[HOMENAGEM] Sobre como Stan Lee criou o Universo Marvel e salvou minha vida

Nessa altura, imagino que você já saiba da perda que o universo do entretenimento sofreu hoje. Após 95 anos de muitas histórias e aparições em filmes inspirados nos quadrinhos que ele escreveu, Stan Lee partiu desse mundo, deixando milhares de personagens co-criados por ele e outros artistas que entraram para a História das histórias em quadrinhos.

Mas esse não é um texto sobre a vida do Sr. Lee, pois pouco conheço dela. Sim, eu sei que devia saber mais sobre o Homem por trás do meu universo de super-heróis favorito, mas gosto da ideia de que suas obras dizem muito sobre a pessoa que ele foi, e sobre o que queria deixar para o mundo após sua partida.

E o que ele deixou, entre suas inúmeras co-criações, foram os X-Men que, até onde eu me lembro, foi meu primeiro contato consciente com heróis da Marvel. Sim, estou falando daquele desenho dos anos 90 que passava na TV Colosso. Por influência dele, meu irmão, o Thiago, começou a colecionar os quadrinhos da equipe. Alguns anos depois, quando ele parou de colecionar, eu “herdei” a coleção dele, e continuei do ponto onde parou. Daí pra frente a coleção cresceu, e fui conhecendo mais heróis da Marvel.

X-Men, de 1992. A animação era tosca, mas eu adorava.

Na mesma época eu assisti alguns episódios da série animada do Homem-Aranha, outra que é considerada clássica por muitos da minha geração, e também o fraquíssimo desenho animado do Homem de Ferro, produto de uma época em que poucos sonhavam na criação de um universo cinematográfico encabeçado por ele.

A Marvel me marcou de muitas formas, começando pelas sagas que saíram quando comecei a colecionar, como A Era do Apocalipse, sobre a qual eu havia lido uns 2 anos antes de ser publicada no Brasil numa edição da Heróis do Futuro. Depois mudou minha percepção dos super-heróis quando a Abril Jovem publicou Marvels, com roteiros de Kurt Busiek e a arte foto realista de Alex Ross, que nos deu o primeiro vislumbre de como seria se aqueles heróis existissem em nosso mundo, ou, pelo menos, como seria um filme bem feito inspirado nas criações de Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, entre outros.

Uma das muitas cenas icônicas de Marvels: o casamento de Reed Richards e Sue Storm

Apenas com o passar dos anos é que eu tive a chance de ler algumas das HQs clássicas da Marvel, como as primeiras histórias do Homem-Aranha com roteiro do Lee e arte do Ditko; as primeiras histórias dos Vingadores, dos X-Men e do Quarteto Fantástico, feitas pela imbatível e seminal dupla Lee e Kirby; as histórias do Surfista Prateado escritas por Lee com desenhos do John Buscema, e a graphic novel do Surfista com roteiro de Lee e arte do Moebius.

Uma das histórias clássicas do Homem-Aranha escritas por Stan Lee com arte de Steve Ditko

Em minha experiência como leitor de quadrinhos de super-heróis, lamento dizer que a grande maioria das histórias escritas por Lee nos primeiros anos da Marvel continuam inéditas pra mim, mas as poucas que li foram o suficiente pra sentir o quanto ele se divertia narrando as aventuras que, décadas depois, se tornariam a base para outros clássicos dos quadrinhos, dessa vez pelas mãos de nomes como Roy Thomas, Chris Claremont, John Byrne, Frank Miller, Walt Simonson, J. M. DeMatteis, Peter David, Mark Waid, Brian Michael Bendis, Mark Millar, Jason Aaron, entre muitos outros, que também eternizaram seu nome, expandindo o universo imaginado por Lee, Kirby e Ditko.

Não demorou muito pra esses seres coloridos com super-poderes chamarem a atenção com o potencial que possuíam. Logo vieram os desenhos animados, alguns filmes não muito felizes em suas adaptações para live action, até Blade (1998) e X-Men (2000) abrirem o caminho para que os heróis da Marvel chegassem aos cinemas com a qualidade que mereciam.

Oito anos depois de filmes que oscilaram entre excelentes e esquecíveis, ganhamos de presente o primeiro Homem de Ferro (2008), que plantou a semente do Universo Marvel Cinemático, e o resto é história, uma que completou 10 anos em 2018, e da qual todos que estão lendo este texto hoje fizemos parte.

Criador e criatura: Stan Lee se encontra com Tony Stark (Robert Downey Jr.)

Sem leitores para ler suas histórias, Stan Lee não teria continuado a escrevê-las. Sem audiência, os desenhos animados inspirados em personagens criados por Lee não teriam passado da primeira temporada (só o desenho animado dos X-Men, entre 1992 e 1997 teve 5 temporadas; Homem-Aranha, de 1994 a 1998 também fechou com o mesmo número de temporadas). E sem tais indicativos do sucesso que o Universo Marvel podia alcançar em outras mídias (como alguns bem sucedidos games de plataforma e de luta lançados nesse mesmo período), eles não ganhariam versões em live action, que culminaram no evento cinematográfico que foi Vingadores: Guerra Infinita.

Não deixa de ser irônico que a morte de Stan Lee tenha ocorrido no mesmo ano em que o Marvel Studios começou a fechar sua primeira grande saga nos cinemas. No mesmo ano em que assistimos Thanos matar metade da vida do Universo Marvel com um estalar de dedos, fazendo com que muitos saíssem dos cinemas abalados com as mortes de vários de seus heróis favoritos; recebemos a notícia de que o Homem responsável pela criação de muitos deles, e indiretamente de todos os outros, deixou nosso mundo.

Ainda o veremos nos filmes da Capitã Marvel e em Vingadores 4, mas, semelhante ao que muitos sentiram ao ver Carrie Fisher em Os Últimos Jedi, creio que muitos de nós esboçarão um sorriso um tanto melancólico quando aquele velhinho simpático e onipresente nos filmes do Marvel Studios surgir nas telonas em 2019.

Mas este também é um post sobre como Stan Lee salvou minha vida. Pelo menos é o que está escrito ali no título, certo? Na verdade a minha história não é muito diferente da vivida por muitos como eu. Conheci os X-Men, o Homem-Aranha, os Vingadores e o Quarteto Fantástico na minha adolescência, e foram suas histórias que deram algum sentido pra minha vida naquele período tão turbulento.

Meu desejo de saber como suas histórias continuavam, como tal saga afetaria as vidas daqueles heróis e vilões, de que forma eles resolveriam a crise da vez, derrotaria a ameaça do momento, foi o que me deu um objetivo, e manteve minha sanidade mental por muitos anos. Foram eles, e seu Universo, que ocuparam minha mente, enquanto ainda não estava pronto pra lidar diretamente com a minha depressão. E por muito anos, antes de ser diagnosticado, e de começar a tratá-la com medicamentos e terapias, os quadrinhos foram o melhor tratamento que eu encontrei. Por isto, até hoje, mantenho em minha coleção aqueles formatinhos em papel jornal lançados pela Abril entre os anos 80 e 90, pois foram através deles que eu comecei a explorar esse universo vasto, criado por Stan Lee e seus parceiros criativos.

Obrigado, Stan, por dividir conosco suas ideias, suas palavras e parte de seu Universo. Assim como a minha, você salvou muitas vidas, ajudou muitos a encontrarem um objetivo, e influenciou várias gerações de artistas dispostos a manter vivos os personagens que você criou, e a criar outros universos, heróis e vilões. É um belo legado o que você deixou. Meus parabéns. Vá em paz.


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