[HQ] Desconstruindo Una – O que é ser uma Vadia?

Costumo receber inúmeras publicações da Editora Nemo, e não é raro que eu me divirta muito com suas HQs. Com razão: Os editores responsáveis por que obras serão publicadas têm um excelente gosto; conseguem escolher a nata dentre as histórias em quadrinhos cult.

Contudo, ao receber em casa a HQ “Desconstruindo Una” senti que estava diante de um desafio. Não seria divertido. Não foi divertido. Foi importante!

Uma história que começa a ser contada no fim dos anos 60 e tem seu auge em 1977, em West Yorkshire (EUA), “Desconstruindo UNA” é a interessante quadrinização de um assunto – entre outros – que foi fortemente discutido em todo o Brasil e talvez em todo o mundo: Até que ponto a mulher pode ser considerada vadia ou decente, e até que ponto essa classificação canônica faz dela merecedora ou não de uma punição letal?

No início do ano passado, uma garota foi estuprada por diversos rapazes em uma comunidade no Rio de Janeiro. Até hoje, a mídia televisiva não foi exata em suas informações. Não sabemos quantos foram os agressores, em que estado estava a vítima, se houve investigação que abarcasse os devidos suspeitos, etc.

O que houve, e que eu ouvi dentro de casa, em ambiente de trabalho, entre colegas de faculdade e etceteras mil foi uma questão que jamais deveria vir à tona: “O que a menina estava fazendo no meio de um monte de homens?”, “Ela pediu por isso, não pediu?” , “Todo mundo sabe que a garota não valia nada. Ela gostou!”.

Olhe, não foram poucos comentários assim.

O que posso dizer é que um homem que cause violência sexual já é o bastante para estragar uma vida, uma mente, um corpo. Como uma menina pode ter sido atacada por quase (ou mais do que) uma dezena de homens, e toda a sociedade ter colocado a culpa na garota? Não interessa o que ela estava fazendo ou onde. Ela não poderia ser estuprada. Jamais.

Da mesma forma, pouco tempo antes, uma menina de mais ou menos 9 anos de idade foi brutalmente estuprada por 16 garotos dentro de um ônibus escolar na Índia. A criança não resistiu à violência do ato e morreu.

Ainda assim, os curiosos comentários sobre a possibilidade de a menina ser culpada surgiram. Parece loucura que uma guria de 9 anos seja estuprada, morra por isso e ainda seja considerada culpada, não?

Mas é justamente desse senso de justiça torto, e dessa decência cheia de manchas escondidas ou muito bem pintadas e maquiadas que trata “Desconstruindo UNA
Mas nem só de conteúdo escrito viverá o quadrinho (amém).

Antes de entrarmos na parte mais importante de Una, cabe ressaltar que a estrutura da HQ não permitiria à obra ser categorizada como HQ. Não fossem as inovações que temos visto, tanto do ponto de vista de uma linguagem mais concreta, quanto da aceitação e boa compreensão de metalinguagens e do uso das palavras como elemento imagético. Em “Desconstruindo UNA” não há quadrinhos, na verdade. O que há é um conjunto de imagens completas, confusas, definidas, partidas ou completas até demais, que entram em consonância com os pensamentos de Una à medida que ela fala de suas memórias e das reflexões que montou acerca deles. Assim, as separações de períodos de tempo, pensamentos ou fatos são delimitados pelas próprias palavras, ou por nada além de nosso próprio entendimento da fluência da sequência narrativa.

A História de Una pode ser colocada (como a maior parte das narrativas autobiográficas ou que se pretendem autobiográficas) como uma Narrativa de duas facetas: ao mesmo passo que temos suas memórias em uma sequência temporal linear, temos as reflexões provenientes dessas memórias.

Muito embora em Una tenhamos reflexões que nos fazem perder o fio da meada (a autora consegue nos fazer mergulhar num vórtex de pensamentos incessantes com poucas palavras), tais reflexões são necessárias ao enredo e a tudo o que UNA quer nos dizer.

Una mostra as dificuldades de ser mulher entre as décadas de 60 e 70 (calcule como seria antes) através de pensamentos simples e profundos.

Há uma lei física que determina que, quanto menos a área maior é a pressão. É isso, por exemplo, que permite que objetos pontiagudos tenham maior eficácia em perfurar superfícies e atravessar materiais diversos. Por que citei esse princípio de física? Porque é justamente o que Una faz ao explicar, por exemplo, a GRANDE e GRITANTE diferença entre sua mãe quando era uma mãe Solteira – considerada por toda a sociedade uma mulher indecente, imprópria, errada – e sua mãe já casada novamente. A única diferença que Una ressalta é o Anel (aliança) no dedo. Mas, por trás de seus comentários, as leituras são absurdamente amplas.

Mas quem dera os problemas parassem por aí…
A História de UNA inicia-se para valer quando, dentro da vida tranquila (ou morna) que leva junto aos pais e à irmã, um belo dia, vítima de sua inocência e da malícia alheia, Una acaba por ser molestada. Ainda muito jovem, não consegue contar aos pais, que por sua vez estão repletos dos tão importantes problemas individuais.

Una começa, a partir desse abuso, e sem ter orientação do que é certo ou errado – posto que o que não era discutido por negligência era tabu, pura e simplesmente – a agir e pensar de forma diferente das outras meninas. Quando um segundo abuso sexual acontece, Una se sente desfragmentar: quer ser como as outras garotas, mas por ter dado os primeiros passos numa direção cega (sendo a vítima de algo não consensual), jamais consegue ser “normal”.
Com a vinda da puberdade, Una tenta arrumar namorados, mas sua noção de sexualidade é confusa. Una se envolve com rapazes já comprometidos ou com vários rapazes em pouco tempo.

Acho que não preciso dizer que seu comportamento “incomum” faz com que ela seja amplamente julgada. E o pior: Até mesmo sua mãe a julga.

Sim, sua mãe, que fora jugada pela sociedade, acaba se tornando um fruto (se não sempre fora) de um grupo social formado por falsos moralistas interessados em meninas liberais e dispostas a fazer sexo sem condições, mas com um armamento verbal e psicológico capaz de destruí-las depois que as tais “Vadias” estivessem já estigmatizadas.

A mãe de Una a força a começar a tomar a pílula anticoncepcional – outro assunto extremamente complicado naquela época; um tabu praticamente inquebrável – o que faz Una comentar que os homens, quando sabem que uma mulher toma pílula, passam a ter a visão errônea de que seus direitos sobre o corpo dessas mulheres são mais plenos.

Reputação foi uma palavra que ela aprendeu tarde demais.

Não… Não são.

E dentro de todo esse transtorno mental coletivo em se supor que Una é a garota desviada ou, nos termos da HQ, VADIA, uma história paralela costura o enredo e mexe com a vida da protagonista e de todos em West Yorkshire: Um assassino em série decide entrar em ação, fazendo sempre vítimas mulheres. A polícia é ineficaz em prendê-lo, deixando-o escapar muitas vezes por entre os dedos.
O assassino, por sua vez, dá uma de Zodíaco: provoca a polícia, deixa que ouçam sua voz, envia cartas, e até mesmo permite que os policiais montem um perfil dele. É como se ele realmente quisesse ser pego.

O mais triste é que o Assassino em Série, como todos aqueles que matam por um motivo desconhecido de todos, mas que a eles faz muito sento, matinha um padrão curioso. E por que não dizer? EXTREMAMENTE MACHISTA!

O assassino passou sua carreira de assassinatos executando prostitutas. As mulheres decentes eram devidamente poupadas. Ora, não estou dizendo que o certo seria ele matar a todas elas sem discriminação (se você pensou isso, procure um psiquiatra). Mas o normal é que assassinos em Série atuem por tipo físico, faixa etária, condição social ou determinadas características, como ter o hábito de matar pessoas que possuem olhos azuis, ou coisas bizarras desse tipo. No caso aqui, temos um assassino moralista – assassino sim, mas temente a Deus e contra toda essa p*taria!.

Quase como uma espécie de John Doe (do filme Se7en), o ceifador de vidas escolhe as vítimas de acordo com o critério do pecado, que aqui é um só: ser uma mulher que sabe as regras do próprio corpo.

A coisa é tão absurda que o assassino chega a se desculpar por quase haver matado uma mulher decente por imaginar que ela era uma Vadia.

AGORA FAZ TODO O SENTIDO!

Nesse cenário de caos, sendo estigmatizada e menos respeitada até mesmo do que um matador, Una vai montando e desmontando os cacos de sua mente em uma história que muito bem nos alerta sobre a atenção que devemos dar àqueles que estão próximos de nós – nunca é demais falar que QUALQUER pessoa mais frágil pode ser vítima de abuso e, mais importante: PRECISAMOS acabar a Cultura de Culpabilização da Vítima de abusos Sexuais.

Não é apenas uma cultura de Estupro… É um mal de muitas e muitas camadas.

E vale a pena compreendê-las lendo “Desconstruindo UNA


Editora Nemo

Brochura – 24 x 16,8 x 1,4 cm – 208 páginas

Tradução: 

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon | Saraiva| Submarino