[FINAL FANTASY XV] BROTHERHOOD e KINGSGLAIVE (ou saiba porque você faz o que você faz)

Continuando nossa série sobre FF XV, um ponto no qual eu bato frequentemente é que toda obra, seja qual for, tem que ter um propósito pelo qual ela foi feita. Isso pode parecer snobe da minha parte, como se eu quisesse que tudo tivesse um propósito artístico e existencial, mas não é isso. Eu exijo que uma obra tenha um propósito, mas esse propósito não precisa ser realmente complexo.

Por exemplo, Michael Bay gosta de explodir coisas. Ele quer fazer filmes como desculpas para explodir coisas, e em seus filmes coisas ele explodirá. Ok, isso é um propósito válido, é bom o suficientemente para mim. A questão existencial dos filmes dele está respondida – se vai ser bom ou não é outra questão, mas te garanto que, por pior que seja, ainda assim será melhor do que se tivesse sido feito por motivo nenhum.

Veja, por exemplo, os filmes da DC. Se você perguntar a qualquer um envolvido na produção deles porque aqueles filmes estão sendo feitos, a resposta mais honesta que você vai ter é que “vai dar dinheiro porque… Batman, né?”, e meio que isso é tudo. Tanto que o único filme realmente bom do DCverso é aquele que sabe responder a pergunta do porquê ele existe: Mulher Maravilha.

Ter um propósito não faz milagre por obra nenhuma, claro, mas sempre é um diferencial cavalar.

Por que eu estou falando disso? Porque Final Fantasy XV é complementado por duas obras acessórias. Uma delas não faz ideia de porquê veio a esse mundo, a outra sabe exatamente onde quer chegar. Pouco surpreendentemente, uma delas é uma perda colossal do seu tempo; a outra é um produto que enriquece toda experiência de Final Fantasy XV.

Ou seja, eu quero falar sobre o filme Kingsglaive e o anime Brotherhood: Final Fantasy XV.


Como eu expliquei na história de produção de Final Fantasy, o longa metragem Kingsglaive foi concebido como uma forma alternativa de contar uma porção da história que teria que ser cortada do jogo, e enquanto isso não é uma ideia ruim per si (alguns poderiam argumentar que exigir que o jogador assista um filme para entender um jogo de CINQUENTA HORAS é, sim, uma ideia bem ruim, ao que eu não vou defender enfaticamente também), na época que o filme começou a ser produzido não havia sido definido claramente que história era essa, não em maiores detalhes – ou mesmo detalhes cruciais.

Kingsglaive levou três anos sendo produzido – ou seja, a produção começou mais ou menos junto com a do próprio Final Fantasy XV em 2013 – e durante o seu curso de produção muitas coisas mudaram no conceito do jogo, outras foram completamente abandonadas. Em uma entrevista em 2015 (ou seja, apenas um ano antes do lançamento), Hajime Tabata disse:

“I joined about two years ago, and since then we have changed platform and we’ve also had a staff change in the team as well as revisiting what content and mechanics would be included in 15.”

Tradução livre:

“Eu me juntei [à equipe] dois anos atrás, e desde então tivemos uma mudança de plataforma e de equipe, assim como revisitamos que conteúdo e mecânicas seriam incluídas em [Final Fantasy] 15.”

O que nos leva a uma questão realmente importante sobre Kingsglaive: se o filme não ia mais ser a prequel para o jogo, porque os eventos do jogo ainda não estavam decididos, então ele ia ser o que, exatamente?

Essa é uma pergunta que ninguém na equipe de produção parece saber responder. O que a Visual Works (a divisão da Square-Enix responsável pelas animações em CGI) podia fazer era apenas embalar essa carcaça vazia com o pacote mais bonito que eles poderiam produzir, e torcer para que ninguém percebesse.

“Não, pode falar, to só ajudando o Goku a fazer uma Genki Dama aqui, mas já termino.”

Bem, com efeito, o visual de Kingsglaive é impressionante. Como as animações da Square costumam ser (e eu não consigo pensar em nenhuma empresa que tenha mais sucesso em produzir animações fotorrealistas, não-cartunescas, de humanos), o filme é um deleite para os olhos. E tem muitas coisas interessantes acontecendo: explosões, monstros gigantes, batalhas épicas, cenários incrivelmente bem detalhados… de se olhar, Kingsglaive é um investimento muito bem sucedido de 100 milhões de dólares.

E de se ouvir também, já que a Square não poupou despesas trazendo nomes de peso para dublar como Aaron Paul, Sean Bean e a Cersei como dubladora da Lunafreya because whadafuck.

Agora, fora os méritos visuais e os easter eggs para os fãs da série, meio que é só até onde o filme vai. Personagens de quem você não sabe muito (nem irá), em uma construção de mundo que não é explorada (nem vai ser), lutando por coisas que não são muito claras (nem serão abordadas novamente), por motivos que nem eles parecem ter certeza de quais são.

Olha o Diamond Weapon fazendo um bico para pagar as contas aí…

… e o Ultros também!

A ideia é interessante: o reino de Lucis tomou uma ruim do império de Niffelheim na guerra, e se escondeu atrás de uma barreira de energia erguida ao redor da capital. O resto do reino para além da capital não tem choro nem remendo e pau no cu de quem tá lendo.

Esse é um cenário interessante, porém, esse desenvolvimento nunca leva a lugar nenhum. Não é mostrado como exatamente é a vida de quem ficou do lado de fora da barreira, se eles estão sofrendo e, se estão… por quê? O que o império poderia possivelmente ter a ganhar sendo mau como um pica-pau depois que eles já tomaram as terras do reino, exceto pela capital?

Nada disso aparece no filme, e para piorar, quando o jogo saiu, todo esse desenvolvimento foi completamente apagado. As pessoas do lado de fora da capital, no jogo, estão super de boa, e não há resquício algum de guerra em lugar nenhum. Nada daquilo realmente aconteceu.

“Então meu dublador é aquele cara que morre em todos os filmes? Puta merda…”

Outra coisa que o filme não faz é explicar quem é o império e o que eles querem. Ok, eles querem o cristal de Lucis… Por que? O que ele faz? Pra que o império precisa dele se eles já dominaram o mundo inteiro, até onde se sabe? Nada disso é explicado, o filme só te diz que o cristal é importante because… MacGuffin.

Lunafreya, então, é pior ainda. O filme passa quase duas horas dizendo que ela é importante, mas não gasta nem 15 segundos explicando o porquê. Agora, depois de tudo dito e feito, é fácil entender porque isso foi feito: tudo que eles receberam da equipe que estava fazendo o jogo foi um papelzinho dizendo que Lunafreya seria importante e… é isso.

É curioso quando você compara que, em uma cena de 5 segundos, o jogo faz um trabalho muito melhor de explicar quem é Lunafreya, e porquê ela importa, do que o filme faz em 2 horas. Em uma das lanchonetes que Noctis e seus bros estão passando tem um rádio ligado, e dá nas notícias do rádio que, após o desaparecimento da Oráculo, depois do ataque a Insomnia, as pessoas começaram a fazer vigília na frente da loja onde estava o vestido de noiva dela. Simples, elegante, diz tudo que você precisa saber sobre a personagem em duas linhas.

Espera, eu conheço a tua voz de algum lugar… Fala “Science, bitch” ae!

Então, todo meu ponto é que Kingsglaive faz coisas visualmente espetaculares… com personagens que você não conhece, em um cenário de que não é explicado nada, por motivos que nunca são claros. E, claro, nenhuma dessas coisas está no filme, não porque o diretor era burro ou algo do tipo, mas porque eles não podiam colocar nada, já que a palavra do jogo deveria ser definitiva… E mesmo o pouco que eles colocaram é contradito pelo jogo. Realmente era muito pouco com o que se trabalhar.

Como filme, Kingsglaive é um fracasso de 96 milhões de dólares; como produto de marketing é um fracasso de duas horas da sua vida, que podiam ter sido tão melhor utilizadas…

Enquanto isso, no canto bem mais modesto do ringue, Final Fantasy XV possui outra peça promocional, e uma bem mais humilde em números: Brotherhood: Final Fantasy XV é um anime que teve 1/6 do tempo de desenvolvimento, e apenas um centésimo do orçamento do seu irmão mais velho.

E é uma obra infinitamente melhor.

Como um anime de 5 episódios de 10 minutos, produzido em apenas 4 meses, consegue fazer o que Kingsglaive não pôde com seus 100 milhões de dólares e 3 anos de produção? Por causa do que eu disse no começo desse texto: Brotherhood tem um propósito claro, Kingsglaive não (até tinha, mas o perdeu no meio do caminho).

A missão de Brotherhood é muito simples: responder a pergunta “quem são esses caras que eu verei pelas próximas cem horas de jogo (ao contrário do Iggy, que vai ver muito menos que isso XD), e porquê eu deveria me importar com eles?”. Brotherhood responde isso, tão bem quanto isso pode ser respondido em episódios de dez minutos (o que, se Steven Universe nos ensinou algo, é tempo suficiente).

Cada episódio é mais ou menos sobre os bros caindo na estrada (que é o que você vai fazer em 80% do jogo), entrecortados por flashbacks que contam mais sobre a relação de cada um deles com vossa realeza e best boy Nocto.

E aqui é onde Brotherhood tem o seu maior acerto, porque além dos estereótipos de bros, que o próprio conceito visual dos personagens já entrega (Gladio é o fortão, Iggy o intelectual, Prompto o teen energético, e Noctis é o brooding protagonist), uma camada humana é adicionada, dando profundidade aos personagens.

Gladio é o fortão descolado do grupo, sim, mas ele também é extremamente preocupado com a irmã, que ele teve que criar sozinho depois que seu pai morreu a serviço do rei. Ignis teve que crescer antes do tempo, ao ser encarregado de se tornar a “governanta” para cuidar da vida do príncipe, ainda bastante novo, um fardo com o qual ele lida com bastante orgulho, em seu jeito perfeccionista de ser. Prompto tem a história mais interessante de todas, na minha opinião: quando ele era criança ele era gordo e não tinha amigos, porém, por uma coisa do destino, a Oráculo em pessoa (ou em carta, mas, enfim) pediu que ele tentasse ser amigo do príncipe Noctis (então seu colega de classe). Prompto não se achava bom o bastante para ser amigo do príncipe, e mesmo alguns anos depois, quando ele perdeu bastante peso e tomou coragem de falar com seu futuro bro, às vezes ele ainda não se acha bom o suficiente – insegurança essa que ele tenta esconder tentando parecer mais descolado e barulhento do que ele se sente realmente.

Noctis, por fim, que nos primeiros trailers da época de Final Fantasy Versus XIII parecia um cópia perdida do Sasuke, acabou se mostrando muito melhor do que isso. Sendo o príncipe de uma nação em guerra, ele carrega o peso do mundo em suas costas muito antes da puberdade. Seu país está perdendo feio a guerra, seu pai está morrendo, e eventualmente toda essa merda vai cair nas costas dele. No entanto, ele não reclama. Ele faz o melhor que pode sem incomodar ninguém, porque ele é o futuro da nação, as pessoas esperam coisas dele, e ele não tem o direito de se sentir cansado ou triste na frente de ninguém. Exceto por seus três irmãos de viagem.

Com ISSO eu posso trabalhar. ISSO é algo com o qual eu posso me relacionar, esses são personagens com os quais eu posso me importar. Não são apenas estereótipos de animes, esses bros tem coisas que eles querem além do plot básico de vencer o mal, eles têm coisas que temem, têm inseguranças contra as quais eles não podem contar com mais ninguém senão uns com os outros.

ISSO é o que poderia fazer Final Fantasy XV verdadeiramente funcionar, e esse é o conceito que Brotherhood passa tão bem. O jogo pode não ter uma grande história com eventos épicos, devido a todos os seus problemas de produção, que eu expliquei anteriormente, mas, se tiver esses quatro camaradas juntos contra tudo que a vida tiver para jogar contra eles, então, essa pode ser genuinamente uma fodástica experiência.

Kingsglaive pode ser um desperdício de recursos e tempo, mas Brotherhood (justamente por ter sido feito depois do jogo estar pronto) entende perfeitamente qual pode ser a graça salvadora em meio a todos os problemas de Final Fantasy XV. Qual destes dois Final Fantasy XV acabou se provando ser?