencia da situação) e voce tem pouco tempo para tomar uma decisão. A vida da pequena Clementina (que apesar do nome de vó solteira é uma miúda muito gira) está nas suas mãos. Tenso.

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