[FILMES] POWER RANGERS (ou o Clube dos Cinco com robôs gigantes)

Um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um rebelde.

Um dia cinco adolescentes com as vidas bastante fodidas (por motivos bastante diferentes) se encontram na detenção. Dali nasce uma amizade única, daquelas que só pode existir quando se percebe que eles realmente só tem uns aos outros nesse mundo. Talvez não para sempre (e o que realmente é para sempre, né?), mas por aquele curto espaço de tempo eles se tornam tão amigos quanto se pode ser. E então eles pegam seus robôs gigantes na forma de animais do cenozoico e salvam o mundo.

Se isso não é a descrição de um filme incrível, então eu não sei mais o que poderia ser.

O filme abre com uma cena que é uma referencia àquele curta sombrio de Power Rangers que ficou famoso. O produtor daquele curta, alias, é o mesmo de Dredd e Castlevania. Das coisas que Adi Shankar pode ser acusado, não saber montar um mundo cão interessante não é uma delas E ele dirigiu Castlevania, aliás.

De todas as coisas que eu não esperava assistindo um filme dos Poderosos Morfantes Defensores do Poder em 2017 foi que o filme se baseasse firmemente em um dos melhores filmes dos anos 80. A outra é que eles quase não aparecessem como “Power Rangers“, exceto no final do filme.

E surpreendentemente isso funcionou de uma forma que eu não esperava que fosse funcionar. Mas vamos começar do começo.

Power Rangers é na verdade sobre cinco adolescentes que estão com a vida absurdamente fodida. Jason tem ficha criminal e usa tornozeleira eletrônica antes dos 18 anos por causa de uma imbecilidade de adolescente; Kimberly é conhecida na cidade toda (que é uma cidade pequena, onde todos se conhecem) como a filha da puta que espalhou nudes da coleguinha por causa de um macho qualquer; Trini é homossexual em uma família tão tradicional que não só vota no Trump como certamente já pediu sua cidadania brasileira para votar no Bolsonaro em 2018; Zack tem uma mãe doente para cuidar e ninguém que possa fazer isso no lugar dele; Billy tem síndrome de Asperger.

Não tem nada de absolutamente fora do normal aí. Poderia ter acontecido comigo ou com você. Diabos, certamente aconteceu (em maior ou menor grau) comigo ou com você. Se um dos grandes dos motivos do Clube dos Cinco ter funcionado tão bem nos anos 80 é que podia ser qualquer um de nós naquela sala de detenção. Power Rangers em 2017 evoca essa mesma sensação. Poderia ter sido qualquer um de nós.

Por um motivo sobrenatural – que é onde a parte “Power Rangers” do filme entra – os cinco jovens são forçados a trabalhar juntos, mesmo depois das horas de detenção. Yeah, yeah, eles precisam treinar juntos para derrotar o mal e salvar o mundo, mas surpreendentemente essa é a parte menos interessante do filme.

– I’m the one who knocks, Jason!
– O senhor é uma parede, senhor White.

Mas, falando sério, Bryan Cranston aceitou participar desse filme porque, no começo da sua carreira, um dos primeiros trabalhos que ele teve foi como dublador de vilões de Power Rangers, em uma fase da sua vida muito difícil, quando ele ainda não era mega famoso, e precisava contar as moedas para comprar miojo fiado.

É no relacionamento interpessoal dos jovens que o filme tem sua maior força, e a atuação dos atores está acima de qualquer expectativa que eu poderia ter. Billy (interpretado por RJ Cyler), por exemplo, é o alívio cômico E o compasso moral do grupo ao mesmo tempo. Sério, narrativamente isso é uma coisa muito difícil de fazer, e por isso tão poucas histórias ousam juntar os dois no mesmo personagem. Aqui a coisa flui com maestria.

Billy é o melhor personagem do filme, mas todos os rangers funcionam muito bem. Você torce por eles, você quer que eles vençam não só a luta contra monstros de CGI, mas as lutas em suas vidas. Ser olhado com respeito pelo seu pai é emocionalmente mais importante do que derrotar monstros.

E é por isso que o final do filme, só no final, quando eles finalmente se transformam em Power Rangers, é tão gratificante. Você se importa com aquelas pessoas, você torce por elas, você quer que elas usem um tiranossauro-robô para escalar um monstro de trinta metros de altura e dar porrada.

– Jason, não come isso, vai te dar câncer!
– Essa porra tá brilhando, cara!
– Quando vocês acharem uma Trakinas no chão, vocês fazem as regras.

Quando, depois de quase duas horas, os cinco zords finalmente correm juntos ao som da música tema da série, eu quase chorei. Foi lindo. De verdade.

Dito isso, o filme não vai sem alguns problemas, entretanto. Embora ele seja muito inspirado no Clube dos Cinco e evoque seus sentimentos – e tenha atores tão bons quanto – ele nem de perto é tão bem escrito quanto o clássico dos anos 80. Algumas falas, e pior ainda, algumas resoluções de conflitos emocionais são meio clichés e/ou um tanto mal escritas.

O que eu quero dizer é que Power Rangers tem o coração no lugar certo, mas sua execução não pode ser chamada de perfeita. Não é um clássico do cinema, mas é um filme putamente divertido de se assistir, e mais bem feito do que você poderia esperar. Tipo, a luta do robô gigante não é nenhum Pacific Rim, mas você torce e se diverte – meio é o que importa, não?

Outra grande inspiração do filme foi Voltron da Netflix. E quando você inspira o senso de humor e diversão do seu filme em algo feito pelos criadores de Avatar, você está fazendo certo. Taí, “Clube dos 5 encontra Voltron” é a descrição perfeita desse filme.

Ah sim, uma última coisa que eu queria falar era sobre os uniformes dos rangers. Quando eu vi nos trailers, eu achei bastante ruins, na verdade, piores até que o do filme de 1994. Parecia uma coisa alienígena e estranha, sei lá… Mas, então, o filme abre com uma proposta que justifica isso: as armaduras dos rangers SÃO uma coisa alienígena, tipo literalmente. Elas foram originalmente feitas para uma raça que não tinha apêndice, então faz TODO SENTIDO elas parecerem aliens. É o que elas são, afinal.

Quando você gosta da coisa, eu não diria que ser imprensada na parede pela Elisabeth Banks é a pior coisa que poderia te acontecer…

Já os zords… infelizmente essa parte não ficou tão legal. Claro, eu adorei o conceito de que eles são robôs que assumem a forma do animal mais poderoso do planeta em que se encontram. Ok, cool, mas o problema é a execução. Eu me senti assistindo Transformers, porque até agora eu não entendi que diabos de animal o do ranger preto deveria supostamente ser.

Assim como nos filmes do Michael Bay, as cenas de CGI são confusas, e as vezes é difícil entender o que está acontecendo na tela, além dos zords parecerem um monte de peças sem identidade visual (sério, quem consegue diferenciar os Transformers do Michael Bay que não seja pela cor está de parabéns). Inclusive o Megazord parece muito mais com o Optimus Prime do que com uma fusão dos zords originais. Um visual mais clean teria feito maravilhas, tal qual em Transformers.

Outro problema do filme seria que a Elizabeth Banks está esquisita como Rita Repulsa, porque a coisa de “vilã cracuda louca” é muito destoante do resto do filme. Ela funcionaria na série de TV, mas aqui ficou meio cartoon demais. Pelo menos a cara dela de “uatarrel, eu devia ter lido a porra do manual…” quando eles formam o Megazord é impagável

Mas eu disse “seria”, porque assistindo o filme fica claro que a Elizabeth Banks está se divertindo tanto fazendo aquilo, que você fica com pena de todos no filme que não são ela, incluindo a platéia. Ela é uma bruxa alienígena com um cetro que está obcecada com cristais e ouro, e acaricia agressivamente o rosto de alguém com longas garras com ponta de ouro. Meio que é para isso que alguém se torna ator, não?

Para um filme que poderia passar por um caça-níquel de reboot desesperado, Power Rangers tem realmente o coração no lugar certo. Quem diria, hã?