[HISTÓRIA EM SÉRIES] Review | Vikings 4×07: “The Profit and the Loss” e 4×08: “Portage”

“Odeio meu tio. Quero matá-lo” – Bjorn.

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Estamos de volta para falarmos de Vikings, dessa vez, sobre os dois últimos episódios: “The Profit and The Loss” e “Portage”.

Desde a temporada passada que rendeu ótimos momentos com a invasão de Paris, acredito que boa parte do público da série ansiava pelo retorno de Ragnar a Paris. Imaginando como seria essa nova invasão já que Rollo assumiu o papel de antagonista em relação ao irmão. O que vimos em “The Profit and The Loss” foi a resposta, mais uma vez na medida certa, nas expectativas da audiência.

Quase metade do episódio foi sobre a tentativa dos vikings em chegar a Paris pelo rio. Dessa vez, Ragnar conduzia seu povo, mas tendo sobre seus ombros as expectativas de Halfdan e Harald. Porém, dessa vez, os francos estavam bem preparados. Rollo mostrou sua lealdade ao rei Charles ao impedir que Ragnar chegasse a Paris. Não só impediu como humilhou fortemente o orgulho dos vikings. Se a alegria soava com os sinos da catedral de Paris, o desespero e a frustração dominava os vikings. Ragnar cada vez mais sem controle e dependente do “remédio” de Yidu não estava muito claro de suas ideias. A derrota, porém, lhe deu um susto de realidade difícil de assimilar. O “mito” de Ragnar foi abalado.

Agora vamos falar sobre mais essa tentativa de invadir Paris. Como já disse em alguns textos, a série, baseada em fatos históricos, não tem compromisso com a fidelidade histórica. Não vou entrar no mérito de discutir agora se isso é certo ou não, mas esse distanciamento das interpretações históricas garante a liberdade artística ao criador da série e aos roteiristas. Do contrário, Vikings seria uma série completamente diferente. As invasões a Paris retratadas na série são uma costura de fatos que ocorreram entre 845 e 886 que aliás você pode ler tudo isso num texto feito aqui para o site.

Misturando personagens reais com lendários, a série constrói uma trama cheia de tensão, drama e suspense que agrada seu público. As cenas de ação que compõem a tentativa de invasão que vimos nessa temporada ficaram espetacularmente boas, mesmo que elas não representem um fato histórico propriamente dito. Isso pode fazer um estudioso da história nórdica tremer de raiva, mas o público alvo adora. Porém, que fique bem claro, não se deve subestimar a inteligência do telespectador. A liberdade poética preenche as lacunas da história que nem os historiadores conseguem preencher, mas deve se evitar qualquer forçação que leve a anacronismos.

No episódio, Rollo conta com a ajuda de Conde Odo para defender Paris. Historicamente, o Conde Odo foi importantíssimo para defender o reino franco dos ataques nórdicos. Porem seu destino na série, difere bastante do seu destino real.

No episódio “Portage”, o Conde Odo chega ao fim de sua trajetória. Depois da série incutir no personagem um desejo pelo poder e um toque  desnecessário de “50 Tons de Cinza”, o rei Charles manda executar Odo por traição. Com a morte do conde, Rollo se torna o protetor do reino. Já havíamos falado sobre Odo em textos anteriores, mas é importante destacar aqui a trajetória dessa personalidade histórica.

Odo foi filho de Roberto, O Forte e Adelaide de Tours e se destacou na resistência aos ataques dos nórdicos durante o cerco de Paris em 885. Porém, o rei Charles, o Gordo, acabou firmando um acordo com os vikings pagando 700 libras de prata e permitindo-os que assolassem a Bolonha. Esse fato abalou a reputação do rei Charles que ao morrer em 888 quem assume o trono do reino ocidental é Odo. O então rei Odo continuou sua resistência aos nórdicos, porém não conseguiu resistir a trama orquestrada por nobres poderosos que reivindicavam a coroa francesa para Carlos, filho do rei Luís II e de Adelaide de Paris.

Uma das principais características da chegada de Odo ao trono foi marcar o fim da dinastia carolíngia e o início da dinastia dos Capetos, parentes de Odo. As pessoas dessa região deixaram de ser chamadas de francos e tornaram-se conhecidos como franceses.

Vale lembrar que esses dois últimos episódios não estavam centrados apenas no que acontecia em Paris. Em Wessex, o rei Ecbert coloca em prática seu plano de dominar a Mércia agindo contrariamente aos interesses da rainha Kwenthrith.

Historicamente, a relação entre Ecbert e o reino da Mércia é tão complicada quanto na série. Em 780, Ecbert foi exilado pelo rei Offa da Mércia e Beorhtric de Wessex. O reino da Mércia mantinha supremacia sobre Wessex. Com o morte de Beorhtric, Ecbert retornou o reino. Pouco se sabe sobre os primeiros anos do reinado de Ecbert, porém acredita-se que ele foi capaz manter a independência de Wessex em relação a Mércia.

Em 825, Ecbert derrota Beornwulf da Mércia assumindo o controle das regiões no sudeste da Inglaterra. Em 829, derrota Wiglaf da Mércia e o expulsa do reino. Ecbert passa a então controlar diretamente o reino da Mércia.

No episódio, vemos Ecbert fazer um acordo com Wigstan, o então rei da Mércia, que estava disposto a deixar a coroa nas mãos de alguém que pudesse garantir a grandeza do reino. De fato, Wigstan era membro de uma família real. Ele foi filho de Wigmund da Mércia que reinou em 840 sucedendo o pai, Wiglaf. Porém o que vemos representado no episódio não passa de apenas ficção.

Depois de tudo isso pode parecer que eu odeio a série por suas incongruências históricas. Não, não pense isso de mim. Sou fã da série e sei manter olhares diferenciados de um telespectador curtindo o show e de um historiador procurando referências e erros históricos. No final das contas, tudo acaba me divertindo, pois é sempre um prazer pesquisar sobre os fatos que deram origem ao eventos da série. Não esqueça de deixar nos comentários qualquer dúvida sobre os episódios e nos encontramos no próximo texto sobre Vikings.

FONTES: The Siege of Paris of 885-886, Wigstan – Wikipedia.

5 thoughts on “[HISTÓRIA EM SÉRIES] Review | Vikings 4×07: “The Profit and the Loss” e 4×08: “Portage”

    • Obrigado pela mensagem, Lucia. O objeto dessa coluna é esse mesmo, trazer informações sobre os fatos reais para os fãs curiosos da série.

    • Olá, Ribeiro. Os piratas de Black Sails não foram esquecidos e breve postarei alguns textos sobre a terceira temporada que foi demais! Confesso que tenho tido pouco tempo para escrever desde que comecei a trabalhar, mas pretendo escrever sobre Black Sails e outras séries por aqui. Continue nos acompanhando.

  1. Estou me formando em história e com ênfase na Idade Média e devo dizer que me sinto exatamente como você no que diz respeito a coerência histórica da série. Algumas coisas dão aquela sensação incômoda, mas é preciso saber separar as coisas e entender que o discurso fílmico não se propõe a retratar fielmente a realidade, que se destina a outros fins. E mesmo com essa ”colcha de retalhos” de épocas e personagens diversos, englobando situações ou mesmo práticas que remetem a outros momentos que não o das invasões nórdicas, a série é excelente. As vezes da uma pontadinha no coração, um anacronismo pesado aqui, outro ali, mas a gente aceita rs. Quero te parabenizar pelo texto e pela forma como buscou refletir sobre essa liberdade da série em costurar o enredo utilizando um fundo histórico. Aliás, desde a temporada passada que acompanho neste site os comentários de cada episódio que assisto e sempre é muito interessante, tanto pelas curiosidades quanto pelas opiniões técnicas sobre a trama.

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