[HISTÓRIA EM SÉRIES] Vikings | As relíquias sagradas de Jesus Cristo

“Este é um dos espinhos que cortou a cabeça do Salvador.” – Papa Leão X

No episódio “Dead All ‘Round” (4×09), o pequeno Alfred completa sua peregrinação e chega a Roma, onde encontra o papa. No encontro cheio de cerimônia, o Santo Padre Leão X agracia os presentes com o vislumbre de um dos espinhos da coroa que Jesus Cristo usou em seu calvário. A relíquia foi venerada por todos representando na cena um dos traços da religiosidade cristã medieval.

Mas como o papa possuía um dos espinhos da coroa de Jesus?

A resposta é: provavelmente ele não tinha. Pelo menos não a verdadeira. Para entendermos melhor o culto das relíquias é importante sabermos um pouco da religiosidade medieval.

Durante a Alta Idade Média, os cristãos começaram a cultuar homens e mulheres que haviam realizado grandes sacrifícios em vida em nome da fé. Elevados a condições de santos e mártires, tais personagens especiais passaram a ser vistas como um guia de moral e conduta. Com o surgimento ao culto dos santos e dos mártires, surgiu também o culto de objetos usados por tais pessoas em vida. Os objetos representavam a materialização do culto abstrato dos valores relacionados aos que realizaram sacrifícios em nome da fé cristã.

Se o culto as relíquias de santos e mártires foi ganhando espaço entre as práticas religiosas do mundo medieval, logo não demorou para que os objetos relacionados a Jesus Cristo surgissem para serem venerados.

É importante se destacar o aspecto financeiro das relíquias de Cristo. Durante a construção das principais catedrais da Europa, era muito comum que tais edificações fossem financiadas pelos donativos feitos pelos fiéis que peregrinavam para ver e venerar as relíquias. Quanto mais significativa fosse a relíquia, mais generosas poderiam ser as doações. Imagine então quando se tratavam das relíquias do Cristo.

Mas tais relíquias eram verdadeiras?

Muito provavelmente não. Naquela época, os objetos relacionados a Jesus se multiplicava exponencialmente. Tudo da vida de Jesus era contestado por diferentes regiões. A Igreja de Santa Maria Maior, em Roma, proclamava que possuía o berço sagrado, enquanto que o feno usado para forrar o berço era propriedade dos fiéis da região da Lorena, na França. As ânforas utilizadas nas bodas de Cana se multiplicaram pela Europa. Enquanto que a Bíblia numera apenas seis, treze exemplares eram apresentados como autênticos em diversas regiões.

O culto as relíquias sofreu duramente com as críticas feitas pelos reformadores que ironizavam a quantidade dos objetos. João Calvino, por exemplo, contou 14 pregos na Cruz de Cristo, e o erudito Fernand de Mély calculou a existência de mais de 700 espinhos da coroa de cristo espalhados pelo mundo.

Uma das relíquias mais famosas trata-se do Sudário de Turim. O tecido que teria coberto o corpo de Cristo revela a figura de um homem marcado com as mesmas características do calvário. Quando chegou em Turim, em 1453, o tecido teria sido obtido pelo cavalheiro Geoffroi de Charny que o comprou durante uma peregrinação.

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O Sudário de Turim.

O tecido passou por diversos testes durante os anos e medições feitas com carbono 14 revelaram que o tecido não é mais velho que 1260. Portanto, poderia ser fruto de uma fabricação muito posterior a morte de Jesus.

Além do Santo Sudário, dos pregos da Cruz, dos espinhos da coroa, multiplicava-se pela Europa pedaços da cruz, por exemplo. João Calvino, mais uma vez ironizou tais relíquias ao dizer que se fossem reunidos todos os pedaços da cruz que se diziam existir daria para carregar um navio. Até os chinelos de Cristo ganharam veneração. Pepino, o Breve teria sido presenteado com as sandálias de Jesus como agradecimento ao ceder territórios para a criação dos Estados Papais, em 754. Porém, o calçado na verdade foi confeccionado dois séculos antes e usado pelos papas.O que teria sido tocado por Jesus são apenas algumas tiras de couro. Hoje, as sandálias estão na Abadia de Prüm, na Alemanha.

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Fragmentos das sandálias de Cristo.

Voltando para os espinhos da coroa de Cristo, a catedral de Notre Dame alega ter os fragmentos da relíquia. Conservada dentro de um tudo de cristal e ouro, os fragmentos da coroa de espinho chegaram a Paris em 1239, um ano depois do rei Louis IX tê-la comprada do imperador de Bisâncio. A relíquia encontra-se em exposição para os fiéis.

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Coroa de Espinhos exposta na catedral de Notre Dame.

Em vários textos que já fiz aqui sobre a série Vikings, sempre busquei deixar claro que o show não possui compromisso com os fatos históricos nos quais se baseia. O que não impede que a série, por vezes, procure representar com precisão fatos e práticas culturais que acabam passando desapercebidas pelo grande público. Os vikings invadindo Paris em cenas espetaculares de ação aguça nossa curiosidade em saber se tais fatos retratados aconteceram, mas não só o espetacular remete a algo real, mas o comportamento e o modo de vida dos personagens revela muita sobre a época em que viveram.

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Por isso, a cena em que o papa apresenta um espinho da coroa que Cristo usou nos mostra a relação de boa parte da população medieval com a fé cristã disseminada pelo catolicismo. A cena em si não é gratuita, pois remete a construção da personalidade de quem Alfred foi um dia: Alfredo da Inglaterra, o Grande rei de Wessex que defendeu seu reino contra os nórdicos e depois tornou-se santo para alguns católicos e considerado herói cristão pelo anglicanismo.

FONTE: O milagre da multiplicação de relíquias – História Viva, A Relíquia de Notre Dame: fragmento da Coroa de Espinhos – Conexão Paris, “Relíquias para todo lado”. In: Dossiê Super Interessante: Lendas Medievais. São Paulo: Abril, 2014. p 34-35.