[HISTÓRIA EM SÉRIES] Da Vinci’s Demons | Segunda Temporada

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A terceira e última temporada de Da Vinci’s Demons estreia hoje nos Estados Unidos. Aqui no “História em Séries” você também terá as referências históricas explicadas a cada episódio.

E para entrar no clima da terceira temporada, vamos relembrar o segundo ano assim como as referências históricas em casa episódio. O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 30 de julho de 2014 no blog História em Séries.

Terminando a primeira temporada de uma forma bem dramática, a segunda temporada de Da Vinci’s Demons traz a conclusão da conspiração contas os Medicis e vai além, além mesmo, pois Da Vinci chega ao Novo Mundo em busca do Livro das Folhas.
Esta nova temporada continua a ser bastante interessante em referências históricas como foi a primeira. Nota-se que a citação de nomes de personagens contemporâneos a Leonardo da Vinci assim como a contextualização histórica da série demonstram um zelo dos produtores em deixar ao mínimo crível que se trata de uma aventura histórica, mas como já havia ficado claro desde a temporada passada, essa é a história de Leonardo Da Vinci que nunca foi contada, a história da sua juventude esquecida, ou seja, a justificativa para as liberdades artísticas que permeiam a série.
Não somos ingênuos em pensar que a série tem a função didática com a história, longe disso, mas a forma como a história acaba sendo incorporada e transmitida ao público é interessante. No entanto veremos logo mais que não só os acertos, mas principalmente os erros acabam fazendo com que um olhar mais crítico não deixe passar várias coisas. Por isso estamos aqui. Vamos desbravar a segunda temporada de Da Vinci’s Demons.
Após salvar Lorenzo de Medici da conspiração encabeçada pelos Pazzi, Leonardo da Vinci continua a busca pelo Livro das Folhas, mas não apenas ele, Conde Riario também está obcecado pelo poder que o livro pode oferecer e lança-se na caçada ao Livro. Mas como a viagem requer um navegador experiente, Leonardo contará com a ajuda de Américo Vespúcio.
As consequências do final da conspiração dos Pazzi deixa Florença em situação crítica. O Papa Sisto IV excomunga todos os habitantes de Florença e provoca um embargo a cidade provocando uma crise financeira e desespero entre a população. Para por um fim a isso, Lorenzo decide viajar até Nápoles e negociar uma aliança com o Rei Ferrante. Clarice fica responsável pelo comando do Banco Medici enquanto Lorenzo junto com Piero Da Vinci partem na missão de salvar Florença.
Após passar por todas as provações possíveis, Da Vinci chega a América. O que nos dá a entender que ele e seus companheiros chegaram a América do Sul já que foram capturados pelos incas.
Antes vale uma ressalva a um momento bastante cômico protagonizado por Américo Vespúcio. Ao deixar Leonardo na praia, Américo diz a Da Vinci que ele retornará ao Novo Mundo, fará a descoberta e batizará a nova terra com seu nome, o novo continente se chamará “Vespúcia”.
Capturados pelos incas, Leonardo é levado a cidade de Machu Pichu. Mas espera aí! Se Da Vinci veio navegando pelo Oceano Atlântico como eles pararam na costa do Pacífico? Além de furos históricos, a série cometeu um furo geográfico, já que a cidade de Machu Picchu, localizada no Peru, está mais próximo do Pacífico do que do Atlântico. Como Da Vinci e seus companheiros foram feitos prisioneiros pelos incas e não passaram nem um dia caminhando para chegar a cidade prova que além da “suspensão histórica”, a série nos pede também “suspensão geográfica”.
Como foi dito, no Novo Mundo, Leonardo da Vinci entra em contato com os Incas, guardiões do Livro das Folhas. Mas ao final de uma aventura quase digna de Indiana Jones, o Livro das Folhas não estava mais na posse dos nativos e a busca de Da Vinci ainda não havia chegado ao fim.
Lorenzo tenta negociar com Ferrante, mais o rei sádico lhe impõem provas mortais. Mas o que unirá os liderais dos estados italianos é a ameaça da invasão muçulmana.
Antes de irmos as referencias históricas dessa temporada, vamos conhecer um pouco dos novos personagens históricos que chegaram a trama, assim como outros que foram citados e são importante ao enredo:
Américo Vespúcio
Américo Vespúcio era de uma família tradicional e aristocrática de Florença. Desde os 17 anos trabalhou para os poderosos Médici, como contador na casa bancária da poderosa família. Aos 45 anos, Vespúcio decidiu “ganhar o mar” e, em 18 de maio de 1499, partiu com a expedição de Alonso de Hojeda (que provavelmente ajudou a financiar). Saindo de Cádiz, as caravelas alcançaram a costa norte da América do Sul (Suriname, Trinidad, Haiti, etc.) e retornaram a Espanha em 8 de junho de 1500. No mês seguinte Vespúcio escreveu a seu antigo patrão, Lorenzo di Médici, não só omitindo o nome de Hojeda, mas colocando-se na posição de comando. D. Manuel 1º, entusiasmado com as notícias de Vespúcio e com as informações sobre a Terra de Santa Cruz, trazidas por integrantes da esquadra de Cabral, organizou outra expedição ao Brasil, confiando-a ao florentino. A princípio Vespúcio hesitou, ainda cansado, e em conflito se deveria navegar sob a bandeira portuguesa. Mesmo assim, partiu de Lisboa em 13 de maio de 1501 sob o comando de Gonçalo Dias. De volta a Lisboa em 1502, Vespúcio escreveu a Lorenzo de Médici e falou das árvores (inclusive do pau-brasil), dos frutos saborosos, dos animais e dos habitantes de “corpo bem feito” do novo mundo. No ano seguinte uma nova expedição foi formada, com Gonçalo Coelho novamente no comando. Quando retornou à Europa, já havia sido publicado na Alemanha um panfleto em latim, com quinze páginas, narrando uma viagem de Vespúcio ao “Novo Mundo”. A popularidade trazida pelas narrativas converteu-o num dos textos mais vendidos à época. Foi o cartógrafo Martin Waldseemüller quem primeiro nomeou o novo continente de América, em sua homenagem.
Topa Inca
Também conhecido como Túpac Yupanqui foi um dos últimos governantes incas. Governou de 1471 até sua morte, em 1493. Ele se tornou Imperador Inca em consequência da morte de seu pai, Pachacuti, ocorrida em 1471. Conquistou Chimor, até então, o maior adversário dos Incas. Em 1480, ele liderou uma expedição através do Pacífico. Possivelmente sua expedição visitou as Ilhas Galápagos, Arquipélago de Tuamotu, Ilha de Páscoa e Mangareva. A viagem é mencionada em History of the Incas, de Pedro Sarmiento de Gamboa em 1572. Em 1493 ele foi assassinado e seu filho Huayna Capac o sucedeu no trono.
Andrea Del Verrochio
Mais conhecido como escultor, Verrocchio foi também pintor e dirigiu em Florença um ateliê com muitos alunos de pintura, entre os quais Perugino, Lorenzo di Credi e Leonardo da Vinci. Andrea del Verrocchio nasceu em Florença em 1435. Foi de início aprendiz do ourives Giuliano Verrocchi, cujo nome, ao que parece, adotou. Com a morte de Donatello, em 1466, Verrocchio tornou-se o artista favorito dos Medici, para cujas recepções e festividades concebeu estandartes e outros elementos decorativos. Sua primeira obra de porte foi o suntuoso sepulcro de Pedro e João de Medici, na igreja de San Lorenzo em Florença, concluído em 1472 e notável pelo uso de mármore e pórfiro coloridos em associação com ornatos de bronze. A morte de Verrocchio deixou inacabado o túmulo do cardeal Forteguerri (1476-1488) na catedral de Pistóia, cuja forma atual foi dada por escultores barrocos do século XVII. Em seu quadro mais famoso, o “Batismo de Cristo”, um dos dois anjos e a paisagem no fundo foram pintados pelo jovem da Vinci.
2×01: The Blood of Man
Lorenzo está bastante debilitado pela grande perda de sangue. Da Vinci o leva até sua oficina, onde sugere fazer uma transfusão de sangue. Sabe-se que desde a antiguidade, o sangue é tido como energia vital para o corpo, fato que fazia difundir ideias de que beber sangue poderia salvar o corpo, a alma e trazer juventude. Anotações de Giordano, de Alfieri e de Pazzini dizem que as transfusões de sangue são bem antigas e eram praticadas já no Egito Antigo. No episódio, apesar das ressalvas feitas por Andrea que chega a citar a Bílbia para convencer o Artista a não realizar a operação, Da Vinci cita os trabalhos do médico árabe Ibn-Al-Nafis, que de fato foi o primeiro a descrever a circulação pulmonar sanguínea.
2×02: The Bloodof Brothers
Nicolau Maquiavel: o que é bom para um príncipe, ser amado ou odiado? Essa questão faz parte do conjunto de ideias contidas no livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. Na questão citada, Maquiavel ressalta que para o príncipe ser temido é mais seguro, porque nos momentos de paz e abundância, o homem esconde sua natureza ingrata, ambiciosa e volúvel, no entanto quando o líder atravessa dificuldades não demorará para se ver abandonado por quem se dizia ser seus colaboradores. Temido, o príncipe não irá ver seus aliados sumirem tão facilmente com medo de serem castigados.
Conspiração dos Pazzi: Em 1478, ocorreu a Conspiração dos Pazzi, no qual a família Pazzi, apoiada pelo papa Sisto IV, tentou dominar Florença, matando Giuliano de Medici e ferindo Lorenzo. No entanto, os Pazzi são derrotados e quase exterminados por Lorenzo. O papa lançou um interdito contra Florença e excomungou Lorenzo de Medici. No entanto ao contrário do que vemos na série, o papa Sisto IV já conhecia o rei Ferrante de Nápoles antes da Conspiração dos Pazzi. No episódio, os dois são apresentados junto com Alfonso, duque da Calábria, que é filho do rei Ferrante (Fernando I). Essa apresentação traz um fato curioso, pois cansado de ser interrompido por Alfonso, o rei Ferrante tira de suas vestes uma pequena superfície onde faz girar um dente. Alfonso entra em pânico, pede desculpes e foge. Ferrante diz: “ele sabe bem o que acontece quando o dente cai”. Pesquisei e não achei referências ao fato mostrado nesse episódio, mas é ciente que o rei Ferrante era conhecido por sua crueldade. Na série “Os Bórgias”, um fato mórbido do rei Ferrante é retratado ao mostrar uma mesa de jantar onde os convidados são os cadáveres dos inimigos do rei.
2×03: The Voyage Of The Damned
Como consequências do resultado da Conspiração dos Pazzi, em 1478, o papa junto com o rei Ferrante interdita a cidade de Florença e excomunga Lorenzo de Medici. O papa Sisto IV toma tal atitude em represália ao assassinato dos Pazzi e de Francesco Salviati, o arcebispo de Pisa.
Uma cena que vale aqui ser destacada neste episódio mostra como os roteiristas costuram suas tramas ficcionais com os eventos reais. Américo Vespúcio diz possuir na sua coleção, mapas confeccionados por Toscanelli. Essa citação passa batida, mas não é feita a toa, pois Paolo dal Pozzo Toscanelli foi um importante matemático, astrônomo e geógrafo italiano que viveu entre 1397 e 1484. Toscanelli teria influenciado Cristovão Colombo no seu projeto de viajar para o oriente a partir da navegação pelo Atlântico.
2×04: The Ends of The Earth
Circassianos: os circassianos são um grupo étnico originário do norte do Cáucaso, região conhecida como Circássia.
Venda de indulgencias: na viagem para Napóles, Lorenzo e Piero encontram vendedores de indulgencias, uma pratica abusiva por parte das autoridades da Igreja Católica, onde documentos eram forjados declarando indulgencias (perdão dos pecados) cedidas com centenas os milhares de anos. A venda era realizada por profissionais “perdoadores”. Tal prática criou a expressão: “Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do purgatório”.
Osman Gazi: Osman I, Osman Gazi Khan ou Othman I El-Gazi foi o líder dos turcos otomanos e o fundador da Dinastia Osmanlı que estabeleceu e governou o Império Otomano, o qual foi nomeado em homenagem a ele.
Modelo heliocêntrico: enquanto procurava por respostas para a posição contrária de Venus no céu, Da Vinci vislumbra o universo onde o modelo heliocêntrico é a resposta para suas perguntas naquele momento. Mas a noção da Terra junto com os outros planetas girando em torno do Sol já era bem antiga. Foi Aristarco de Samo (310-230 a.C) o primeiro a defender essa idéia, posteriormente veio Nicolau Copérnico (1473-1543) e Galileu Galilei (1564-1642).
2×05: The Sun and The Moon
Na América, Da Vinci encontra os incas, apesar de uma representação duvidosa e com séries deturpações nos rituais de sacrifício (que se transformaram em rituais de execução), alguns elementos são interessantes e podem ser observados a partir desse episódio.
Sistema de escrita: enquanto Da Vinci e Zo conversam, podemos perceber em segundo plano alguns incas segurando várias cordas com nós. Essa cena faz referencia ao quipo, um sistema de comunicação. Os Incas não tinham língua escrita, então o quipo, de acordo com os nós numa corda era utilizado para comunicação e para a contabilidade.
Machu Picchu: Também conhecida como a “cidade perdida dos Incas”, Machu Picchu é uma cidade localizada no topo de uma montanha, a 2400 m de altitude, no vale do rio Urubamba, no Peru. Até hoje não existem consenso entre os estudiosos sobre a função de Machu Picchu, no entanto a teoria mais aceita era de que a cidade tinha por objetivo ser uma região para supervisionar a economia das regiões conquistadas e secretamente servir de proteção para o Inca e seu séquito em caso de ataque.
2×06: The Rope of the Dead
Viracocha: deus considerado o criador de toda a cosmologia inca. É o deus mais reverenciado na cultura andina.
Ayahuasca é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas (Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis) para fins rituais e utilizada na medicina tradicional dos povos da Amazônia. Atualmente seu uso acha-se difundido entre os adeptos de diversos cultos praticados também fora da Amazônia.
2×08: The Fall From Heaven
Pacha Mama: umas das divindades maiores dos Andes peruanos. Pacha Mama está relacionada a terra, fertilidade, a mãe e ao feminino.
2×09: The Enemies of Man e 2×10: The Sins of Daedalus
Vamos falar desses dois episódios conjuntamente, pois neles a trama se desenvolve de forma orgânica. Primeiro falemos sobre a tentativa de Lorenzo em conseguir paz para a Florença. Na série, após vencer o desafio mortal, Lorenzo ver suas esperanças de negociação iram por água abaixo quando o duque Alfonso mata o próprio pai nega-se a fazer uma aliança com Florença. na realidade nada disso aconteceu. Lorenzo consegue negociar a paz com o rei Ferrante –que não foi morto pelo filho – depois de ameaçar uma aliança com a França que buscava o trono de Nápoles. De volta a série, a ameaça da invasão turca fez unir Lorenzo, Alfonso e Sisto IV. O que na série serviu de pretexto para a união dos lideres italianos, na realidade, a invasão turca de Otranto, uma pequena cidade na costa do Adriático, ocorreu no dia 28 de julho de 1480. Desde a queda de Constantinopla em 1454, a Europa temia uma invasão dos turcos otomanos.