[HISTÓRIA EM SÉRIES] Doctor Who | “Twice Upon a Time”

E um milagre humano… está prestes a acontecer.” – Décimo Segundo Doutor.

[DESCULPE, SPOILERS]

O tão aguardado episódio especial de Natal, “Twice Upon a Time”, exibido no dia 25 de dezembro, provavelmente foi um misto de emoções para qualquer whovian (fãs incondicionais da série). O fim da era vivida pelo ator Peter Capaldi para a chegada do novo Doutor… Doutora, Jodie Whittaker. O fato é um marco histórico, pois, pela primeira vez, o personagem será vivido por uma mulher. E num episódio sobre aceitar o inevitável e o que é o novo, Doctor Who mostra como uma série com seus 54 anos tem fôlego para mais meia década de aventuras pela tempo e espaço.

E as viagens no tempo são o que nos interessam por aqui!

Neste episódio em particular, Doctor Who nos leva a um capítulo sem precedentes da Primeira Guerra Mundial.

O ano era 1914, o primeiro ano da “Primeira Guerra Mundial” ou, como era chamada na época, a “Grande Guerra”. Deslocado do seu tempo, o capitão britânico Lethbridge-Stewart deixa um buraco enlameado onde a morte parecia certa através da bala de um soldado alemão e, de repente, se vê no Pólo Sul. Sem entender o que está acontecendo (normal para qualquer um naquela situação), o capitão conta com a ajuda de dois doutores (o Primeiro e o Décimo Segundo) para retornar à sua época e ao seu inevitável fim…

“Você estava certo, sabe? O Universo geralmente falha em ser um conto de fadas. É aí que nós entramos”, diz o Décimo Segundo Doutor para o Primeiro, revelando sua estratégia.

De volta ao mesmo buraco enlameado no meio da “Terra de Ninguém” – espaço entre as trincheiras nos campos de batalha – o capitão Lethbridge-Stewart abraça seu destino… até que ele e seu adversário alemão escutam uma música de natal. O Décimo Segundo doutor salvou a vida do capitão, e de tabela, a do soldado alemão, ao levá-lo ao momento exato da “Trégua de Natal”, fato histórico e excepcional que ocorreu nas trincheiras, na Frente Oeste, no dia 24 de dezembro de 1914.

A Trégua de Natal

Na noite da véspera de Natal (o episódio mostra a fato acontecendo durante o dia), os britânicos foram surpreendidos por canções entoadas que vinham do lado inimigo. Os alemães tinham enfeitado suas trincheiras com pequenas árvores de Natal, decoradas com velas acesas. Os britânicos, desconfiados, só observavam.

Ouvindo os alemães cantando do seu lado, os britânicos resolveram responder com a mesma moeda. Com cantos de natal ganhando o ar, os alemães deixaram suas trincheiras, desarmados, e convidaram os britânicos a estarem com eles na “Terra de Ninguém”. Naquela noite, a guerra parou.

A “Terra de Ninguém” se transformou na “Terra de Todos”. Inimigos na guerra, naquele momento eram apenas homens celebrando o Natal, juntos. Confraternizando.

Músicas foram entoadas, presentes trocados, e soldados se apresentaram uns aos outros através de seus nomes, mesmo que as diferentes línguas fossem um obstáculo.

Esse episódio, que ficou conhecido como a “Trégua de Natal”, não correu apenas na Frente Oeste, mas também em outros campos de batalha. Edward Hulse, um tenente de 25 anos, assim escreveu no seu diário:

Nós iniciamos as conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se não atirássemos neles, eles não atirariam em nós.

Não apenas os soldados confraternizaram, mas também os oficiais que definiram os acordos da trégua. Os soldados na “Terra de Ninguém ” puderam conversar e se divertir. Uma partida de futebol foi realizada e o time alemão venceu o inglês por 3 a 2. Também foram permitidos que os corpos dos mortos em combate fossem sepultados.

A partida de futebol é confirmada pelo jornal “Times“, que em janeiro de 1915 publicou uma carta de um major da Seção Médica, onde diz que seu regimento disputou uma partida com os alemães.

Soldados escreveram cartas a seus parentes contando sobre aquele dia. Um alemão escreveu:

Aquele foi um dia de paz na terra, é uma pena que não tenha sido a paz definitiva.

Em alguns lugares a trégua durou durante todo o dia 25 e em outros lugares até o Ano Novo. A carta do capitão Alfred Dougan Chater a sua mãe traz informações sobre aqueles dias:

Acho que assisti hoje a um dos espetáculos mais extraordinários que se pode imaginar. Por volta das 10h da manhã, vi do meu posto de observação um alemão que agitava os braços e mais dois que saíam das suas trincheiras e se dirigiam a nós. Nós já íamos disparar sobre eles, quando notamos que estavam desarmados; de modo que um dos nossos homens foi ter com eles, e dois minutos depois soldados e oficias saíam das trincheiras dos dois lados, apertavam-se as mãos e desejavam uns aos outros feliz Natal. Trocamos cigarros e apresentamo-nos pelos nomes, e outros tiraram fotografias. Não sei por quanto mais tempo isto [a trégua] irá continuar – de qualquer modo, as armas terão de calar-se novamente no Ano Novo, porque os alemães querem ver nossas fotografias.

Tais relatos foram usados pelos jornais na época, no entanto a trégua espontânea provocou duras reações por parte dos governos aliados e do alto-comando militar. Novas tréguas espontâneas não seriam mais permitidas. De fato, confraternizações como o Natal de 1914 não se repetiram mais durante o restante da guerra.

Fotografia pulicada pelo jornal “The Daily Mirror” em 8 de janeiro de 1915 mostra soldados alemães e britânicos lado a lado.

“Nunca aconteceu de novo. Em nenhuma guerra, em nenhum lugar. Mas por um dia… um Natal… há muito tempo… todos simplesmente largaram suas armas… e começaram a cantar. Todos simplesmente pararam. Todos. Foram simplesmente bondosos”, assim o Décimo Segundo Doutor descreveu a “Trégua de Natal”.

Deixe uma resposta