[FILMES] ROBIN HOOD: A ORIGEM (ou não foi apenas por 20 flechadas)

Se me perguntassem o que eu esperaria do ungentilhésimo filme do Robin Hood (tendo muitos outros ainda em produção), certamente a última coisa que eu diria é: “uma ideia original”. Bem, acreditem ou não, o arqueiro dos tempos em que não existia saneamento básico, mesmo para os ricos, tem um filme com algumas boas ideias… Mas isso é suficiente?

Todo mundo conhece a história de Robin de Loxley: ele era um nobre bretão que foi convocado para lutar nas Cruzadas porque, hey, se matar por causa de religião sempre é uma boa ideia. E, quando volta, o xerife de Nottingham tomou sua fortuna e sua coleção de tazzos. Esse filme não faz nada diferente disso… até que a guerra começa. O grande truque aqui é… o que são as Cruzadas, em sua essência? Ora, ocidentais que falam inglês se metendo no Oriente Médio.

Agora… onde a gente já ouviu falar de uma coisa assim? Ah, é mesmo… apenas todo dia durante os últimos vinte anos!

A guerra que Robin luta é uma guerra moderna no Oriente Médio, com snipers, granadas, muita poeira e pipoco de tiro arrebentando o cenário de guerrilha urbana. A diferença é que isso é reproduzido com a tecnologia da época. Quando o capitão diz para ele acabar com o sniper com a metralhadora na casamata para eles tomarem uma rua, o cara está usando uma besta repetidora, mas a mensagem visual é bem óbvia.

Soldados medievais ou tropa de choque da polícia do século 21? Por que não ambos? A moda de repressão do camarada Estado é atemporal!

ESSE é um caminho que eu realmente não esperava: usar a tecnologia da época para reconstruir cenas modernas é uma ideia realmente nova em se tratando de Robin Hood, afinal. Outro bom exemplo é que, no final do filme, tem uma cena de confronto da população contra a tropa de choque da polícia, com aqueles escudões, gás lacrimogênio e spray de pimenta, enquanto a população revoltada abusava de pedras e coquetéis molotov.

Então, o conceito do filme tem boas ideias e. jogando suas cartas direito. Hood Begins poderia ser um bom filme com criticas sociais em uma pegada revolucionária sobre coisas erradas que estão aí desde a Idade Média. Certamente os créditos de abertura e encerramento do filme vendem essa ideia de que é assim que as coisas foram pensadas para rolarem…

… exceto que alguém esqueceu de avisar o diretor Otto Bathurst (em seu primeiro trabalho para o cinema, tendo dirigido alguns episódios de Peaky Blinders e Black Mirror antes) disso. Porque, apesar do começo e do fim do filme, todo o grosso miolo da película de revolucionária, punk rock e anarquista não tem nada.

Tem muita pouco de qualquer coisa, na verdade. Dos seus 116 minutos de duração, pelo menos 90 são apenas um grande episódio de Arrow que, por acaso, é ambientado em Nottingham. Se você desse 100 milhões de dólares para a Warner fazer um episódio de uma hora e meia de Arrow, eu diria que o resultado seria bem parecido com o que vemos aqui.

Vê, Robin de Loxley é um nobre (que é o equivalente da época para ser um milionário hoje) que, em eventos sociais, senta à mesa com outros nobres de Nottingham, e durante a noite é o misterioso bandido conhecido apenas como “Hood”. O filme não faz nenhum esforço para tentar esconder que quer promover Robin Hood a um vigilante moderno, e eu realmente fiquei esperando a hora que Robin diria a algum nobre que ele estava roubando que “ele falhou com essa cidade”

Não ajuda muito que isso não faça o menor sentido, no entanto. A fim de se infiltrar e ter acesso a informações privilegiadas, Robin compra as boas graças do xerife de Nottingham com doações (usando o dinheiro que ele mesmo roubou), mas, por algum motivo que não faz sentido nenhum, em momento algum o xerife se pergunta da onde está saindo aquele dinheiro todo. Ora, se ele confiscou todos os bens da família Loxley quando Robin foi para a guerra, então, da onde Robin está cagando dinheiro para doar? Da sua conta secreta na Suíça? Da sua carteira de bitcoins? Não faz sentido.

Claro que, como o bom episódio de Arrow que tenta ser, o filme ainda é inchado por um romance mais forçado que qualquer coisa que a Warner já tenha conseguido pensar (Sério, Robin e Marian só não ficam juntos BECAUSE DRAMA MUAHAHA. S filme sequer se esforça para dar um motivo).

Falando em Marian, é engraçado como o filme tenta fazer dela menos uma mocinha em perigo e mais uma mulher forte e independente, para não soar tão rude às necessidades moderna… mas sem dar nenhum destaque a ela ou função relevante. O filme meio que diz para ela “claro, você é super independente, forte e merece respeito… Agora, senta ali no canto até você pode ser útil aos homens que são os protagonistas aqui, tá bom?”. O mesmo pode ser dito de John (Jamie Foxx), que luta melhor que o Robin, tem mais dedicação à causa, tem um conhecimento tático melhor, mas não é o protagonista porque… bem, todo mundo sabe o porquê. DICA: se você não quer que o personagem negro seja o protagonista por qualquer razão que você não queira, NÃO faça ele ser melhor e mais capacitado que o herói do filme em todo e qualquer aspecto. Funciona melhor assim, acredite.

Quase me senti assistindo um episódio de Glee, mas, enfim…

E, ainda falando sobre o bando de homens alegres de Robin, quanto menos se falar sobre Will Scarlet e seu arco de personagem completamente incompreensível, melhor.

Porque todo mundo sabe que ser um líder sindicalista é uma forma muito pouco eficiente de se obter riqueza e poder político e… Oh, espera…!

Esse péssimo uso do roteiro acaba fazendo com que quase todas as ideias de usar figuras modernas sob a roupagem da época (que são boas!) acabem sendo pessimamente executadas. Seja o próprio “Rob” (como um tiozão tentando ser descolado, ele insiste em ser chamado assim) fazendo um discurso sobre “redistribuição de riqueza”, as alusões sobre o abuso dentro da Igreja Católica (da qual o xerife é uma vítima), ou o xerife de Nottingham usando frases do George Bush e Donald Trump, Robin Hood tenta muito ser subversivo, porém, acaba soando apenas como aquele adolescente que critica o capitalismo, mas vai todo dia para a universidade na Hilux do papai.

Como eu disse, usar elementos modernos em um cenário medieval para mostrar o que tem de errado com a nossa sociedade hoje é uma ideia muito boa, mas ela tem que ser executada com um mínimo de competência – e esse nível de qualidade é alguma coisa acima do nível de “série da Warner”. Robin Hood não é um bom filme como critica social. Ou um bom filme de Robin Hood. Ou um bom filme.