[HISTÓRIA EM SÉRIES] Knightfall | Contexto histórico, personagens e o primeiro episódio

“Pela graça de Deus” – Cavaleiros Templários

O canal History investiu em mais uma série histórica, aumentando seu catálogo, que já conta com Vikings, seu grande sucesso da atualidade. Knightfall nos leva para “dentro da política medieval e da guerra dos Templários, a ordem militar mais poderosa, rica e misteriosa da Idade Média, que foi encarregada de proteger as relíquias mais sagradas do cristianismo”, segundo a apresentação do show.

Após a Queda de Acre (1291), o Santa Graal foi perdido, porém, anos depois, uma nova pista reacendeu a busca pela relíquia, e o nobre cavaleiro templário Landry parte com a missão de encontrar o cálice de Cristo. “Das batalhas da Terra Santa, passando pelo conflito com o rei da França aos acontecimentos obscuros que levaram ao desaparecimento da Ordem dos Templários na sexta-feira 13 de 1307 – data que se tornou sinônimo de má sorte – a história dos Cavaleiros Templários nunca foi contada totalmente até agora.”

E dessa forma somos apresentados ao universo de Knightfall, trama histórica que pretende contar “a história jamais contada” sobre os Templários. Para quem conferiu o primeiro episódio, pode contar que a série, em termos de produção, ação e esmero não deixa nada a desejar a Vikings. Ambas ambientadas durante a Idade Média, as duas séries situam-se em contextos diferentes e muito interessantes para olharmos a história da Europa Medieval.

Os personagens

Knightfall, como qualquer ficção histórica, mistura personagens fictícios com reais. Confira a discrição de alguns dos personagens da série. Lembrando que, na apresentação de alguns desses personagens, usarei os nomes aportuguesados.

Landry: um cruzado veterano que lidera os templários em busca do Santo Graal, a relíquia mais valiosa da Ordem. Seu espírito foi esmagado durante a queda da Terra Santa. Landry tem sua esperança renovada à luz de novas informações sobre o paradeiro do Graal.

Godfrey: como Mestre dos Templários, Godfrey é o seu maior guerreiro, um homem de imensa fé e sabedoria que esconde muitos segredos em torno do Santo Graal. Sua prioridade é proteger a relíquia, a todo custo.

Tancrede: ao contrário da maioria dos Templários, Tancrede era um homem casado, que largou sua antiga vida para se juntar à Ordem. Como cavaleiro firme, corajoso e resoluto, Tancrede se vê como herdeiro para Godfrey.

Gwain: é o maior espadachim da Ordem dos Templários, mas ele está incapacitado por uma lesão sofrida durante a Queda de Acre. Incapaz de lutar, e com seu heroísmo, ele luta para se manter leal à Ordem e, de todos os Templários, ele tem o máximo a ganhar com a recuperação do Graal.

Rei Filipe IV: o rei da França é conhecido por sua boa aparência (daí o apelido “O Belo”), Filipe luta como rei e marido. Ele procura controlar sua família e lidar com os movimentos políticos, que são uma parte inevitável da sua responsabilidade. Filipe deseja ser um grande monarca e transformar a França no maior poder da Europa.

Rainha Joana: rainha da França e de Navarra, Joana é a esposa do rei Filipe e bastante poderosa. Ela é uma mãe devotada e uma formidável diplomata, mas um segredo ardente a ameaça.

William De Nogaret: De Nogaret é o advogado pragmático do rei e seu braço direito. Sem pudores, ele é um Maquiavel antes do seu tempo – impulsionado pelo desejo de destruir o poder da religião organizada. Seus pais foram queimados como hereges.

Papa Bonifácio VIII: o Papa Bonifácio VIII é uma força estabilizadora e incorruptível dentro de um mundo medieval corrupto. Os Cavaleiros Templários o valorizam como seu líder sagrado, e eles estão dispostos a executar suas ordens sem questioná-lo.

Parsifal: é um jovem fazendeiro de grande decência e honestidade. Corajoso até o ponto da imprudência, Parsifal sempre fará o que é certo, mesmo diante de um grande período.

Contexto histórico

O primeiro episódio da série começa com a Queda do Acre, que ocorreu em 1291. Após a derrota dos templários na batalha, a ordem retorna a Europa. Quinze anos depois, os cavaleiros vivem espalhados, inspirando nobreza, medo e inveja.

Mas as motivações dos personagens e a origem da Ordem dos Templários remonta a um tempo anterior, mais precisamente no ano de 1095, quando o Papa Urbano II convocou os cavaleiros europeus a combaterem os “infiéis” muçulmanos na Terra Santa. Tais movimentos militares e religiosos são conhecidos como Cruzadas.

A Primeira Cruzada (1095-1099)

Oficialmente, foram nove Cruzadas, mas vamos focar aqui na primeira expedição realizada.

A Primeira Cruzada foi feita atendendo o pedido do imperador bizantino Aleixo I, que precisa de apoio militar para combater os turcos sejúlcidas na Península da Anatólia. Entre os principais objetivos desta primeira Cruzada destacaram-se retomar o controle da Terra Santa, que estava sob controle dos muçulmanos, e fortalecer a presença dos cristãos ortodoxos no Oriente Próximo.

Comandada por Godofredo de Bulão, Raimundo de Toulose e Boemundo, a Primeira Cruzada também ficou conhecida como “Cruzada dos Nobres”. Durante o trajeto, os cruzados passaram por Constantinopla, conseguindo apoio dos bizantinos. Conquistaram as cidades de Niceia e Antioquia, chegando a Jerusalém no final de 1098.

Depois de diversas batalhas, os cristãos conquistam Jerusalém. Rotas de peregrinação foram reabertas e surgiram várias ordens monásticas como os Hospitalares, que tinham como objetivo prestar assistência médica aos peregrinos em local próximo ao Santo Sepulcro, e a Ordem dos Templários, que surgiu com a missão de proteger os fiéis em peregrinação.

A Primeira Cruzada foi a única que obteve sucesso. Porém, a conquista da Terra Santa pelos cristãos não demorou muito, pois os turcos logo se reorganizaram e tomaram os territórios conquistados.

Uma curiosidade, o termo “cruzada” não era conhecido e nem mesmo usado durante o período dos conflitos. Na Europa, o termo utilizado era “Guerra Santa” e “Peregrinação”, em referência ao movimento de tentar tomar a Terra Santa dos muçulmanos.

A origem dos Templários

A Ordem dos Templários foi formada por monges cavaleiros para proteger Jerusalém, após a conquista da cidade no século XII. Cavaleiros franceses, liderados por Hugues de Payens, criaram o grupo em 1139, inspirados em São Bernardo, místico e ativista religioso que incentivava as ações militares na Terra Santa.

Na cidade de Jerusalém, o grupo ocupava uma ala do palácio real da cidade, onde, diziam, era parte do Templo de Salomão, daí veio o nome Templários. Sua principal identificação era uma túnica branca com uma cruz. A Ordem chegou a reunir 20 mil cavaleiros.

Os Templários acumularam uma fortuna incalculável através de doações de terras, castelos e outros bens. Assumiram ainda o papel de banqueiros da época, coletando e transportando riquezas entre a Europa e a Terra Santa. Com o tempo, nobres e reis importantes se sentiram incomodados com o crescente poder econômico e político dos Templários.

A lenda do Santo Graal

Segundo a lenda, o Santo Graal – o cálice usado por Jesus Cristo durante a última ceia com seus doze apóstolos – possui poderes divinos. Porém, trata-se da versão medieval de um mito que já existia antes da Era Cristã.

Os celtas possuíam um mito sobre uma vasilha mágica, onde os alimentos colocados nela, e posteriormente consumidos, adquiriam o sabor daquilo que a pessoa mais gostava, e lhe davam força e vigor. É bastante provável que, durante a Idade Média, tal mito tenha sido “cristianizado”.

Apesar de várias referências cristãs, essas histórias não são aceitas pela Igreja Católica. “O cálice da Santa Ceia tem o valor simbólico da celebração da eucaristia. Já seu poder mágico é só uma lenda”, diz o teólogo Rafael Rodrigues Silva, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O fato é que tal relíquia jamais foi encontrada.

A Queda de Acre

A queda de Acre foi um importante evento durante o movimento das Cruzadas. A região representava o último reduto cristão na Terra Santa.

Em abril de 1291, Acre foi cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e francesas foram em socorro da cidade. O Porto do Acre era um dos principais pontos estratégicos dos cristãos na Terra Santa. Sua defesa, então, era prioridade.

Porém, no dia 18 de maio do mesmo ano, forças turcas e egípcias tomaram a cidade. Com a tomada de Acre, os cruzados perderam sua última grande fortaleza no Reino Cristão de Jerusalém.

Judeus na Idade Média

Das questões políticas e sociais referentes à época medieval que foram abordadas durante o episódio piloto, destacou-se a situação dos judeus.

Se a convivência entre judeus e muçulmanos não foi marcada por grandes conflitos – na Península Ibérica, os judeus podiam manter sua religiosidade desde que pagassem aos califas o dhimmi ou jizya, um imposto obrigatório para quem não seguia a religião islâmica – a situação entre judeus e cristãos no restante da Europa representou um grande problema.

Os judeus eram visto como traidores. Segundo as ideias que os detratavam, os judeus eram odiados por terem repudiado Jesus Cristo, além de estarem associados à figura de Judas, o discípulo que traiu Jesus por 30 moedas. Dessa forma, o judeu era visto como alguém com o qual não se podia ter nenhuma confiança.

O antissemitismo de origem religiosa fez criar diversas sansões aos judeus na Europa. Não podiam ser proprietários de terras, andar a cavalo e assumir funções públicas. Casar com cristãos era uma norma proibida em quase todos os reinos europeus.

Em algumas cidades, seguindo os conselhos do quarto Concílio de Latrão, de 1215, os judeus passaram a andar nas ruas com uma rodela amarela (cor da traição), ou com o símbolo da estrela de Davi fixado no braço ou na lapela de casacos, e por vezes, usavam chapéus cônicos. Os judeus se tornaram párias na Europa Medieval.

Por serem considerados indignos, lhes foram permitidos a prática dos negócios, especialmente de empréstimos a juros (a usura) e dos penhores, que eram proibidas aos cristãos. Daí também o ódio que a plebe cristã tinha pelos judeus, pois eram a eles que tinham que recorrer para sanar problemas financeiros. É importante dizer que eram práticas desempenhadas por uma minoria.

A maioria dos assentamentos e dos lugarejos judaicos era composta por pequenos profissionais muito pobres (alfaiates, ferreiros, sapateiros etc), sendo alguns com mais posse que exerciam a medicina.

É interessante ver que no episódio de estreia de Knightfall, os judeus foram protegidos pelos templários. Porém, alguns fatos históricos demonstram o contrário. No verão de 1096, vários bairros judaicos foram atacados por desordeiros e pilhadores, como também por cavaleiros cruzados, que antes de marcharem para a Terra Santa, “experimentavam” suas espadas nas costas de judeus.

Knightfall estreia de forma empolgante, mostrando ter potencial de ser a próxima grande série do History. Vamos acompanhar a busca desses cavaleiros templários pelo Santa Graal, e ver o quanto a série pode ser fiel aos fatos que a inspiram.


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