[INICIATIVA NGF] A Realidade de Philip K. Dick

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Texto de Gabriel Rodrigues de Mello

Um dos nomes mais recorrentes da literatura de ficção científica é Philip K. Dick. Grande parte de sua fama se deu póstuma devido às inúmeras adaptações de suas obras ao cinema, como Vingador do Futuro (1990), Minority Report (2002) e Blade Runner (1982). Sendo que apenas esse último teve alguma participação do escritor no processo, já que foi o único filme baseado em sua obra antes de sua precoce morte em 1982, meses antes da estreia do longa-metragem de Ridley Scott.

Felizmente, sua reputação não se dá apenas pelos filmes. Diferente da maioria dos autores de ficção científica, Dick não focava na parte científica da ficção. Ele se dedicava mais à resposta humana aos eventos criados por ele, do que nos eventos em si. Por isso, talvez, o tema mais recorrente em seu trabalho era a realidade; em suas próprias palavras em seu artigo How to Build a Universe That Doesn’t Fall Apart Two Days Later (1978): “Os dois tópicos que me fascinam são “O que é realidade?” e “Do que constitui a autenticidade do ser humano?” De acordo com Dick, ele propunha essas perguntas não só ao leitor, mas a ele próprio.

A sua sinceridade era, com certeza, uma de suas maiores qualidades. Logo, a leitura de sua obra permitia um vislumbre único de sua mente singular. Esta singularidade não se dá somente a criatividade natural do autor, no entanto. Dick, que viveu na Califórnia durante os anos 60, época e local marcados pelas liberdades individuais, experimentou o lado “sombrio” desse espaço-tempo. O autor consumia frequentemente anfetaminas, mescalina, LSD entre outras substâncias. Consequentemente, sua dependência afetou fortemente sua escrita. Grande parte dessas experiências serviu de inspiração para futuros romances, principalmente VALIS (1981) e O Homem Duplo (1977).

Entre os eventos que moldaram sua obra, talvez o mais misterioso seja a série de alucinações que ele teve em 1974. Dick, alguns meses depois da publicação do seu romance Fluam, Minhas Lágrimas, disse o Policial, encontrou uma mulher em uma festa. Porém, o curioso é que essa mulher tinha o mesmo nome que uma personagem em seu livro; e ela tinha um namorado com o mesmo nome do namorado da personagem. Ele, naturalmente, ficou perturbado com a experiência. Além disso, algum tempo depois, ele emprestou dinheiro para gasolina e deu carona a um desconhecido que encontrou na rua. Só depois de chegar à sua casa que percebeu que reviveu um capítulo de seu último romance.

Anos depois, comentou com um padre essa última situação e ficou assustado em descobrir que o capítulo revivido por ele era, praticamente, uma parte do Novo Testamento, sendo que nunca havia lido a Bíblia. Isso tudo levou Dick a criar uma teoria de que o tempo é uma ilusão, e que todas as pessoas estão na verdade vivendo nos tempos bíblicos, de modo que conseguiu ver além dessa ilusão para escrever o livro.

Obviamente, essas experiências enriqueceram a escrita de Philip K. Dick de um modo único e inovador. O tipo de introspecções causadas pela sua obra é transcendente e atemporal, visto que a realidade ainda é, e possivelmente sempre será, um enigma.


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