[HISTÓRIA EM SÉRIES] Review | The Bastard Executioner

“Fui ordenado assim, mas não pude” – Leon Tell

The Bastard Executioner, série criada por Kurt Sutter, já nos mostrava desde o início que seu foco não estava em apresentar apenas cenas de batalhas e conflitos típicos dos interesses conflitosos ambientados na Idade Média européia ocidental comum aos filmes e outras séries de TV. O personagem principal, Wilkin Brattle travaria batalhas mais complexas, aquelas onde o seu opositor seria ele mesmo, melhor dizendo, sua consciência.

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Eu já havia destacado no primeiro texto sobre a série que The Bastard Executioner é uma produção diferente de outras ficções históricas que estamos vendo atualmente na telinha. A série possuía um conjunto de personagens fictícios vivendo numa região fictícia, apesar de estarem situados num contexto histórico real. Analisando esses elementos percebemos que há uma liberdade maior aos produtores e roteiristas de darem destinos aos seus personagens sem ter que estarem “amarrados” a um passado real. Mesmo que muitas séries tomem liberdades artísticas gigantes, muitas não deixam de lado totalmente os fatos históricos dando caminhos aos personagens semelhantes ao passado que serviu de inspiração.

Contudo, a exceção de toda a série foi a figura histórica de Piers Gaveston, conde de Cornwall e conselheiro do rei Edward II. A aproximação íntima entre os dois foi abordada na série conforme já mostrada em outros filmes e até mesmo em estudos sobre o personagem. Mesmo estando na série, interagindo com personagens fictícios, o destino de Gaveston nada difere com o seu verdadeiro fim: decapitação depois de ser julgado por barões ingleses que detestavam a figura do conselheiro. Sendo um personagem baseado numa personalidade histórica, a série seguiu a “cartilha” da História e não inventou o fim de Gaveston.

Além dos personagens, á série também trouxe elementos para dar verossimilhança ao passado representado. Castelos, casebres, armaduras, figurinos e armas são elementos essenciais que a produção de arte da série trouxe para que pudéssemos acreditar que aquele momento existiu e que tudo ali podia ser real. Evidentemente que séries como The Bastard Executioner tinha por trás responsáveis por pesquisa além de historiadores que pudessem auxiliar os roteiristas e produtores.

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Mas isso não significa dizer que a série é isenta de falhas. Peguemos por exemplo o episódio 6 onde descobrimos a presença de um cavaleiro Templário. Vemos a armadura com a simbólica cruz vermelha, assim como espadas e o escudo. No entanto, no episódio 7 ficamos sabendo que o cavaleiro templário em questão pertencia a Ordem Teutônica, cujos membros usavam uma túnica branca com uma cruz negra. A escolha pela cor vermelha pode ter sido baseada na imagem comum que temos, a partir de filmes, séries de TV e jogos de vídeo game, que os templários formavam um grupo homogêneo.

Porém, apesar de todo um potencial que a série apresentava, por que The Bastard Executioner foi cancelada? Na minha opinião, foi por causa da expectativa criada e do potencial perdido.

Desde que fiquei sabendo da série e da sua proposta, imagem o bom potencial que teríamos para uma produção bem diferente do que se tem feito nos últimos anos. The Bastard Executioner não seria apenas uma série de ação, mas um drama carregado no conflito ético e religioso do personagem principal.

Foram necessários dois episódios para introduzir os pontos do drama de Wilikin Brattle. A sede de vingança do personagem o levaria por caminhos que nem mesmo um conforto espiritual não lhe seria suficiente. Wilkin é um homem religioso e esse aspecto cultural estava bem marcante no início da série sendo destacado na introdução da série. Porém foi se perdendo, apesar do conflito moral de Wilkin surgir em momentos precisos.

Mas não apenas o conflito moral de Wilkin parecia ser deixado de lado como também seu próprio desejo de vingança. Brattle não foi o único a ser vitimado cruelmente pelo ataque a sua vila. Ele e um grupo de amigos partem juntos para retaliação, mas logo a série focaria apenas em Wilkin e Toran deixando os outros em quase total esquecimento. Outros conflitos que surgiram durante os episódios acabou deixando de lado o objetivo principal, a vingança, e o potencial, o drama.

The Bastard Executioner então tomava os mesmo rumos de qualquer outra produção baseada no passado medieval europeu onde cavaleiros enfrentam a população rebelde que está cansada dos abusos de seus senhores. Cenas de ação com muita violência (desnecessária e forçada). Para completar, ainda tínhamos o mistérios ao redor de Annora e seu fiel cavaleiro templário na missão de proteger a verdadeira verdade de Jesus Cristo. Quem iria se incomodar com isso? Claro, a Igreja Católica, cujo membros do clero estavam dispostos a matar crianças para proteger a estrutura de poder da igreja. Esse antagonismo tipico dos romances de Dan Brown servia para desvirtuar ainda mais uma identidade própria para a série.

9e283287798352ca5d9898b2edc43e56A prova de que The Bastard Executioner não surgiu pra ser uma série de batalhas, mas sim para explorar o drama dos personagens dentro da situação que haviam se colocado está no seu ultimo episódio, “Blood and Quiescence/Crau a Chwsg”. Com o cancelamento prematuro da série, o final deixa mais perguntas do que respostas, mas conclui o mote principal: a vingança.

Toran havia ficado frente a frente do executor de sua mulher. Estava disposto a matar e conseguir sua vingança, como também morrer com honra e reencontrar sua família no além. Porém a batalha termina e a vingança dá lugar a um sentimento de perdão e cumplicidade onde Toran não estava mais 100% disposto a se vingar! Dele foi tirado tudo e sabia como horrível era a dor da perda. Essa mesma dor que por algum momento o fez repensar sua vingança ao provocar a mesma dor em outras pessoas. O conflito moral lhe tomou conta e ao final agiu de acordo com sua consciência.

O mesmo aconteceu com Wilkin que não matou o suposto assassino de sua mulher, Leon. (que nós sabemos que não foi ele e que provavelmente foi  Annora). O desejo de vingança que havia guiado Wilikin encontrou também seu fim com o perdão e o desejo de sua mulher (a alma) em não matar Leon. Sem cabeça rolando ou sem banho de sangue, Wilkin encontrou paz nos braço de Love.

Percebam, os conflitos não foram resolvidos em batalhas sangrentas, mas no campo moral.

Mesmo buscando um fim satisfatório para seus personagens, The Bastard Executioner não conseguiu escapar da sua falta de identidade ao definir que tipo de série seria, ação ou drama. Podia ser os dois? Sim, podia, mas o desiquilíbrio entre a expectativa criada e o potencial perdido pode ter afugentado seu público.