[FILMES] ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS CRIMES DE GRINDEWALD (ou “O Hobbit” de “Harry Potter”)

Existem algumas cenas no cinema que são capazes de nos deixar horas sem dormir, até mesmo noites inteiras. Este filme tem uma dessas, porque nele eu vi uma coisa tão perturbadora, tão fundamentalmente errada à própria trama do universo, que no dia que eu assisti não consegui dormir antes das duas da manhã.

Estou falando, é claro, que “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald” tem uma personagem que é meia-elfa. Sim, exatamente isso. O horror, ó, o horror! Pois é.

Agora, muitas pessoas no cinema não pararam para pensar no que isso realmente significa (ou para pensar na maior parte das coisas – esse é meu maior poder e minha maldição), e possivelmente você não tenha entendido o que de tão terrível e perturbador tem nisso. Então, permita-me ilustrar a situação: algum ser humano, em uma terça-feira modorrenta, olhou para ISSO…

… e pensou NISSO:

Sério, alguém apenas me explique COMO isso aconteceu! Como um bruxo, ou bruxa, olhou para um ELFO DOMÉSTICO e pensou: “hoje tem, papai!”. Pelas bolas balançantes de Aslan, isso é errado, muito errado!

A boa notícia é que o filme não entra em maiores detalhes sobre a origem dessa personagem. A noticia ruim é que essa é a coisa mais interessante do filme inteiro. Daí para frente é só ladeira abaixo.


Ok, suponho que eu esteja sendo um pouco mesquinho com o filme. TODAS as atuações são muito boas e divertidas no que se propõe a fazer.  Eddie Redmayne está mais confortável do que nunca na pele do Lufa-Lufa exemplar Newt Scamander, e toda coisa sobre como ele se sente mais confortável com monstros do que com gente é elevada a uma atuação que só um ganhador do Oscar pode entregar.

Dumbledore com a serenidade e o sorriso no olhar de quem praticou o bom e velho “peidei e vazei”

Jude Law, para grande alivio de todos, está perfeito como o “jovem” Dumbledore, realmente convencendo a qualquer um que assista que ele é o mesmo Alvo de sempre, só que com 50 anos a menos. Show de bola. E, por imparível que incressa, Johnny Depp está também muito bem como o vilão Grindewald. Não, é sério mesmo. Talvez pela primeira vez em uma década (ou duas), ele decidiu que ia parar de só interpretar o Jack Sparrow para nos lembrar o quão bom ator ele realmente é. O seu Gerardo Grindewald (não olhem pra mim, essa é a tradução brasileira do nome!) é um nazista filha da puta (ou o equivalente bruxo disso, no caso), claro, mas é um filho da puta altamente inteligente. Diferente de ser outro Voldemort, que é basicamente um vilão de anime a ser derrotado no 1×1, Gerardo – apesar de ser um bruxo muito poderoso – não pretende vencer o mundo na força bruta. Ao contrário, ele usa doses cavalares de populismo e frases de efeito, como vemos por aí na boca de tantos políticos hoje em dia.

Melhor ainda: o que ele diz não está tecnicamente errado. Sabe aquela famosa frase que diz: é possível contar uma mentira apenas dizendo verdades? Pois é, o maior talento de Gerardo é justamente esse e, honestamente, é uma atuação deliciosa… nos 15 minutos que ele aparece na tela. Na verdade, ele aparece tão pouco que mal tem tempo de cometer algum crime! Espera, não era sobre isso o filme? Bem, aparentemente não. A maior disputa em tela é para ver o que filme tem menos: animais fantásticos ou crimes de Grindewald. Em ambos os casos a contagem é bem baixa, e bem pouco relevante em todas as oportunidades.

Sério, 1/3 dos animais fantásticos do filme estão nessa cena

O meu ponto é que isso prova o quanto a J.K. Rowling amadureceu como escritora. E eu apenas imagino como seria interessante se ela escrevesse a série Harry Potter com um vilão bem construído como antagonista. Mas divago.

Então, sim, as atuações são todas muito boas, tanto quanto os animais fantásticos do título – que, embora não sejam tão criativos quanto do primeiro filme, ou em mesma quantidade, ainda assim é fantasia da boa, saiba você.

Então,neste ponto você pode estar se perguntando como todas estas coisas se conectam no filme, e a resposta que eu posso te dar é… não.

COMO ASSIM, “NÃO”?

É. Apenas não.

MAS “NÃO” O QUÊ?

Não nada. Ou melhor, não tudo. O filme não conecta. É apenas um amontoado de cenas soltas que, enquanto individualmente interessantes, não levam a lugar nenhum. Ou têm qualquer propósito maior, na verdade.

AH TÁ! COMO SE A J.K. ROWLING FOSSE ESCREVER UM FILME DE 2H13M APENAS COM FAN-SERVICE E ENCHEÇÃO DE LINGUIÇA!

Não, claro que não. Uma escritora do gabarito dela jamais faria tal coisa!

A-HA!

São apenas duas horas de fan-service. Os treze minutos finais contam alguma história relevante para a franquia… embora pudessem ser resumido em um prólogo de três frases na tela, na verdade.

Eis aqui o que acontece: em primeiro lugar, todos os eventos do primeiro filme são desfeitos antes de 15 minutos de exibição. Gerardo está solto novamente; Creedence Clearwater dá um revival sem explicação nenhuma; Jacob recupera sua memória apenas porque sim; e Newt ainda é tratado como um bostolão esquisito pelos outros bruxos. É uma coisa fantástica quando você pensa sobre isso, porque em menos de 15 minutos a J.K. conseguiu apagar todo e qualquer progresso feito no primeiro filme e, de fato, se ele nunca tivesse existido AS COISAS SERIAM EXATAMENTE IGUAIS!

Mas, puta merda, conseguir fazer um filme retroativamente pior não é tarefa para qualquer um! Parabains, minha senhora!

– Já te ocorreu que é estranho que o ponto do vilão é que os bruxos têm um puta trabalho para se esconder dos trouxas sem motivo nenhum… e não é dado motivo nenhum mesmo?

– Se o primeiro filme, que estabelece o cenário, não tocou nesse assunto, agora já tarde demais.

– Mas, sério, não faz sent…

– Shhh, esse filme vai fazer um bilhão de bilheteria só pelo titulo. Apenas blogueiros esquisitos sem amigos se importam com essas coisas

– Verdade. Por que ele não está no YouTube como todo mundo descolado?

Enfim, depois que o filme termina de apagar tudo que aconteceu no filme anterior… meio que nada acontece de importante daí pra frente. O grupo de heróis se separa e passam as próximas duas horas procurando uns pelos outros. Na verdade o filme todo é sobre gente procurando outra gente.

Gerardo quer o Creedance Clearwater Revival; o CCR quer encontrar alguém que saiba sobre a origem dele; Newt quer encontrar sua peguete aurora; Jacob quer encontrar sua peguete legitimante; a citada peguete aurora quer encontrar Creedance; a outra citada peguete legitimante quer encontrar Hitler bruxo e ouvir sua proposta de um reich de mil anos; a Lestrange, que pode ou não ser do bem, quer encontrar Creed também; Dumbledore quer encontrar Newt, para que ele saia na vara com Gerardo em seu lugar… e assim o filme vai. Todo mundo rodeando todo mundo sem ninguém chegar a lugar algum realmente.

Para ter uma ideia de como a coisa é bagunçada, na finaleira, quando as pessoas que queriam realmente se achar finalmente se acham, então o grande mistério do filme, que supostamente deveria conectar todos os personagens (mas que até aquele ponto não fazíamos sequer ideia de que havia um mistério conectando eles, em primeiro lugar), é apenas vomitado na tela em um flashback expositivo.

Eu não estou brincando. Sabe mestre de RPG ruim, que percebe que o grupo não está conseguindo entender a trama, então desiste e apenas conta o que aconteceu? Pois é EXATAMENTE o que aconteceu aqui. Sério, eu não esperava algo tão tosco de uma escritora tão boa quanto J.K. Rowling.

Sério, Joana, tu estás bem? Precisa de uma água? Um chá? Acho que tu não deve estar dormindo direito por falta de espaço no teu quarto, devido a tanto dinheiro que tu tem. Só pode ser isso…

Então, o filme é basicamente isso. Personagens rodando e rodando e rodando sem muita coisa que os ligue, a câmera apenas indo de lugar para lugar, mostrando o mundo bruxo de Paris, e todo fan service que você puder imaginar.

Honestamente, achei pouco criativa essa visão do Dumbledore no espelho de Ojesed. Eu ainda prefiro essa:

O que não é ruim, per se, já que J.K. é uma das melhores escritoras da nossa geração e não desaprendeu a escrever cenas. Todas as cenas são, individualmente, interessantes. Os fan services de Hogwarts, Nicolau Flamel, ou onde aparece a Nagini são todos bem escritos, apenas são… inúteis. Talvez sejam relevantes no próximo filme, ou daqui a dois ou três, mas, por hora, é apenas um exercício de fan service. Se isso for suficiente para você, apenas ver duas horas de fan service sem maiores consequências, então compre dois ingressos para ver o filme, sair da sessão e já ver de novo. Agora, se você espera algo mais que isso…

Bem, eu disse que todas as cenas do filme são, ainda que irrelevantes, bem escritas. O que é verdade, exceto a última. O filme termina com um plot twist tão tosco, e que faz tão pouco sentido (sério, a quantidade de coincidências necessárias para aquilo ter acontecido ultrapassa o ridículo), que a maioria das fanfics teria vergonha de colocar aquilo na história. Deus, que coisa brega, tosca e desnecessária aquele final…

Se eu não soubesse melhor, eu juraria que esse filme é uma adaptação ruim de um bom livro. O enredo geral tem uma ideia que pode funcionar, mas ela é tão mal desenvolvida que parece que muita coisa se perdeu na “adaptação”. A maioria dos personagens poderia ter tido mais tempo para caracterização, ou deveria ter sido cortada inteiramente. Claro, eu sei que Animais Fantásticos é um roteiro original e não um livro adaptado, mas parece que ninguém explicou a diferença para a J.K..

Enfim, a julgar pelo que vimos até aqui, essa série Animais Fantásticos parece ser para Harry Potter o O Hobbit foi para O Senhor dos Anéis: um exercício de fan-service sem aparente propósito maior do que encher a burra de dinheiro com qualquer coisa que levar o nome da marca. Até os filmes se parecem bastante: o primeiro tem uma construção de mundo e apresentação de personagens super ok, que promete ser o começo de uma aventura interessante, apenas com uma falha bastante incomoda, porém, ainda assistível (Peter Jackson não saiba quando enxugar o filme, e a J.K. não sabe explicar o porquê do conflito central). O segundo filme da série, no entanto, é um exercício de futilidade que poderia ter sido facilmente substituído por um prólogo super simples.

Claro, verdade que a J.K. ainda escreve muito melhor do que o estagiário pra quem o Peter Jackson deu um sanduíche de mortadela para escrever o roteiro do filme para ele, e por isso Animais Fantásticos 2 é assistível – o que é mais do que pode ser dito do segundo filme d’O Hobbit, apesar de todos os esforços do Martin Freeman em salvar aquele acidente nuclear.

Outra comparação que você pode fazer, se quiser, é com Jurassic World: The Fallen Kingdom, e, honestamente, nesse ponto você deveria seriamente parar e repensar suas escolhas de vida…