[GAMES] NO MAN’S SKY (ou e, por um tempo, foi bom)

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O espaço exerce uma grande fascinação sobre a minha imaginação. Acho que isso é verdade a respeito da maior parte dos nerds. Douglas Adams escreveu que “O espaço é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso não é nada em comparação com o espaço.” Do topo da minha cabeça eu consigo citar três momentos em que eu que senti verdadeiramente o quanto o espaço é opressivo.

O primeiro é a cena de Gunbuster (ser otaku velho tem lá suas vantagens), em que você sente o quão terrível é o fato de que entre você e a imensidão destrutiva do cosmos existe apenas uma misera polegada de metal.

Um segundo momento desses é, obviamente, quando eu conheci a imagem mais importante já registrada pelo homem. Recomendo que você faça isso também.

O terceiro momento que eu posso citar é quando o painel da sua nave em No Man’s Sky mostra que o tempo estimado de viagem até o planeta mais próximo é de 5 horas. Cara, absolutamente NADA em um videogame fica a cinco horas de viagem. CINCO HORAS de tempo real viajando à velocidade de uma nave espacial é algo realmente impressionante. O espaço é realmente grande.

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NMS é tão grande que os programadores tiveram que criar sondas virtuais para explorar o jogo e procurar problemas

NO PRINCIPIO, HAVIA O HYPE…

Vamos começar do começo. Videogames são uma mídia que oferece poucas experiências novas. Muito raro é você encontrar um jogo e pensar “puta merda, isso é novo!”.  O que temos é o polimento de mecânicas até a perfeição, mas sempre mecânicas que você já conhece ou, no máximo, uma ideia nova em um conjunto já muito bem estabelecido.

Por isso mesmo, de tempos em tempos, uma desenvolvedora indie faz seu nome arrebentando a boca do balão com uma ideia nova ou pouco explorada. Minecraft, Rocket League, Superhot são jogos que foram feitos com o orçamento de um cachorro quente prensado e, ainda assim, todo mundo já ouviu falar.

Nesse aspecto, poucos jogos criaram tanta expectativa quanto o lançamento da modesta Hello Games: eles prometeram um jogo que criaria um universo em tamanho real. Parece ambicioso, mas de todas as promessas de No Man’s Sky essa é uma que foi cumprida.

Os números impressionam. 18 quintilhões de planetas (o que significa 18 milhões de trilhões, imagine o quão grande é esse número), sendo cada planeta mais ou menos em tamanho real. Ou seja, você leva semanas, até meses para dar a volta a pé em um único planeta. Como eles fizeram isso eu não sei, mas é realmente impressionante. Sei que tem alguma coisa com algoritmos, mas “algoritmo” significa para mim o mesmo que o termo “fascista” significa para um estudante de humanas: absolutamente qualquer coisa.

Ah, quanto às cinco horas que eu mencionei no começo, não se preocupe. A nave tem aceleradores, motores de dobra e tecnologia de hipervelocidade para tornar as viagens coisa de alguns minutos no máximo, mas não tira o mérito do quanto o universo é grande.

Em uma mídia muito tacanha a inovações, como é o caso dos videogames, novo é impressionante.

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… exceto por essa parte, os criadores do jogo realmente fizeram isso.

…  E OS GAMERS VIRAM QUE ERA BOM

Poucas coisas são mais viciantes e divertidas do que as primeiras horas de NMS. Você começa com sua nave caída em um planeta deserto (criado por uma linda direção artística) e é isso. Te vira ae, magrão!

Sem ter um tutorial praticamente jogando o jogo por você (uma moda muito comum nestes tempos que os jovens têm o ciclo de atenção de um peixinho dourado), descobrir por contra própria como apenas não morrer de exposição ao ambiente hostil, conseguir recursos e construir coisas é muito gratificante.

Os criadores disseram que o jogo seria sobre exploração, e esse tanto é verdade. Você vê uma montanha no horizonte e pode ir até lá. Se encontrar um animal ou planta lá, você pode nomeá-lo e upar seu nome para o servidor do jogo – assim, se qualquer outra pessoa nesse universo encontrar esse animal ou planta, ele terá o seu nome. Sempre dá vontade de ir mais além da próxima colina, atravessar o próximo lago, porque tem algo interessante lá.

Eu visitei um planeta repleto de sacos de esporos (que valiam 26 mil créditos cada um), mas guardados por sentinelas robôs raivosos. Comprei minha primeira nave roubando esporos e correndo em pânico, uma história bem pouco digna. Teve outro planeta que era quase inteiramente oceanos, mas com ruínas subaquáticas valiosas a serem exploradas. E quem não se impressionaria com o mundo dos bosques apinhadas de caranguejos raivosos cthullianos?

Nas suas primeiras horas de jogo, No Man’s Sky é verdadeiramente impressionante. Você cria pequenas metas pessoais e gasta horas com elas. Eu achei particularmente fascinante a coisa que você não fala o idioma dos aliens (existem 3 ou 4 idiomas no universo), mas aprende palavras deles através de monólitos ou enciclopédias abandonadas. Então, um dialogo típico com um alien é algo do tipo:

Rexxnar se ajoelha e lhe oferece sua pistola, dizendo:

– Amapsjsn guerreiro, aosjufh nyxateham sentinelas okjj jhf asjij!

Você pega a arma dele?

Tudo realmente muito interessante e repleto de histórias para contar (como minha fracassada e curta incursão no ramo da pirataria espacial) nas primeiras horas de jogo. Falando em história, o jogo não tem uma narrativa por si mesma, mas tem fragmentos de pistas que dão a indicar que alguma merda muito grande aconteceu no universo – muito parecida com o estilo Dark Souls de contar história sem contar uma história realmente.

Os planetas desertos repletos de sentinelas automatizadas que atacam quem alterar a paisagem, e a quantidade abundante de plutônio que você acha por aí (se minha parca química-fu não está errada, elementos pesados como plutônio se formam por último, então esse universo deve ser consideravelmente antigo), os monólitos que contam pedaços de frases que você vai juntando. Tudo dá a entender que uma treta muito maligna aconteceu no universo, e que você chegou depois que as cadeiras já estão em cima das mesas e o bar já está fechando. Em vários momentos eu tive a sensação de estar no universo de Mass Effect, e se você sabe o que os Reapers são, sabe o quão legal esse conceito é.

Supostamente, se você chegar ao centro da galáxia, esse mistério será revelado. E nas primeiras horas de jogo isso é uma motivação suficiente para você não achar que está jogando um minecraft espacial (mais burocrático), e realmente querer avançar até o centro da galáxia. Só tem um porém.

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NO MAN’S SKY FOI CRIADO. ISSO IRRITOU PROFUNDAMENTE MUITAS PESSOAS E, NO GERAL, FOI ENCARADO COMO UMA PÉSSIMA IDEIA

Sendo esperto como você é, já deve ter sacado qual a pegadinha aqui. Vou te dar um segundo para refletir sobre isso e se sentir inteligente consigo mesmo: Qual é o problema desse jogo? Se você esteve prestando atenção, vai perceber que eu usei a expressão “nas primeiras horas de jogo” muitas vezes até aqui. Aham, é isso mesmo que você está pensando.

No Man’s Sky é regido por um algoritmo (muito impressionante) que é capaz de gerar 18 quintilhões de planetas. O problema é que isso é TUDO que o jogo é: o resultado de uma equação matemática.

Poucas experiências na história dos videogames são mais divertidas que as primeiras horas de NMS, mas, após isso, rapidamente você começa a ver o código-fonte da Matrix. Muito rapidamente. Todos os planetas são diferentes uns dos outros, mas ao mesmo tempo eles são fundamentalmente iguais, já que o que você tem para fazer nos planetas nunca muda. Você vê que são apenas os mesmos elementos sendo recombinados aleatoriamente – às vezes de uma forma mais estética do que outra, mas nunca menos aleatório.

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As feminista pira!

O mesmo vale para a fauna desses mundos. Existem centenas de milhares de criaturas, mas todas elas são sempre as mesmas criaturas recombinadas de formas aleatórias e, mais importante que isso, com apenas três comportamentos de inteligência artificial programados. Então tem os que fogem de você, os que são indiferentes e os que te atacam. Se ele tem patas, tentáculos ou penis no lugar da cabeça não influencia absolutamente nada na criatura.

Pior que isso, o governo que construiu esse universo deve ter se metido em um esquema de corrupção muito pior que os sonhos mais molhados de qualquer governo brasileiro (provavelmente chamado de espaçolão pela imprensa na época), porque o mesmo maldito arquiteto construiu CADA MISERA CONSTRUÇÃO NO UNIVERSO. Não existem cidades ou civilizações aqui. Tudo que você encontra são os mesmos prédios jogados em lugares aleatórios, e muito raramente um ou outro alien (que é sempre a mesma programação apenas com outra aparência) perdido por aí, que oferece duas frases de interação.

Ou seja, o jogo não tem muito conteúdo a oferecer, ele apenas recombina o pouco conteúdo que tem de forma aleatória e gera planetas assim. Basicamente o que você faz no jogo é chegar em um planeta, pegar recursos para vender (nas estações espaciais sempre iguais), até poder comprar o material para fazer combustível e ir até o próximo sistema. Repita isso por TRINTA HORAS AGORA. TRINTA. HORAS.

Se a definição de loucura é fazer sempre as mesmas coisas esperando resultados diferentes, NMS é loucura embalada por R$200. O jogo não só tem pouco conteúdo, mas entrega tudo logo de cara, então tudo que você faz no primeiro planeta é TODO o jogo. É isso, repita de novo e de novo e de novo até a insanidade (e o tédio) consumir seu cerebelo.

NMS NÃO É UM MINECRAFT ESPACIAL, MAS SERIA MELHOR SE FOSSE

Em essência, NMS deveria ser um jogo de exploração e sobrevivência. Ou seja, como Minecraft só que no espaço. Ei, eu adoro Minecraft! Eu passo horas fazendo minhas coisinhas super de boas e está tudo certo. O problema é que esse jogo é dolorosamente ruim nisso. Parece que a Hello ficou tão orgulhosa do algoritmo que eles inventaram (ou roubaram, dependendo de para quem você pergunta)  que esqueceu que tinha que colocar um jogo no meio disso.

Para começar, “sobrevivência” não existe. Tudo que você precisa é ficar constantemente alimentando seu traje espacial e sua nave com plutônio ou carbono, que são infinitamente abundantes. Ou seja, não é sobrevivência, e sim mero gerenciamento de espaço no seu inventario, que não é abundante. Metade do tempo gasto no jogo é, na verdade, sobre gerenciar seus itens nas três diferentes bolsas que você tem. Claro, dá para aumentar o tamanho do seu inventario (a muito custo), mas isso não resolve o problema.

Não tem como você se divertir explorando se a maior companhia que você tem no universo é a frase “seu inventario está cheio”, e passa os próximos cinco minutos gerenciando itens.

As the hours passed, disappointment curdled into annoyance into outright dislike. There were so many problems, so many small inconveniences. Why couldn’t I stack certain items in my inventory? And why was my inventory constantly full? Why was the UI such a bother? Why was combat so mushy and unexciting? Why was it so hard to find my way around on a planet and so easy to lose track of where I’d been? Why couldn’t I name my ship, and why did my suit keep telling me my life support levels were low when they were at 75%, and oh my god is there any way to make this suit shut the hell up for three seconds?? And so on.

Para ter uma ideia de como seria, imagine Minecraft sem os baús. Você só tem o seu espaço pessoal de inventario. Agora imagine que esse espaço está dividido em três telas, e que para navegar entre elas é preciso uma burocracia nunca antes imaginada na história dos videogames (sério, tirando a super fórmula geradora do universo, a maior invenção da Hello Games é ter que segurar o botão por alguns segundos para “clicar”, mas oi?). Agora imagine que você não tem liberdade para criar nada, mesmo que tenha os elementos, você precisa vasculhar os infinitos mundos gerados aleatoriamente para conseguir “fórmulas” antes de poder criar alguma coisa (e não, você não pode criar nada relevante como bases, naves ou algo do tipo).

É como se a Hello tivesse olhado todos os jogos de crafting e sobrevivência, e tivesse decidido “agora vamos nos esforçar o máximo para tirar a diversão disso!” Parabéns, se a ideia era essa vocês conseguiram. *palmas lentas*

A comparação do “gameplay” mostrado na E3 de 2014 e o atual gameplay lançado em 2016 diz bastante coisa.
Mais profundo que isso, a Rock Paper Shotgun fez um artigo inteiro explicando a PICARETAGEM da Hello com o marketing desse jogo, e o quanto os gamers são bananas a respeito de serem engambelados desse jeito

Quanto à exploração, bem, passadas as primeiras horas, não demora muito até você sentir que está andando sempre no mesmo lugar. Quero dizer, literalmente no mesmo lugar: todos os planetas parecem ter o mesmo tamanho (e por tabela a mesma gravidade, o que daria um diferencial interessante ao jogo se mudasse). E quando você “salta” de um sistema para o outro, você não vai fisicamente até outro lugar, o jogo apenas gera uma nova composição aleatória. Tanto é que, se você pegar sua navezinha, e tentar ir para outro sistema, ou até mesmo em direção a uma estrela, você nunca vai chegar em lugar nenhum. Ou então você não demora a perceber que os ciclos de dia e noite dos planetas são aleatórios, e que os planetas e as estrelas são fixos no céu. Ninguém está orbitando nada.

Enfim, você não está em um grande universo de verdade, apenas em uma caixa de areia que se reconfigura. O quão rápido essa sensação te consome não pode ser atribuído a nada senão uma falha monumental do jogo.

Explorar o universo poderia ser uma experiência zen e única, estilo Euro Truck Simulator, mas as frequentes interrupções arruínam até mesmo isso. Pior ainda, como disse o gato de Cheshire: se não importa para onde você vai, não importa que caminho escolhe.

Explorar e criar coisas em NMS é tão desagradável quanto se pode ser. E se você já percebeu um padrão aqui, não vai ficar surpreso se eu te disser que o combate é tão ruim e desconjuntado quanto. Novamente, se o objetivo dos caras era ser pior que o combate de Fallout quando você não usa o V.A.T.S., parabéns, vocês conseguiram.

QUANDO O MOTOR DE DOBRA DO HYPE IMPLODE SOBRE SI MESMO

Normalmente eu não falo disso porque não julgo relevante, mas esse caso é especial.

No Man’s Sky era um dos jogos mais aguardados de 2016, em grande parte por causa das expectativas geradas de “viver em um universo em tamanho real” e coisas do tipo. Pessoalmente, eu não ligo para hype. Foda-se com açúcar mascavo o que as pessoas esperam ou enfiam na cabeça o que o jogo vai ser. Só que, mesmo assim, não tem como negligenciar um problema muito grande aqui: No Man’s Sky é um jogo indie que deveria ser vendido como tal – ou seja, 40 pila e estamos conversados.

Só que a Sony aproveitou o embalo do hype train e o lançou como um blockbuster AAA. Aí não tem amizade que segure pagar 200 Temers por um jogo indie com as limitações blatantes de uma desenvolvedora de fundo de quintal. Aí não dá mesmo.

Por 20 pilas (tipo numa promoção da Steam ou da PSN) o jogo seria aceitável, apesar de todas as suas limitações. Agora por 10x o preço disso (que é o preço do jogo no PS4 hoje) NÃO. Apenas NÃO.

nota-2

No Man’s Sky não é o parquinho intergaláctico que podíamos esperar. Ao invés disso, é apenas um museu abandonado com nada senão arte moderna largada aleatoriamente. Afinal, no espaço ninguém pode ouvir você se entediar.

3 thoughts on “[GAMES] NO MAN’S SKY (ou e, por um tempo, foi bom)

  1. Hehehehe, bela resenha. Eu realmente fiquei muito empolgado com esse game, mas agora, depois de ler varias resenhas e críticas, vou passar longe!

  2. Graças essa resenha, agora posso realmente comprar o jogo. O pessoal que jogou não percebeu, mas o super alien fodão do centro da galáxia que eles procuram são eles mesmo.

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