[JOGO] UNCHARTED: Uma exclusividade que vale o PS3

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PRODUTORA: Naughty Dog
DISTRIBUIDORA: Sony (exclusivo PS3)
JOGADORES: 1
ANO: 2007
GENERO: Ação

Sabe, talvez a pior coisa de estar ficando cada dia mais velho e antissocial (sim, eu uso a reforma ortografica, vá lamber um mogway) é que cada dia que passa você tem menos e menos certezas. Afinal, sou eu que estou ficando mais inteligente ou o resto do mundo está ficando mais burro? Eu estou ficando rabugento ou os jovens estão cada vez mais retardados? Tostines é mais gostoso porque vende mais ou vende mais porque é mais gostoso?

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Perguntas, perguntas, perguntas…

Uma das poucas certezas que eu tenho é que eu estou cada vez mais crica com os jogos a tal ponto que hoje em dia eu nem considero as japonezices dos japoneses uma coisa necessáriamente ruim. Pois é, aí tu vê o nivel da coisa. Eu sei que grande parte da culpa disso é minha mesmo, eu estou me metendo numa coisa voltada  claramente para aborrescentes, como que eu não ia achar ruim? Eu deveria procurar alguém do meu tamanho para brincar e parar de reclamar, mas não é exatamente como se eu me encaixasse em algum grupo pra chamar de lar.

Quando o PS3 foi anunciado se esperava alguns jogos exclusivos para ele como Metal Gear Solid 4, God of War 3 e Final Fantasy 13 (que acabou saindo pro 360 depois). Verdade seja dita nenhum desses jogos me empolgou assim tipo “UAAAAAALLLLLL ALIMAUALIMAUE THE LION SLEEPS TONIIIIIIIIIIIGHT!” a comprar o PS3. Bem, eventualmente eu comprei um PS3 e a primeira exclusividade que eu senti que realmente havia valido escolher o console da japonica Sony não foi nenhuma continuação e sim o bacaninha INCARTOGRAFADO.

E aí que entra a Naughty Dog. Em primeiro lugar eu quero deixar bem claro que Naughty é uma palavra nojenta de escrever e eu vou chamar de Nauti Dogui. Foda-se. Em segundo lugar, eu nunca dei muita bola pra Nauti Dogui porque é um estudio cujo unico jogo que eu me lembrava era Crash Bandicoot – e que se você não lembra, era suposto de ser o novo mascote do Playstation quando este foi lançado em 1995. Sim, houve uma época em que era importante os videogames terem mascotes, mas isso é tão antigo que foi antes mesmo da época em que as pessoas usavam “nicks” na internet

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Os anos 00 foram bem loucos, mas imagina na Copa…

Sinceramente eu nunca achei os jogos deles lá grandes coisas e deixa quieto. Foi aí que entra uma caracteristica que o PS3 realmente owna o XBOX 360: a sua midia. O PS3 lê jogos em Raio-azul (capacidade de 60gb e um pião da casa propria) enquanto o 360 usa DVD9 (capacidade de 9 GB chorado chorado). O que significa que os jogos de PS3 não tem o que fazer com tanto espaço e isso implica em bastante material bonus – como em qualquer DVD INCARTOGRAFADO tem o tipico material bonus: making of, arte conceituais, etc. E assistindo ao making of (eu realmente acho bacana ver como se faz um jogo) uma frase me chamou atenção: o cara explicando de onde surgiu a idéia de fazer o  jogo lá nos idos anos de 2007.

Basicamente se eles fizessem um jogo cinzento de atirar em monstros eles cairiam na vala comum de todos os outros jogos e eles teriam a bunda comida com farofa fria. Seria só mais um a morder poeira. Então se era pra levar uma comida de bunda felomenal, porque não chutar o balde e tentar algo diferente? Algo… que deus me perdoe… colorido?

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Tanta… COOOOOOORRRRRRRR… MEUS OLHOS SANGRAM!!!1111

Depois de resolver problemas tecnicos (como não fazer o PS3 não fundir ao usar toda a sua paleta de cores, coisa que é muito pouco explorada hoje em dia), eles sentaram na mesa e decidiram o seguinte: cara, todo mundo esta fazendo jogos como se fossem filmes dos anos 80. Muita macheza, muita violencia e blablabla. Ok, e se a gente fizesse isso mas com OUTRO tipo de filme dos anos 80? Sabe, aqueles filmes bacanas de sessão da tarde, saca? Aqueles simplizinhos que ainda hoje são gostosos de assistir? Com efeito, INCARTOGRAFADO espalha na mesa tudo que foi referencia sobre o assunto “aventura nos anos 80″: Indiana Jones, as Minas do Rei Salomão, Aventureiros do Bairro Proibido, os Goonies e por aí vai. Foi uma maratona de 176 horas de Sessão da tarde até sair o conceito de INCARTOGRAFADO.Ok, talvez não seja assim que tenha acontecido mas a sensação que passa é de que foi justamente isso.
Uncharted é um jogo de aventura de “caça ao tesouro” que seria perfeito para um filme de Sessão da Tarde. Com personagens de sessão da tarde inclusive!

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Anos 80 em uma casca de noz
Mas onde eu estava mesmo? Ah sim…

Nate Drake é um … bom, não sei o que ele é, mas sei que ele acredita ser descendente do pirata explorador Francis Drake (Francis Drake realmente existiu e era um pirata que ataca navios espanhois que retornavam do novo mundo com ouro, mas nunca se ouviu falar de descendentes) e tem as coordenadas de onde o caixão dele estaria no fundo do mar do Caribe. Acontece que ele realmente encontra o caixão de seu antepassado, mas não havia esqueleto dentro dele e sim um diario que leva a caça ao tesouro! Qual tesouro? Ora, nada menos que o lendário “El Dorado”.
Quer coisa mais sessão da tarde que isso?

Para financiar sua expedição (não é exatamente barato alugar um barco para procurar  coordenadas no meio do atlantico e retirar coisas do fundo do mar, sabe?) ele vendeu a história a reporter Ellen Fisher, que tem um programa sobre os mistérios do mundo antigo.
Soma-se aos dois o velho (literalmente) companheiro de aventuras de Drake, o velhão estiloso e canastrão Victor  Sullyvan. O Sully é o tipico heroi de filme dos anos 60: canastrão, estiloso, cafageste mas confiavel. Certamente eu escolheria Sean Connery para interpreta-lo ou o Clark Gable, e por aí tu ve o nivel de qualidade do cidadão.Juntos os três passam altas aventuras com todos os grandes elementos dos filmes de aventura: lugares exóticos, traições, bandidos, mistérios antigos, reviravoltas, nazistas e MUITA CONFUSÃO!
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Ah Sully seu SAFADEEENHO!

E enquanto Sully é o estereotipo do heroi classico estiloso dos anos 60, seria fácil colocar Drake como mais um macho alfa fodão que come balas calibre 12 no café da manhã para dar gosto ao sucrilhos. Mas não, a grande chamada do personagem é que Drake é um cara comum metido numa situação extraordinária! (palavras do making of, que são a mais pura verdade).

Drake não diz uma frase de efeito estilosa depois de uma façanha incrivel, ele diz “PQPnãoacredito que isso funcionou!”. Veja, você não pode esperar conseguir um dos tesouros lendários mais famosos do mundo sem ter que trocar alguns tiros e socos com alguém, ok, isso faz parte da aventura e atirar em piratas mambembes é um risco aceitavel. Porem quando a coisa fica séria mesmo e os caras começam a atirar de volta em você com metralhadora MP4 e mira laser ele diz “ow ow ow, perae, acabou a brincadeira! Fuck that, to indo embora! Achar um tesouro é legal mas tomar tiro não, to indo nessa” como qualquer pessoa NORMAL faria.

Claro que um heroi tipico de videogame levaria um tiro de calibre 12 e diria “é um apena que vocês não tenham nada mais forte, ha-ha-ha”. Isso é o padrão.Agora o que eu, você e o Drake fariamos é tentar NÃO TOMAR UM TIRO EM PRIMEIRO LUGAR! TIROS DOEM. ARMAS NÃO MATAM PESSOAS, AS BALAS QUE ELAS DISPARAM É QUE MATAM AS PESSOAS.

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“Armas não matam pessoas. Pessoas com bigodes matam pessoas”.
CAMISETA ÉPICA É ÉPICA

E essa é uma mudança de ares muito bem vinda e que combina bastante com o clima de aventura e não exibição desnecessária de testosterona, como usualmente acontece nos jogos.

Se você está prestando atenção até aqui, deve ter percebido que eu citei que há uma mocinha no trio de heróis e você deve pensar “já sei, deixa eu adivinhar: o par romantico do heroi, é uma bocaberta gostosinha que não serve para nada em cena senão ter peitos como 95,97% das personagens femininas” e normalmente seria verdade, mas não aqui.

Talvez temendo uma comparação com Tomb Raider, talvez por puro bom senso (ouvi dizer que isso existe ainda) em primeiro lugar a Elena é uma mulher fisicamente comum. Sério, ela não é gostosona, não tem peitões (eu realmente não lembro a ultima vez que lembro de uma personagem feminina com peito pequeno em videogame, sério mesmo UPDATE: fiz um esforço mental e lembro da Rikku do FFX, de 2001… mas fora isso só criança pra não ter peitão e olhe lá), não usa um shortzinho ubber-sexy, nada. É uma garota comum que usa calça de caçar-marreco, uma camiseta, chinelinho e deu pros coco. Ela é bonita como seria uma pessoa bonita que você vê na rua, não uma atriz mega gostosona ubber-sexy. E ver uma personagem assim em um jogo nos dias de hoje foi outra grande surpresa.

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Oi, Elena, mocinha do jogo. Firmão, véi?

A segunda surpresa é que a Elena não está “cumprindo função” de ser par romantico de ninguem. Ela é uma garota inteligente, esperta e que sabe se virar, mas o mais importante: ela conquista o direito de ser respeitada pelo Drake e pelo Sullyvan como parte do time. E isso é algo realmente raro de se ver hoje em dia no entretenimento quanto na vida real: uma mulher conquistando algo por mérito próprio. Não porque ela é mulher mas sim porque ela fucking mereceu esse respeito por ser uma miúda muito gira e fixe (desculpem, joguei com legendas em portugues de portugal e peguei algumas expressões hehe). Sério, a Elena é cool e eu respeito ela – e isso é algo que você não vai me ver dizendo a respeito de muitas mulheres (ou mesmo pessoas), sejam reais ou virtuais. Nada de “ela é uma mulher, ajoelhem-se perante a esta forma de vida superior que merece tratamento diferenciado”, ela conquista o direito de fazer parte do time dos meninos e isso não é pouca merda.

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Em ingles existe uma expressão pra esse tipo de aparencia,este tipo de beleza mundana e não mega-boga-topz-modelz é a “girl next door”, ou seja, ela poderia ser sua vizinha. Claro que para isso voce teria que ser um personagem de videogame ou ela ser real, mas a idéia vc entendeu

Bem, colocando assim temos que Uncharted seria um filme muito gostoso de assistir com bons personagens e tudo mais que você precisa num sabado de tarde, alem de pipoca e um coçador de costas. Mas Uncharted não é um filme e sim um jogo, e mecanicamente como é o jogo? Afinal uma boa idéia não vale nada se estiver num jogo inexecutavel (sim Kane & Lynch, estou olhando pra você)

Em primeiro lugar porque é tropicalmente colorido (e não os monocromaticos taciturnos da saga da Larinha). Sério, é um jogo putamente BONITO com o melhor que o espirito de “lugares exóticos tropicais antigos” pode evocar. Mesmo já tendo 4 anos é um dos jogos mais vistosos do PS3
Em segundo lugar porque não é um jogo de exploração como os Tomb Raides antigos e sim um mezzo aventura com tiro. Ou seja, tem partes de aventura, tem partes de tiro. Porque é isso que Mezzo significa. E eu não sei porque estou explicando isso.

As partes de aventura são cinematograficas e fluidas, raramente você para para pensar, e mais raramente ainda fica preso, e mais raramente ainda usa tantos “paras” numa frase quanto parar para pensar no parapeito do para.
Ajudada pelos controles que são muito leves e simplificados – mesmo uma pessoa que nunca jogou videogame conseguiria se virar na parte de exploração, embora penaria muito pela falta de pratica na parte de tiro.
Na verdade se tem uma falha no jogo é que você percebe que o peso do Drake não faz sentido e o bonequinho no jogo é mais leve do que seria esperado de uma pessoa. Mas como isso torna o jogo mais fluido pra voce escalar, saltar e fazer requebradinha, ok.

DAFUQ DRAKE?!?!?!

As partes de tiro são menos… inspiradas, diga-se assim. Ou seja, se esconder atrás de coberturas, as pessoas atiram em voce, voce atira de volta, o feijão com arroz basico dos jogos modernos. Como pontos positivos os inimigos são macilentos (ou seja, é gostoso atirar neles assim como é em Left 4 Dead, por exemplo) e o headshot não é um bicho de sete cabeças – tanto que um dos primeiros troféus que eu ganhei foi o de 100 headshots.

Outra coisa estranha do tiroteio é que o jogo não diferencia onde pega o tiro no oponente, desde que pegue. Então basicamente se o caboclo morre com 4 balaços, tanto faz serem no peito ou no dedão do pé, ele morre após o quarto tiro do mesmo jeito. Quer algo mais escrito É SÓ UM VIDEOGAME do que isso?

Quanto as armas, sim, existem variedades de armas (que na pratica significa quantos tiros leva para matar um inimigo) e dois tipos de inimigos: os que ficam parados atirando de trás das coberturas e os que vem pra  cima de você. Essa é distinção é bastante clara porque a inteligencia artificial do jogo é bastante baixa, e você pode entrar numa cena, ficar parado atrás da porta, matar todos que vem pra  cima e ir no banheiro porque os que ficam parados cumprem a sua programação de ficar parados. Eu diria que a baixa IA é um dos pontos fracos do jogo e que você sente mais na carne que “ah, é só um jogo”.

Eu diria que o jogo é 60% tiro e 40% aventura, mas como as partes de tiro demoram mais (atirar, cobertura, repete) parece que é maior do que realmente é.

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Tiroteio de cobertura genérico e… wait, what?

Outro ponto que merece destaque é parte sonora, Começando pela a dublagem, justamente porque o jogo não foi dublado: os atores fizeram as falas enquanto encenavam as cenas na captura de movimentos. Ou seja, pegaram uns 3 ou 4 atores de verdade (atores de teatro ou televisão, ninguem realmente famoso), colocaram os trajes azuis de captura de movimento neles e improvisaram um palquinho para eles atuarem – e isso ficou muito legal, infinitamente melhor do que personagens criados 100% em computador. Ficou muito natural e é uma das partes legais do jogo

A outra coisa da parte sonora que ficou fixe é a musica. Como o jogo se passa 100% em ambientes tropicias os caras não fizeram o cliche de colocar uma orquestra tocando musica classica (porque segundo o manual do jogo fodão, esse é o padrão). Chamaram um musico e disseram: o espirito que a gente quer é esse, nos surpreenda.
Como resultado a trilha sonora é adequada ao cenário, com muitos instrumentos tribais (e justamente tensa por causa disso, voce espera que aborigenes te ataquem a qualqer momento em certas partes por causa da musica… embora eles estariam cansados demais depois da viagem desde a OCEANIA para te atacar).

Com personagens bacanas, dialogos naturais e legais, uma história simples (como todo bom filme de aventura da sessão da tarde) e parte de ação divertida, INCARTOGRAFADO é um jogo que pesa bastante em favor do PS3. Poderia ter um polimento melhor, mas não é nada que comprometa o jogo e dizem que foi feito nas sequencias.

E em breve teremos no cinema, não perda!

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Ah sim, e se tudo mais falhar… ao menos aprendi minhas palavras em indonésio  Nunca se sabe quando a frase “ABRE ESSA PORTA DEPRESSA” pode ser útil dada a fama da culinaria local… cepatan buka pintu!

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