[HISTÓRIA EM SÉRIES] Da Vinci’s Demons | Terceira Temporada

“Pessoas que realizam raramente se recostam e deixam as coisas acontecerem para elas. Elas saem e fazem as coisas acontecerem.” – Verrocchio.

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Acredito que poucas pessoas chegaram a pensar que, enquanto estudavam o Renascimento, Leonardo Da Vinci, um dos maiores expoentes da história da arte, um dia tivesse uma série de TV sobre sua vida. E mais: protagonizando uma fantasia histórica, pois Da Vinci’s Demons deixou de lado o “mundo histórico real” e embarcou num próprio universo de longas jornadas, sociedades secretas, onde os sonhos de uma mente criativa tornam-se reais.

Na terceira e última temporada, Da Vinci sofreu duras derrotas para os otomanos que invadiram Otranto. Mesmo com a ajuda de seus amigos, o artista teve que elevar sua genialidade para vencer um oponente que jamais havia imaginado enfrentar: a si mesmo.

Quando os otomanos invadem a cidade italiana, o terror tomou conta de Da Vinci ao saber que os invasores estavam usando armas inventadas por ele. Seus tanques de guerra, armaduras e bombas foram responsáveis por uma enorme tragédia que acabou vitimando seu pai, Piero.

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Tornar as armas de guerra projetadas por Da Vinci em algo funcional trouxe à tona a própria reflexão que o verdadeiro Da Vinci teve sobre suas invenções: cruéis demais para saírem do papel. Na realidade, boa parte não chegou a ser produzida como comentamos ao falar do episódio em que Otranto é dominada pelas forças turcas. As armas de guerra projetadas por Da Vinci revelam a mente de um homem que não se limitava ou se contentava com certas áreas para explorar seu talento. Sem falar que seus esboços refletem um contexto de época instável entre os estados italianos.

Nesta temporada também tivemos mais informações sobre os Filhos de Mitra e a busca pela página perdida do Livro das Folhas, porém no final das contas toda essa trama de conspiração no intuito de tornar o mundo melhor na visão do vilão pareceu um tanto desnecessária dado que outros acontecimentos, como  a invasão turca, tinham peso maior e eram mais interessantes. Desde a primeira temporada que não comprei a ideia dessa sociedade secreta que envolvia o misterioso paradeiro da mãe de Da Vinci. Olhando agora ao final do caminho, os Filhos de Mitra apenas desviavam o foco do enredo para a construção de uma nada original trama conspiratória ao invés de focar em desenvolvimento mais interessantes como o embate entre Florença e o Vaticano, a tensão entre os estados italianos e a invasão turca.

Evidentemente que eu, enquanto historiador, busco pelas referencias históricas, pela fidelidade aos fatos reais e a representação dos personagens,  porém, enquanto consumidor de séries de TV, sei que as liberdades artísticas vêm para criar e desenvolver tramas que nunca ocorreram, mas para o bem do entretenimento, acabam funcionando. Da Vinci’s Demons desde a sua temporada mostrou que não se tratava apenas de uma ficção histórica, mas em algo que caracterizei como “fantasia histórica”, termo muito comum para as histórias de fantasia medieval. Não é à toa que muitas invenções de Da Vinci são colocadas em prática. Se no mundo real tais invenções não chegaram a sair do papel, na série, foram responsáveis por grandes reviravoltas, como as armas de guerra e a máquina elétrica vistas nesta temporada final.

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A terceira temporada de Da Vinci’s Demons foi a que mais aprofundou-se no próprio universo criado. Enquanto que a primeira temporada explorou as tensões políticas de Florença, o segundo ano da série trouxe mais referencias históricas inclusive da civilização Maia, a terceira temporada, a partir da invasão turca da cidade de Otranto, foca-se nas tramas e na fantasia do programa.

Da Vinci tem seu conflito mais duro com os Filhos de Mitra e o desenvolvimento desse embate toma conta de boa parte da terceira temporada. Temos um episódio dedicado a uma vida alternativa de Da Vinci criada pelos métodos alucinógenos dos membros da sociedade secreta. Em outros momentos temos Lucrezia em busca da página perdida do Livro das Folhas. Conde Riario também é afetado por essa trama. Ele torna-se “O Monstro” matando várias pessoas, inclusive Clarice Orsini, porém ao final, encontra redenção nos braços do povo e nos dá aquele gostinho de “justiça” ao dar cabo do odiável papa Sixtus.

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Como temporada final, o terceiro ano de Da Vinci’s Demons foi muito bom. Antes do desfecho, jogou os personagens em situações bastante duras. O elenco se mostrou o mais acertado como sempre. Tom Riley encarnou mais uma vez um Da Vinci genioso, jovem e abatido pelas perdas pessoais tendo o peso em suas costas de salvar a Itália. Blake Ritson elevou seu personagem, o Conde Riario, ao nível da loucura. Era assustador sua entonação de voz toda vez que Riario parecia estar dominado pelo “Monstro”.

Não posso deixar de destacar o excelente trabalho que o ator James Faulkner desempenhou nas três temporadas da série. Seu papa Sixtus era a coisa mais nojenta e odiável da série. Um personagem que buscava apenas realizar seus próprios interesses livre de todo tipo de pudor. O melhor de tudo foi ver também a versatilidade de Faulkner ao interpretar seu próprio irmão gêmeo, preso no Vaticano. O ator deu ao personagem uma aura paterna, simpática e amigável, o oposto de Sixtus. Foi um presente ver Faulkner atuar nessa série.

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O último episódio nos deixou com um gosto de querer mais. Da Vinci vence os invasores usando de sua genialidade e agora irá viver sua vida de artista. Pode paracer uma vida calma frente a tudo que o personagem enfrentou, mas mesmo assim, vê-lo inventendo e tendo seus insights eram pontos fortes da série. As animações como esboços de Da Vinci foram uma das coisas mais legais de se ver. a série primou por sua produção artisca; ótimos efeitos especiais; e os episódios embalados pela excelente trilha sonora composta por Bear McCreary.

Mas se você já está sentindo falta de Leonardo Da Vinci, saiba que o homem real que deu origem a essa fantástica história foi um homem notável. Seus talentos foram tantos e suas obras ainda hoje são admiradas por gerações de pessoas. Vá atrás de quem foi Da Vinci, ele pode não ter sido um homem de ação como foi o personagem vivido por Tom Riley, mas com certeza alguém mais interessante e com muitas mais histórias para contar.

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Ei! Não vá ainda. Confira as referências históricas desse episódio:

A vitória contra os otomanos

A invasão otomana da cidade de Otranto que ocorreu entre 1480 e 1481 fazia parte de um temor real que os europeus tinham após a tomada da cidade de Constantinopla 27 anos antes. O Papa Sixtus IV chegou a conclamar uma cruzada em 1471, ou seja, antes da invasão a Otranto diferente do que ocorre na série, que foi atendida por alguns estados italianos e pela Hungria e França.

Com a chegada das forças otomanas em 1480 e a tomada de Otranto, forças europeias logo reagiram. Em 1480, um exercito foi formado pelo rei Fernando I de Nápoles que foi liderado pelo seu filho, Afonso II. Entre agosto e setembro daquele ano, o rei de Nápoles com o apoio do seu primo Fernando, o Católico e do reino da Sicília, tentaram recuperar Otranto, mas fracassaram. Porém, a cidade foi sitiada pelos cristãos em primeiro de maio de 1481.

Em 3 de maio, com a morte do sultão do Império Otomano, Mehmed II, os otomanos se desgastaram em discussões sobre a sucessão e ficaram incapazes de reforçar sua presença em Otranto. Forçados a negociar com os cristãos, os otomanos se retiraram para a Albânia.

Conde Riario não escapou da morte

Diferente do que a gente viu no episódio desta temporada, o Conde Riario foi morto por crimes em Florença, porém num contexto bem diferente do que aconteceu na série.

Riario esteve envolvido na Conspiração dos Pazzi, a tentativa de assassinato contra Lorenzo de Medici abordada na primeira temporada. No dia 14 de abril de 1488, Checco e Ludovico Orsi entraram no palácio do Conde e o assassinaram. O corpo de Riario foi jogado em uma praça local, onde reunia-se uma multidão que apoiava os assassinos que após selarem o destino de Riario continuaram saqueando seu palácio.

“O mundo será seu, Giulio de Medici” – Lorenzo de Medici

E foi mesmo. Juliano de Medici ou Giulio di Giuliano de’ Medici, filho bastardo de Juliano de Medici, tornou-se o papa Clemente VII tendo também governado Florença entre 1464 e 1469.