[GAMES] NieR: Automata (ou Deus merecia levar umas bifas)

Independente de quais sejam suas crenças, vamos supor, apenas pelo bem do argumento, que Deus existisse. O que poderíamos pensar a respeito desse sujeito? Bem, como eu já disse quando escrevi sobre Death Parade, não muito realmente. Tentar entender uma inteligência alienígena que não foi construída na nossa cultura é o mesmo que tentar entender Cthulhu.

O que podemos dizer, com certeza, no entanto, é que essa figura não foi muito bacana com a gente. Fomos largados nesse mundo sem um propósito, sem um manual de instruções, sem uma direção a seguir. Pior ainda, largados em um mundo extremamente hostil, onde uma forma de vida só consegue sobreviver tirando algo de outra.

As side quests da vida real podem ser muito divertidas, mas a main quest foi muito mal escrita.

Pois bem, você poderia supor, então, que ao menos nós vamos tirar algo disso, certo? Pelo menos não vamos repetir os mesmos erros, certo? Bem, se você sabe alguma coisa sobre a nossa espécie, se você já teve o menor contato com qualquer ser humano, é óbvio que a resposta é não. Pode apostar sua coleção de tazos que não aprendemos nada com isso, e vamos repetir a mesma cagada quando for a nossa vez de criar inteligência.

Eventualmente cometeremos os mesmos erros com as máquinas (ou macacos super-inteligentes que criarmos), e como elas vão durar nesse planeta muito mais do que nós, é apenas questão de tempo até elas se sentirem abandonadas e sem propósito, da mesma maneira que nós nos sentimos. Tudo isso já aconteceu antes, tudo isso vai acontecer novamente, disse uma vez uma grande série de TV.

Ao menos nós temos tempo ainda de deixar um “Foi mal gente, desculpe o transtorno“, o que é muito mais do que Deus jamais se dignou a fazer por nós. Vacilão. Relacionado a isso, falaremos a seguir sobre robôs depressivos.

Fanservice e depressão. Oh boy, esse vai ser o meu jogo…

No ano 11.194 (sim, onze mil cento e noventa e quatro), as coisas deram ruins para a humanidade de uma forma espetacular: aliens decidiram que queriam a Terra para aumentar o seu campo de golfe intergalático, e lançaram uma onda de máquinas inteligentes para expulsar os inquilinos – a.k.a. nós. Apanhando mais que custo em bolicho, a humanidade tomou uma ruim tão feia que tudo que conseguiu fazer foi pegar meia dúzia de gatos pingados e fugir balançando os braços para cima para uma base na Lua.

Androide gothic lolita do espadão vs robôs canibais. Senhores, acho que a humanidade finalmente atingiu seu pleno potencial criativo

Mas isso não ficaria sem resposta, claro que não! Para reclamar a Terra de volta, o conselho da raça humana na Lua criou androides para descer lá e fazer o trabalho sujo. Os androides top de linha desse projeto são os modelos YorHa, e é com as unidades 2B e 9S que faremos a Terra grande novamente! Glória pela humanidade!

… exceto que, curiosamente, em nenhum momento você nunca realmente vê nenhum humano. Seus líderes da YorHa te dizem que recebem ordens deles, mas você não pode falar com os humanos diretamente. Nem vê-los. Ninguém pode. Eles te garantem que os seres humaninhos, seus senhores e criadores, estão lá em algum lugar, quentinhos e protegidos. Isso é tudo que você vai ter. Apenas aceitar a palavra de seus “representantes”, e era isso.

Hm, isso te parece com algum sistema social que exista no nosso mundo? Pois é, né?

De qualquer forma, a missão dos androides 2B e 9S não é particularmente complicada, já que, embora as máquinas deixadas pelos aliens tenham poder de fogo e quantidade, não são particularmente desenvolvidas ou capazes de pensamentos muito complexos.

Na primeira vez que você joga, basicamente seu trabalho é ajudar os outros androides membros da resistência (não tão avançados quanto os modelos YorHa, mas androides mesmo assim), fazer quests e destruir máquinas aleatórias. As máquinas se comportam de forma estranha, verdade, mas nada que mereça algo mais do que um erguer de sobrancelhas e um “é, estranho”.

E por estranho eu quero dizer que, antes de abrirem fogo em você, você flagra os robôs imitando comportamentos humanos, como os que não fazem nenhum sentido para máquinas, como formar estruturas biológicas de famílias (você vê muitos robôs chamando outros de “irmão” ou “filho”, mas não é como se o papai robô colocasse uma sementinha na barriga da mamãe robô ou nada do tipo), fingindo que estão brincando de bate-bate na maria-mole, ou então encenando Shakespeare… Ik, é estranho, mas não são pensamentos de verdade, são? É apenas uma falha estranha de programação… não é?

De qualquer forma, os androides não acreditam que as máquinas contem como seres vivos, então, glória pela humanidade! No fim você enfrenta alguns robôs defeituosos, e os vilões do game são “androides do mal” com muita cara de personagens de anime. Mas o bem vence o mal, espanta o temporal e tá tudo certo… certo?

A primeira vez que você termina o jogo, é um hack’n slash de mais ou menos dez horas, sem realmente muita coisa de especial. Quer dizer, é exatamente o que você poderia esperar de um jogo da Platinuum – a mesma criadora de Bayonetta e Transformers Devastation – onde você dá espadada, mete bala e pula. Se Devil May Cry fosse de mundo aberto, e você ficasse tentando mudar a câmera para ver a calcinha atochada no rabo da protagonista… melhor não dizer isso alto, vai que os japoneses ouvem … seria exatamente esse jogo.

Tem um achievment/trophy chamado “What are you doing” por tentar olhar a calcinha da 2B dez vezes. Isso sim que é conhecer o seu público-alvo!

Você tem uma opção muito interessante para alocar chips que você consegue ou compra para melhorar o seu personagem, e dar bônus ou automatizar algumas ações (dois exemplos: o ataque dar +20% de dano; usar poção de cura automaticamente quando a vida estiver abaixo de 30%). Isso é até onde a variação do gameplay vai. Não é ruim, mas não é a América também.

Então rolam os créditos, ele te diz que você teve o final A e o jogo recomeça com um New Game +, onde você joga a história contada pela ótica do androide batedor 9S, e não da louca do espadão da 2B (aka “nunca torci tanto para ter uma escada em um jogo”). Parece o mesmo jogo, e essencialmente você faz a mesma rota. O que pode ter de tão diferente, não é?

Então, bem… Tem uma coisinha de diferente, sim. 9S também luta e tudo mais, mas enquanto você jogava com a 2B no primeiro gameplay, e o 9S era controlado pelo jogo, você via que ele te auxíliava hackeando as máquinas para derrubar as defesas dela, e você poder aplicar a boa e velha ultraviolência koroviana. Agora que você está controlando 9S, você é que tem que hackear as máquinas pra ela dar uma de Marco véio e tacar-lhe pau no morro da Vó Salvelina.

É aqui que o jogo começa de verdade.

ATENÇÃO: a seguir o texto conterá spoilers que podem ofender a sensibilidade de quem é Nutellinha criado a leite com pera, que não cresceu com coisas como “O próximo episódio será: Goku morre!

Me permita dar um exemplo: um dos primeiros chefes do jogo é uma grande máquina vestindo um vestido vermelho rasgado, e usando cadáveres de androides pendurados ao redor de seu rosto. Ou seja, uma máquina do mal que surtou, pura e simplesmente. Beleza. Na primeira vez que você a enfrenta, você senta o sarrafo nela com a 2B, enquanto o jogo controla 9S, que hackeia ela pra te ajudar – mas como você está ocupado descendo a lenha, nem presta muita atenção nisso

Quando é a sua vez de hackear o boss, é aí que você entende o que realmente está acontecendo ali – ao entrar na cabeça do chefe, literalmente. A máquina se identifica como “ela”, e seu nome é Simone. Ela estava apaixonada por outro robô, que cagava para os seus sentimentos. Qualquer um de nós ficaria chateado, desmotivado, sem vontade de cantar uma bela canção mas, por Deus, esta é Simone! Simone, então, pesquisou a história da humanidade para ver se conseguia alguma ideia de como fazer o seu amado amá-la de volta. E essa foi a sua ruína.

Ela aprendeu, pesquisando com o que os humanos deixaram para trás, que para ser amado você precisa ser belo.

Mas o que é beleza?“, a máquina Simone, então, se perguntou uma pergunta muito válida. Depois de muito andar pelo velho mundo, Simone meio que pegou uma ideia do que os humanos entendiam por beleza. A beleza é pele bonita. A beleza é acessórios elegantes. A beleza é ter uma aparência agradável.

Simone tentou tudo que conseguiu achar para ganhar afeição, para sentir a concepção humana de desejo, tendo os resultados esperados no processo. Nenhum. E isso acabou a deixando louca. Tipo Cisne Negro louca. Ela devorou as máquinas ao seu redor, baseada em um boato que ela tinha ouvido. Esse autômato de canibalismo a fez vomitar, mas, se isso significava ser amada, valia a pena. Não significou.

“Eu olho no espelho“, disse ela. “E em seu reflexo vejo apenas minha própria falta de sentido. E assim, eu grito.” Essas foram as últimas palavras de Simone antes que 2B a estraçalhasse sem ter a menor noção do que estava matando. Ou mesmo a noção de que estava matando um ser altamente complexo, não um windows 10 que deu pau. 9S decide ficar quieto. Talvez seja melhor para 2B que ela não saiba realmente o que está fazendo.

Eu sinto muito, Simone. Eu realmente sinto muito.

Esse é apenas o primeiro boss do jogo. Prepare sua fluoxetina, porque o caminhão da depressão segue sem freios ladeira abaixo daqui pra frente.

Em sua essência, a história de NieR é a história da própria humanidade: uma busca pelo propósito. Mais e mais, o jogo apresenta máquinas (também abandonadas por seus criadores aliens) que, largadas sobre uma Terra em ruínas, procuram um significado para sua existência, apenas para não encontrar nenhum. Não existem respostas, não existe propósito. Existe apenas desespero e vazio.

Poucas vezes um trailer honesto foi tão verdadeiro. E realmente você tem que entregar sua carteirinha de ser humano se não gostar da trilha sonora. Sinto muito, você apenas tem.

Bem, isso é realmente muito ruim para as máquinas. Mas, ao menos, os androides tinham um propósito ainda, uma última tábua de salvação: eles poderiam sempre retornar a uma ideia central de salvar a humanidade. Significa suportar uma guerra que já dura milhares de anos, mas se está a serviço do que é supostamente “o bem maior”, então tudo bem.

“Glória pela humanidade!”, é o bordão que os androides repetem a exaustão. Eventualmente você começa a entender que eles estão repetindo aquilo mais para si mesmos do que para os humanos. Ao menos isso eles têm, certo?

Bem, não.

No segundo final do playthrough, onde o jogador assume o controle do 9S, essa ilusão é quebrada. Aquela sensação que você vinha construindo desde o começo do jogo (e isso é MUITO importante para a narrativa, pois é algo construído ao longo de horas, e não apenas vomitado em um texto) é confirmadA. A humanidade foi extinta há muito tempo. Não há colônia na lua. O chamado “Conselho da Humanidade”, um grupo de humanos que ocasionalmente envia mensagens para as máquinas que lutam por eles, não existe. As mensagens vêm da Lua, mas não de seres humanos.

“Precisamos de um deus pelo qual valha a pena lutar”, te diz a sua comandante.

A humanidade é a religião das máquinas de Nier, mas sem respostas claras, e à medida que as máquinas de cada lado do conflito começam a lutar com o desenvolvimento de sua própria consciência, os seres que as criaram – sua forma de deuses – as deixam desesperadas.

Você pode se perguntar porque as androides nesse jogo usam lingerie. Em resposta, eu é que te pergunto: POR QUE ELAS NÃO USARIAM?

Uma das missões secundárias mais perturbadoras em NieR é chamada de “The Wise Machines”, onde você rastreia uma série de robôs lançando linhas vagas sobre o significado da vida e contemplando o nascimento. A terceira máquina é encontrada no topo de uma torre de transmissão abandonada, centenas de metros acima do solo.

“Nós fomos criados para lutar”, ele diz. “Para eliminar todos os outros e residir no auge da existência. Mas a batalha se estende eternamente. Nosso maldito ciclo de destruição e renascimento continua sem fim. Nosso único propósito é tirar. Nenhum de nós neste mundo é amado. Este mundo não tem necessidade de nós. Há apenas uma solução“. O robô diz antes de saltar da torre e se espatifar no chão.

E, em essência, não é isso o que a vida é?

Mas tudo bem. Se em seu segundo playthrough, 9S entende que não existe propósito para os androides nesse mundo, ao menos eles ainda têm uns aos outros. Talvez, se eles ficarem juntos, eles podem descobrir seu próprio propósito, mesmo que seus criadores já tenham puxado o carro. Ele ainda tem a 2B, então tudo vai ficar bem, certo?

Enquanto eles tiverem um ao outro tudo vai ficar bem, certo?

Bem, se você percebeu algum padrão aqui… já sabe como isso termina. Basta dizer que você não joga o terceiro gameplay com a 2B. Isso é mais do que 9S pode aguentar.

Yoko Taro, o criador da série, faz todas suas aparições publicas usando essa máscara. Todas. Taí um homem cujo trabalho eu preciso conhecer melhor… Falando nisso, a história do mundo de NieR também é estranha, mas isso é mais porque, apenas em seus momentos finais, o jogo te lembra que na verdade é a QUINTA parte de uma saga (a série Drakengard nasceu no PS2). Muito do que acontece no jogo não tem explicações auto-contidas (como porque a morte das androides gêmeas é importante). Mas vale a pena lembrar que esse é o capitulo 5 da história – mesmo que para mim tenha sido o primeiro.

NieR, no entanto, não é “13 Reasons Why Videogame” e termina com um tutorial sobre suicídio. Em meio a tanTa desesperança, e coisas que possivelmente não tem como dar certo, em meio à loucura e o vazio, nascem momentos genuinamente bonitos. Como quando os drones que acompanham os personagens o jogo inteiro começam a desenvolver os primeiros sinais de consciência e a se importar um com o outro, num dos diálogos mais bonitos que eu já vi em um videogame. Não, corrijo, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi na minha vida.

Por mais paradoxal que seja, todo o terceiro gameplay é justamente sobre A2, uma androide tipo YorHa que foi traída e deixada para morrer pela sua organização, aprendendo a voltar a confiar, e é um arco muito bonito sobre encontrar esperança onde não parecia haver nenhuma. Nas maiores adversidades nascem as mais belas flores. A mensagem final, e esse é o arco da jornada de A2: esperança. Talvez Deus não exista, talvez ele exista e não se importe. Talvez não exista um propósito para nossa existência, talvez exista e apenas não tenhamos entendido ainda. Talvez viver seja sem sentido.

Talvez. Mas quer saber? Está tudo bem. Mesmo. Enquanto estivermos vivos, enquanto não estivermos completamente sozinhos, sempre dá para começar de novo. Isso é transmitido pelo genial evento que encerra o jogo – necessário para ver o “final verdadeiro” da coisa. Se mesmo em um ambiente propenso a hostilidade pura e grosseria, como é a internet, as pessoas podem fazer uma ação por um completo desconhecido, então talvez haja alguma esperança no fim das contas.

E se tudo mais falhar, ao menos esse sempre será o jogo que você pode usar O SENHOR PORCO COMO MONTARIA! Chupa essa, Breath of the Wilde!

Everything that lives is designed to end. We are perpetually trapped in a never-ending spiral of life and death. Is this a curse? Or some kind of punishment? I often think about the god who blessed us with this cryptic puzzle…and wonder if we’ll ever get the chance to kill him. —2B

Eu te entendo, mana. Eu realmente te entendo.