[GAMES] KATAWA SHOUJO (link para download)

katawa_shoujo_id_by_kagsacar-d3bzio2CLIQUE AQUI PARA BAIXAR (o jogo é gratuito)

Nossa história de hoje começa no lugar mais estranhoda internet. Eu sei o que você está pensando: “ah quié isso, tudo na internet é zueira e pirado” ou algo do tipo. Mas o lugar que eu estou falando foi o que deu forma ao inconciente coletivo do que é a internet. Estou falando, é claro, do 4chan.

Se na mitologia grega existe Hecate, a mãe dos monstros, na internet existe o 4chan. E quase tudo que chega amigavelmente na sua timeline do facebook provavelmente nasceu lá.

Lembra da modinha dos fatos sobre Chuck Norris? Dos videos revoltantes (como 2 girls 1 cup)? Dos hackers Annonymous? O fandom adulto de My Little Pony? Da pegadinha do Ricky Roll? Dessa coisa que a internet tem com gatos? Dos memes?

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De certa forma o 4chan é o coração pulsante e nefasto da internet aberta ao publico, se você quer ir fundo nas estranheza da psique humana sem entrar na depp web, não tem como ir muito mais fundo que isso.

Tanto é que em 2008 a revista Time elegeu o criador do 4chan, Christopher Poole (vulgo “moot”), como a pessoa mais influente do mundo.

Mas o que é como é o 4chan e o que isso tem haver com uma graphic novel sobre meninas deficientes físicas? Já chego lá…

O 4chan é um fórum de imagens com leis de etiqueta e convivio (por assim dizer) muito próprias. É um forum em que você pode (e será encorajado a isso) a criar um post sobre como os negros são pedaços de lixo inferiores, ou as melhores formas e tecnicas (locais, metodos de abordagem, equipamento etc) para estuprar sua paixonite.

Quer se suicidar (“seja um herói”, como eles chamam) e não tem onde perguntar sobre tecnicas e metodos efetivos? O 4chan é o seu lugar. Apenas não peça links. Nunca peça coisas para baixar.

Tal é a ecologia do forum.

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Certa feita um usuario do site, com o nick de Nurse-kun, postou uma história interessante. Ele contou que era enfermeiro de um hospital e na ala que ele trabalhava havia uma menina de 7 anos que sobrevivera a um acidente de carro onde perdeu os pais. Mais do que os pais, ela perdeu as duas pernas, um braço e um olho.

Como o 4chan é o 4chan, ele perguntava se deveria ou não estupra-la caso tivesse a chance. Foram feitas muitas piadas sobre pedofilia e estupro e a vida continuou.

Nos próximos meses Nurse-kun continuou relatando a vida da menina e seu processo de recuperação (tanto fisico quanto emocional), a dificuldade em se adaptar e todo esse tipo de coisa. Eventualmente, ao longo do tempo, ele passou a se importar com a menina e realmente a tentar ajuda-la.

Verdade seja dita a história, apesar de muito bem escrita, tropeça em vários clichês de anime e o próprio Nurse-kun errava termos tecnicos que supostamente um enfermeiro de verdade (e não alguém que assistiu muitos filmes sobre o assunto) deveria saber.

Mas essa não é a parte importante, a parte importante é que uma quantia relevante de usuarios do 4chan se interessou verdadeiramente pela história e pedia a Nurse-kun que continuasse atualizando as postagens para saberem o que aconteceu com ele e a menina. E sensibilidade é a última coisa que você iria esperar em um lugar como o 4chan.

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Entre muitas ilustrações feitas para a história (e se tem algo que não se pode negar é que a internet está repleta de artistas talentosos que nunca chegarão “lá” por um motivo ou outro) e uma delas era uma arte conceitual de uma graphic novel.

Muitos usuarios gostaram realmente da idéia de um jogo sobre o tema e assim pela união dos seus poderes, na mais profunda escuridão do coração negro da internet nasceu o 4 Leaf Studios. E uma Visual Novel sobre meninas deficientes nasceu: Katawa Shoujo (“Meninas Deficientes”, em uma tradução livre).

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Mas espera, o que é uma Visual Novel?

Bem… é complicado. VN pode ser considerado um jogo sobre muitos aspectos, mas eu realmente não colocaria desta forma. “Simulador de encontros” (dating sim) é outro termo usado mas eu também não sou muito fã dele.

Digamos que é como um livro ilustrado interativo. Você lê e eventualmente tem que fazer uma escolha ou outra que definirão o rumo que a história toma – como naqueles livrinhos de aventura, algo do tipo.

O genero é muito popular no Japão mas no ocidente é mais conhecido pelos eroge – uma variante de Visual Novel que se não é sobre exclusivamente sexo ao menos tem alguma relação com isso. Nem todas VN são sobre sexo, eu posso citar como exemplo o excelente anime Steins;Gate que é baseado em um jogo desse tipo, mas quase todas que efetivamente chegam ao ocidente sim.

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Dito isso, vamos voltar a Katawa.

A premissa do jogo somada ao fato foi criada nos porões profanos do 4chan causou arrepio em muita gente. Basicamente trata sobre um garoto que uma doença muito grave no coração e que é transferido para uma escola de “crianças especiais” como ele que não poderiam ter uma vida normal em uma escola comum. Tipo um instituto Xavier para Jovens Subdotados.

Aí começaram as primeiras pedradas no jogo. “Como assim um asilo para deficientes?” e todo tipo de critica moralista. Adicione o fato que o jogo teria imagens eróticas e sensuais com seus personagens (as “meninas deficientes” do titulo) e você pode imaginar todo tipo de cavaleiro branco clamando que era doentio e imoral sexualizar esse tipo de garota e que só alguém muito, mas muito torpe faria isso.

Dado o histórico do 4chan e seu publico, não é sem fundamento.

Mas esse pensamento é, em si, muito mais nocivo e preconceituoso e já chegaremos a isso.

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Então, o jogo.

A primeira coisa que chama atenção sobre Katawa Shoujo é o quanto ele é bem escrito. Tipo muito mesmo, de um ponto de vista literario. Ele tem boas tiradas, referencias, simbolismos, sabe ser engraçado. Talvez a maior vantagem é que apesar de construido para parecer um jogo japones, Katawa Shoujo não foi realmente feito por japonese e isso elimina muitos vicios narrativos insuportaveis dos niponicos. Não todos, claro, mas bastante coisa.

Enfim, se fosse um livro, seria literatura da boa.

A segunda coisa que chama atenção é o quanto o assunto é tratado com tato e bom gosto. As meninas, independente dos seus problemas, são apresentadas como seres humanos – o que a sociedade usualmente falha em esquecer que são.

A melhor parte do jogo é ver o protagonista passar a entender isso gradualmente. Quando ele chega no colégio mais de uma vez ele pergunta ao professor ou ao enfermeiro como ele deveria lidar com pessoas “diferentes”, porque parecia errado tocar no assunto mas também parecia igualmente errado ignorar o “elefante branco”.

E mais de uma vez lhe é dito que isso só é uma “grande coisa” se você achar que é.

Outra questão que incomodou bastante gente, como eu havia citado antes, são as cenas de sexo. Elas existem no jogo mas diferente do que acontece normalmente nos eroges elas não realmente se levam muito a sério e de alguma forma parecem mais adolescentes desajeitados fazendo sexo sem ter muita certeza do que estão fazendo (o que eles são e todo mundo já foi nessa idade) do que estrelas porno sub-18. E de qualquer forma cai bem e de forma natural dentro da narrativa, como tudo mais é tratado com um certo bom tom (meio forçado as vezes, mas ao menos eles tentaram).
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E com o seu desenvolvimento a história passa elegantemente a te entender esse ponto de vista. Por exemplo, Rin é uma garota muito, muito estranha. A primeira vista simplesmente porque ela não tem os braços e isso causa um certo desconforto (em você como leitor, inclusive). Ao fim da história você continua achando que ela é uma menina muito, muito estranha, mas porque ela é uma artista conceitual e pensa como tal. O fato dela não ter os braços não é o que define ela.

Bom tom é a palavra aqui, mas em nenhum momento sem ser politicamente correto ou pedante.

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Valores da produção

E enquanto em narrativa e conceito o jogo vai muito bem, sua execução resulta em algumas opiniões divididas.

O 4 Leaf Studio não é nada senão um bando de voluntarios que se disponibilizou a fazer um jogo legal e isso implica em algumas coisas. O traço dos personagens, por exemplo, claramente não foi feito pela mesma pessoa e você pode notar divergencias. Isso não é ruim, no entanto, e de modo geral o jogo é visualmente bonito como as músicas (apesar de poucas) são bem gostosas.

Isso não impede dizer que o jogo todo tende a ter um ar de que podia ter sido melhor “polido”. Uma imagenzinha de background aqui, uma música que se repete ali, um menu que não é tão bem recortado quanto deveria… coisas que qualquer grande estúdio teria uma equipe de pelo menos 100 pessoas para fazer e que embora não comprometa a experiencia realmente impede de dar um 10/10 na questão mecanica do jogo.

O texto também, embora seja muito bem escrito de modo geral volta e meia pode escorregar em clichês e soluções narrativas desapontantes nos momentos decisivos. É claro que essa é uma analise comparando com excelência de literatura, se você comparar com o padrão do que é esperado de um anime por exemplo então a narrativa merece uma nota 11!

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CAMINHOS ALTERNATIVOS

A característica mais marcante da Visual Novel – que a diferencia em essencia de ser apenas um livro digital ilustrado – a escolha de opções é uma das partes mais bem executadas do jogo já que na verdade são 5 histórias diferentes que compartilham quase nada em comum. Não compartilham sequer o mesmo espaço temporal – algumas se passam dentro de um mes, outras ao longo de anos.

E o mais interessante disso tudo é que enquanto você está em um “caminho de história” eventualmente você cruza com as meninas das outras linhas de desenvolvimento e pode ver como a história dela se sairia sem a sua intervenção. A surpresa é que as vezes elas acabam se mostrando melhor sem o seu envolvimento, a narrativa não é o óbvio “cavaleiro branco salva a mocinha em perigo” e as vezes o interesse do protagonista acaba fazendo mais mal do que bem, o que condiz muito com a proposta do jogo (as meninas não necessariamente tem que ser “salvas” de seus problemas fisicos) e quebra o status quo esperado de uma narrativa.

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RESULTADO FINAL

Verdade seja dita, Katawa Shoujo não é nenhum fazedor de milagres.

Se você não realmente aprecia Visual Novels e histórias do tipo Slice-of-Life (o gênero que trata sobre o dia a dia da vida de alguém em específico, como até pode contar histórias referentes à um grupo de personagens ou a uma sociedade em especial – pelo qual eu tenho um fraco, reconheço que dei uma avaliação para Sword Art Online melhor do que ele faz por merecer por conta disso), eu não posso realmente dizer “OMFG LARGUE TUDO E LEIA ESSE JOGO PORQUE ELE É FABULOOOOOOSO”.

Entretanto se isso não é problema para você, por favor o faça. É uma experiencia bastante única.

Oito anos atrás eu perdi minhas pernas. E meu pai também.

Ele morreu a caminho hospital, eu sequer fui ao cemitério até dois meses depois,
e não pude comparecer ao funeral também.

Mas não me diga “eu sinto muito”. Isso é o que todo mundo diz, que eles “sentem muito”. Eu odeio ouvir isso, é como se alguém pudesse ter feito alguma coisa para mudar o que aconteceu mas não fez.

Sabe qual a melhor coisa que eu ouvi? “Essas coisas acontecem.”

Eu nem lembro quem disse, mas acho que quem falou apenas não conseguiu pensar em nada melhor para dizer.

Mas é verdade, sabia? Essas coisas acontecem, e não tem nada que você possa fazer a respeito disso. Elas não são necessariamente planejadas, e nem sempre são ruins, tampouco são boas. Elas apenas são.

Essas coisas acontecem.

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