[HISTÓRIA EM SÉRIES] Review | Vikings: Islamismo, Ragnar e o Grande Exército

“Nossos recursos da ira” – Ivar

Antes de tudo, um pedido de desculpas para nossos leitores que frequentemente visitam o site em busca dos reviews históricos de “Vikings”. Além de fã de séries de tv (“Vikings” S2), também sou professor de História, e as últimas semanas foram de muita correria com o início do ano letivo. Mas vamos ao que interessa, vamos falar de “Vikings“.

A segunda parte da quarta temporada está realmente empolgante, superando minhas expectativas. Mesmo sem a presença física de Ragnar, a série não perdeu em qualidade e ritmo, mostrando o potencial dos personagens e do enredo desenvolvido até então.

Agora destaco algumas referências históricas dos episódios 4×16, 4×17 e 4×18.

4×16: “Crossings”

Islamismo

Neste episódio, Bjorn chega com sua frota a Algeciras, na Espanha. Como já escrevi aqui em outras oportunidades, relatos afirmam que Bjorn liderou uma esquadra que levou medo e destruição a cidades mediterrâneas no século 9. Algeciras foi atacada logo que os vikings cruzaram o estreito de Gilbratar.

Algeciras é hoje um município e uma cidade portuária do sul da Espanha. Apesar de parecer que os nórdicos haviam chegado a alguma cidade do Oriente Médio, é importante dizer que a Espanha foi invadida por tropas islâmicas vindas do norte da África a partir de 711. A conquista da Península Ibérica ocorreu quando os muçulmanos derrotaram o rei visigodo Rodrigo, determinando assim o fim do Reino Visigótico de Toledo. A princípio, os mouros (povos oriundos do norte da África seguidores do islamismo) se estabeleceram na região, sob o domínio do Califado de Toledo e posteriormente pelo Califado de Córdoba.

Algo que me chamou atenção também nesse episódio foi a reação de Floki ao entrar na mesquita islâmica. O personagem se dá conta do novo mundo que surge e que parece ameaçar o seu próprio, porém, no primeiro momento, Floki foi tomado pela curiosidade.

O islamismo surgiu na Península Arábica em 613, quando o comerciante árabe Maomé começou a pregar a nova religião. A religião islâmica trazia para a região a novidade do monoteísmo, pois antes dominava o politeísmo.

A doutrina religiosa foi chamada de “Islã”, que significa “submissão a Deus”. Seus seguidores são chamados de muçulmanos e os ensinamentos de Maomé estão reunidos no Corão, o livro sagrado da religião.

O expansionismo islâmico começou ainda no século 7, e no seu auge dominava as regiões do Oriente Médio, do Norte da África e a Península Ibérica.

Ainda hoje a arquitetura islâmica é uma marca da Península Ibérica como na imagem abaixo que mostra a Grande Mesquita, em Córdoba.

Interior da Grande Mesquita de Córdoba, na Espanha.

O canto de Ragnar

Confesso que adorei a forma como a morte de Ragnar foi adaptada na série. Michael Hirst está sendo muito feliz com o que tem feito até aqui, reescrevendo à sua maneira a saga do lendário nórdico.

Este episódio mostrou a mensagem de vingança chegando aos filhos de Ragnar. A voz do nórdico viaja com o vento e clama por vingança. Odin também faz seu papel e convoca os filhos para vingar o pai.

De acordo com as lendas, Ragnar lutava contra as serpentes e, mesmo abatido, entoou um cântico para que os ventos o levassem aos filhos. Essa canção é conhecida como Krákumál, criada provavelmente no século 12, e Ragnar pedia por vingança. Assim que os filhos de Ragnar ouviram, partiram para a vingança.

4×17: “The Great Army”

Tornando Kattegat uma fortaleza

Nesse episódio vemos Lagertha e os moradores de Kattegat dedicados à construção das proteções da cidade. Fortificações também foram uma marca dos vikings.

Antes do século 10, as cidades vikings não possuíam defesas, apesar de algumas possuírem um forte a longa distancia, como Hedeby, por exemplo. O fato das cidades serem povoações abertas pode indicar que os vikings tinham uma vida pacífica nos séculos 8 e 9, porém, isso mudou a partir do século 10, onde se pode perceber uma grande número de construção de muralhas.

Hedeby foi uma das cidades vikings que ganhou uma grande muralha que a ligou com as defesas de Danevirke, e que até hoje continua visível. A sua forma semicircular é muito característica das defesas vikings.

Egil, o Bastardo

Quem é esse novo personagem que surge para colocar mais lenha na fogueira de “Vikings“? Assim como boa parte dos personagens da série, Egil também é baseado numa personagem real.

O Egil da série é inspirado em Egil Skallagrimsson, um dos mais famosos guerreiros bersekers da tradição viking. O que se sabe sobre ele advêm de uma epopeia islandesa do século 13, “Saga de Egil”.

Outro traço marcante de Egil Skallagrimsson era o fato do guerreiro não ter sido nada atraente, pois ele possuía uma deformidade do crânio, uma condição que os pesquisadores de hoje descrevem como sendo a doença de Paget. Na série, uma maquiagem no rosto do ator foi usada para referenciar a condição visual do personagem.

Desenho de Egil num manuscrito do século 17.

Gregório, o Grande.

Quando Ecbert lê para Alfred páginas da obra de Gregório, o Grande, o rei faz referência ao Papa Gregório I, também chamado de Gregório Magno ou Gregório, o Grande.

O papa Gregório I foi responsável por enviar os primeiros missionários com o objetivo de converter os anglo-saxões. Um grupo de quarenta beneditinos dirigiu-se às Ilhas Britânicas.

Gregório também foi responsável por uma extensa produção literária, que contava com sermões e comentários sobre a Bíblia. Uma de suas principais obras foi a compilação dos sete pecados capitais, adaptando para o ocidente.

Ah, e o Grande Exército que o título do episódio faz referência? Falaremos dele a seguir.

4×18: “Revenge”

Princesa Ellisif

Mantendo a tradição de personagens ficcionais baseados em personagens reais, a Princesa Ellisif trata-se de mais uma delas. A personagem é baseada em Elisiv de Kiev, que foi uma princesa norueguesa e rainha consorte do rei Harald III da Noruega.

O Grande Exército

Finalmente vemos o Grande Exército e os filhos de Ragnar chegando à Inglaterra. E o que a série vem fazendo ao longos dos episódios desta temporada é bastante próximo à tradição viking.

Retornando mais uma vez para a Nortúmbria, Ragnar Lothbrok não contou com a sorte ao seu lado. Depois de ter naufragado próximo à praia e ser capturado pelo rei Aelle, o lendário viking foi jogado num poço cheio de serpentes, onde acabou morrendo. Porém, antes declamou um poema que foi levado pelos ventos. Tal poema profetizava que seus filhos o vingariam. Tudo isso teria acontecido em 865.

No ano seguinte, os filhos de Ragnar (Sigurd Olho de Cobra, Ivar Sem Ossos e Bjorn Flanco de Ferro), desembarcam na Nortúmbria. Chegaram a cidade de York na manhã de 1° de novembro, Dia de Todos os Santos. O rei Aelle foi capturado e Ivar vingou o pai através da Águia Sangrenta, ritual onde a caixa torácica é aberta para a retirada dos pulmões e colocados sobre os ombros da vítima, ainda viva.

Mas é importante dizer que, do relato acima, os historiadores apenas sabem que a Nortúmbria era um dos alvos favoritos dos vikings, enquanto o rei Aelle governou em algum período do século 9. O resto é lenda.

O Grande Exército viking foi formado por diversos grupos, que no inverno de 865 seguiram para a Ânglia Oriental, leste da Inglaterra. Estima-se que o Grande Exército possuía cerca de 3 mil pessoas, não apenas guerreiros, mas suas famílias e escravos.

O objetivo dos nórdicos, a princípio, foi o reino da Nortúmbria, mas a longo prazo desejavam o domínio da Inglaterra. Entre os líderes do Grande Exército estavam Ivar, o Sem Ossos, e seus irmãos Ubba e Halfdan.

Atacar primeiramente a Nortúmbria era uma ação estratégica naquele momento, pois Aelle e Osbert viviam uma guerra civil pelo controle do reino. Em uma região mais propícia para o início da conquista, e fragilizada por conflitos internos, a Nortúmbria era um alvo fácil.

Apesar de realidade e mito se confundirem muito aqui, sabe-se que em 867, os reis do norte haviam sido derrotados pelo Grande Exército, que passou os anos seguintes percorrendo a Inglaterra expandindo seus domínios.

Falaremos mais sobre o Grande Exército nos próximos reviews, à medida que acompanhamos os episódios finais da quarta temporada de “Vikings“.

FONTES:

Islamismo – Religião Islã – Brasil Escola: http://brasilescola.uol.com.br/religiao/islamismo.htm

“A Grande Expansão”, revista “Vikings: A História Real”, Dossiê Super Interessante. São Paulo: Abril, 2015.

‘Egil The Bastard’ In ‘Vikings’ Season 4: The Real Story: http://www.inquisitr.com/3896376/vikings-season-4-egil-bastard-ivar-boneless-true-story-history-channel-charlie-kelly/

Papa Gregório I – Bibliografia – InfoEscola: http://www.infoescola.com/biografias/papa-gregorio-i/

Elisiv of Kiev – Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Elisiv_of_Kiev

One thought on “[HISTÓRIA EM SÉRIES] Review | Vikings: Islamismo, Ragnar e o Grande Exército

  1. Cara, eu adoro suas reviews, tem um tom de admiração, paixão e conhecimento que te faz querer ler as próximas, um ótimo trabalho. Continue fazendo as reviws, por favor!!!

    Mais uma coisa, algumas vezes tenho dificuldades de achar as reviews na lupa do site (não sei o porquê), por isso perco algumas. Acho que seria interessante agrupar esses tipos de reviews por série ou outro tipo de grupo e colocar em seções do site pra facilitar o acesso do leitor.

    Abraços!

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