[HISTÓRIA EM SÉRIES] Vikings: Athelstan’s Journal

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“Duas cabeças. Dois corações. Duas fés.” – Vidente

Athelstan’s Journal é uma série de 13 episódios para a web baseado na trajetória do personagem Athelstan, o monge inglês que foi capturado pelos vikings e com eles passou o resto da vida. Ao final do episódio “Born Again”, foi exibida uma versão para a TV da websérie.

Com uma narrativa reflexiva, Athelstan conta sua história, desde a invasão viking em Lindisfarne até pouco antes de cair morto pelas mãos de Floki. Em suas anotações, o “sacerdote” como também era chamado, tece comentários sobre os principais personagens da série atribuindo a cada um qualidades e características próprias. Além disso, Athelstan’s Journal é um resumo de tudo o que já vimos em Vikings.

A ideia dessa websérie é sensacional. Desde a primeira temporada, Athelstan é para mim um dos melhores personagens da série. Ele é o tipo de personagem que representa o público quando inserido dentro de um contexto histórico cultural que nos é totalmente alheio. Dessa forma, vamos aprendendo junto com Athelstan a cultura e o modo de vida dos escandinavos.

O papel de Athelstan na série foi o de evitar o didatismo pedante ao meu ver. Seria muito chato ver os personagens explicando suas ações para o público leigo. Fico imaginando Ragnar dando uma de Frank Underwood de House of Cards, virando para a câmera e explicando sobre Odin, Valhalla e coisas do tipo. Para evitar isso, personagens como Athelstan são necessários. Se a princípio Bjorn cumpria esse papel, posteriormente é Athelstan que nos conduz no aprendizado da cultura nórdica abordada na série.

Mas não podemos esquecer também que o fato de Athelstan ser um cristão, faz com que seu aprendizado aconteça em comparativo com suas crenças. A dicotomia entre o cristianismo e o “paganismo” construído em torno dele é um dos melhores desenvolvimentos de Vikings. Por vezes manifestações culturais cristãs aconteciam paralelo a semelhantes nórdicas, como as cenas de casamento na segunda temporada. O estranhamento de Athelstan ao contato com o modo de vida dos vikings também é o nosso, é um personagem de bastante identificação que cumpriu seu papel graças ao trabalho do ator George Blagden.

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Dentro desse contexto, Athelstan e Ragnar desenvolvem uma amizadde sincera. Um relacionamento baseado no ensinamento já que, se Athelstan aprendia a ser “pagão”, Ragnar por sua vez se mostrava interessado pelo lado cristão do amigo. Os dois rezaram a oração do “Pai Nosso” e Ragnar proporcionou a Athelstan um enterro cristão. Ragnar raspa a cabeça em homenagem ao amigo monge e usa o seu cordão com crucifixo mostrando que Athelstan continuará com ele mesmo após sua morte.

Assistir aos episódios de Athelstan’s Journal é um retorno aos melhores momento da série: a chegada dos vikings a Lindisfarne, a aliança e a traição de Jarl Borg e rei Horik, a vinda de Auslag para Kattegat e a partida de Lagertha com Bjorn, o retorno a fé cristã em Wessex do rei Ecbert assim como os fatos já mostrados na atual temporada. Athelsthan’s Journal não é apenas um resumo de tudo que já se viu, mas também uma bela homenagem a um excelente personagem.

Você pode acessar a websérie Athelstan’s Journal no site oficial da série.

Referências:

A invasão de Lindisfarne

Athelstan entra na série Vikings quando Ragnar e seus homens partem para o oeste rumo a terras que poderiam fornecer grande riquezas. Os nórdicos chegam a Ilha de Lindisfarne, no nordeste da Inglaterra.

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Ruínas em Lindisfarne

A invasão viking em Lindisfarme ocorreu no século 8 e marco o início da Era Viking. Posteriormente, até metade do século 11, os vikings invadiram a Europa indo da costa britânica ao resto do continente.

A Crônica Anglo-Saxônica descreve o momento da invasão documentando os vikings pela primeira vez nos anais da história inglesa:

793: neste ano apareceram presságios terríveis na Nortumbria, que assustaram muito as pessoas. Consistiam em imensos torvelinhos e relâmpagos, e viam-se dragões chamejantes voando pelo ar. Aqueles sinais foram imediatamente seguidos por uma época de grande fome, e pouco depois, em 8 de junho do mesmo ano, os homens pagãos destruíram a igreja de Deus em Lindisfarne, saqueando e matando.”

Apesar desse relato ser o primeiro a mostrar a presença viking na Inglaterra, muito provavelmente contatos entre ingleses e escandinavos já tivessem ocorrido.  Quando os vikings invadiram Lindisfarme, a igreja dedicada a St. Cuthbert foi destruída. Confira um relato da época feito pelo clérigo Alcuino, oficial da corte de Carlos Magno, para o rei da Nortúmbria:

Nunca antes tinha havido tanto terror na Grã-Bretanha como o que padecemos agora de uma raça pagã, nem se pensava que se pudesse fazer semelhante incursão vinda do mar. Olhai a Igreja de St. Cuthbert salpicada do sangue dos sacerdotes de Deus, despojada de todos os seus ornamentos. O lugar mais venerável da Grã-Bretanha foi presa dos povos pagãos.”

Na série, Ragnar captura Athelstan poupando sua vida tornando o sacerdote seu escravo. De fato, os vikings além de saquear, tornavam seus prisioneiros escravos.

Athelstan, o rei.

Na série, Athelstan é o nome dado ao monge de Lindisfarme, mas o nome também pertenceu a uma figura de muita importância para a história inglesa. Confira nesse texto do site da BBC quem foi o rei Athelstan:

Athelstan foi o primeiro rei de toda a Inglaterra e neto de Alfredo, o Grande. Ele reinou entre 925 e 939 d.C. Um soldado distinto e corajoso, ele extrapolou os limites do seu reino na maior medida do que eles tinham atingido.

Em 927 d.C, tomou York a partir do Danes, e forçou a apresentação de Constantino, Rei da Escócia e dos reis do norte. Todos os cinco reis galeses concordaram em pagar um enorme tributo anual. Ele também eliminou a oposição em Cornwall. Em 937 dC, na Batalha de Brunanburh, Athelstan liderou uma força criada na Grã-Bretanha e derrotou uma invasão feita pelo rei da Escócia, em aliança com os galeses e os dinamarqueses, a partir de Dublin.

Sob Athelstan, foram criados códigos de leis de reforço do controle real sobre o seu grande reino; a moeda foi regulamentada para controlar o peso de prata e punir os fraudadores; compra e venda foi largamente confinado aos burhs, incentivando a vida da cidade; e áreas de assentamento na região de Midlands e cidades dinamarquesas foram consolidadas em condados. No plano exterior, Athelstan construiu alianças para casar quatro de suas meias-irmãs com vários governantes na Europa Ocidental.

Ele também era um grande colecionador de obras de arte e de relíquias religiosas, que deu a muitos de seus seguidores e igrejas a fim de obter o seu apoio. Ele morreu em 939 d.C, no auge de seu poder, e foi sepultado na Abadia de Malmesbury. Este foi um local de sepultamento adequado para ele, como tinha sido um ardente defensor da abadia.

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Tumba do rei Athelstan

FONTES: Os vikings saqueiam o mosteiro de Lindisfarme; A fúria Viking.