[GAMES] PAPERS, PLEASE (ou o camarada Estado não liga pra você)

Dificilmente alguma frase vai expressar melhor sobre como a burocracia funciona do que “O sistema não existe para resolver os problemas da sociedade. O sistema existe para resolver os problemas do próprio sistema.” dita em Tropa de Elite.

As pessoas têm uma ideia muito estranha de que os governos existem para servir a elas, quando, na prática, os governos existem apenas para servir às necessidades dos próprios governos. Fazer uma média com a população, o suficiente para se manter no poder sem uma revolta, é uma dessas necessidades, mas nem de perto é a maior delas. Não é sequer uma média delas. E essa é a coisa mais importante que pode ser entendida a respeito do serviço público de qualquer lugar do mundo a qualquer tempo: ele está pouco ou nada se fodendo para você. Você não é a prioridade ali, a prioridade ali é cumprir as metas que o sistema criou para si mesmo. Você está apenas estorvando, na verdade. É assim que o sistema funciona.

Ah, mas eu tenho cinco filhos pra criar e estou doente e…” FODA-SE. O sistema não liga para a sua história. O Estado não é seu amigo. O que o sistema liga é se está escrito no seu manual de regras ou não. Se não estiver, o problema é seu.

Verdade que no Brasil ainda existe um recurso totalmente separado e hierarquicamente superior ao sistema, que é o poder judiciário. Lá é a única oportunidade de alguém realmente ouvir a sua história. Em Arstotzka não há essa opção.

Papers, Please é um jogo bastante interessante e assaz bem elaborado: você trabalha como oficial de fronteira do país fictício de Arstotzka. Seu trabalho é receber as pessoas na sua cabinezinha, checar se os documentos delas estão em ordem, e deixá-las passar ou dar o carimbo vermelho – que as mandará de volta para um lugar provavelmente muito pior que a grande nação mãe Arstotzka.

O jogo tem essa essência de “jogo dos 7 erros”, mas alguns twists o tornam uma experiência memorável. O primeiro é que você tem que sustentar sua família. E como você ganha por cada cidadão que você processa corretamente durante o dia – o tempo é limitado – o fator stress é muito importante.

Considerando, ainda, que você tem direito a “errar” duas vezes por dia sem consequência alguma, em determinado ponto você começa a considerar negar aprovações, apenas porque iria demorar muito tempo pra investigar adequadamente a verdade. Pelo amor dos cosplays da Jessica Nigri, eu queria ganhar uma moeda por cada vez que eu vi isso acontecer em um certo órgão público que eu conheço tão bem. De verdade.

Sim, você está ferrando de verde e amarelo a vida de alguém para sempre, apenas para economizar alguns minutos. Mas se existe alguma coisa que a burocracia consegue fazer é evocar a “defesa de Nuremberg” nas pessoas.

Explico: durante os tribunais de Nuremberg, que julgaram os nazistas após o fim da guerra, muitos soldados e oficiais de baixo escalão alegaram “estar simplesmente cumprindo ordens” e que, se eles não tivessem feito aquilo, o sistema faria do mesmo jeito com outro. Com efeito, após a guerra, um cientista judeu chamado Stanley Milgram fez uma experiência para tentar entender o holocausto: o que levava seres humanos absolutamente comuns a cometerem esse tipo de atrocidade? Os resultados foram perturbadores.

Quando sua família está passando fome, doente e com frio, e quando você está sobrecarregado de um trabalho cansativo e moralmente sem propósito, é muito difícil pensar no outro como um ser humano de verdade. Eventualmente você começa a pensar nele exatamente como o sistema quer que você pense: como um número. E se ele não está com a documentação certinha pronta ali, é um número cuja única função de existir é estragar o seu dia. Igual a tantos outros naquela maldita fila.

As restrições de tempo são ainda agravadas por um ataque terrorista ocasional, que interrompe as operações pelo resto do dia, reduzindo sua renda. O estresse leva a mais erros pequenos e à falta de checar informações cruciais (quantas vezes eu errei por esquecer de checar o sexo do lafranhudo na identidade, algo tão simples), o que resulta em penalidades e reduções salariais. É um círculo vicioso. A única maneira de evitar o fracasso é remover a emoção da equação, e olhar somente os fatos duros mais que as realidades humanas.

O peso escrito nos documentos não está batendo com o que está marcando na balança? Não vem com essa de ter comido ravioli demais não! Manda uns nudes ae pro camarada Estado ver de onde vem esses quilinhos extras!

Eventualmente, alguma história ainda consegue te comover. Talvez você possa fazer um esforço extra para um caso especifico. O que eventualmente acontece no começo, mas o sistema é eficiente em logo te ensinar que qualquer tentativa de esforço será exemplarmente punida. Após alguns dias no jogo (ou alguns anos na vida real) você aprende a não tentar mais.

O sistema é assim. Não é problema meu. Eu só preciso seguir as regras do meu manual. São apenas números e punições.

Como assim você não sabe o que é passaporte? Então vai saber o que é carimbão vermelho! PRÓXIMO!

A outra variante do jogo é que as regras mudam conforme critérios que simplesmente dão na telha do governo. De um dia para outro, todos os cidadãos indo para o distrito X têm que ter que seu passaporte confiscado. Porque deu vontade no governo. No dia seguinte, os imigrantes do país Y estão banidos. E no outro desbanidos.

O ponto é que ninguém sabe realmente porque as regras são como são. Elas apenas são. E depois não são. Ao menos em Arstotzka o conjunto de regras está em um livrinho pequeno e acessível, e qualquer mudança é comunicada a você de forma eficiente e simples. Você sabe quais são as regras e porque está errando. O que é mais do que eu posso dizer do serviço público no Brasil. Eu realmente senti inveja de Arstotzka nessa hora…

Poucas coisas são mais desumanizantes do que trabalhar para o Estado. Tanto que as telas de Game Over do jogo terminam com a frase “…border will remain open under a replacement inspector”. As pessoas não são importantes para o sistema. Você não é importante para o sistema. Só o sistema é importante para o sistema.

Eu nunca joguei um jogo que emulasse tão bem a sensação que 1984 passa. Você é uma engrenagem minúscula (e facilmente substituível) em uma engrenagem muito maior. Onde você não faz diferença alguma, e tudo que você tenta fazer é torcer para que os olhos do Grande Irmão nunca recaiam sobre você.

Poucas pessoas entenderam tão bem o que é realmente um governo como George Orwell. E Lucas Pope, criador desse jogo.

Porque o sistema sempre vence.