[QUADRINHOS] Batman Incorporated #8 – A Edição Que Mudou Tudo Nos Quadrinhos do Cavaleiro das Trevas!

Batman Incorporated (2012-) 008-000a

Você, leitor de quadrinhos que acompanha os lançamentos conforme eles saem lá nos Estados Unidos, já deve ter lido a edição acima. Se você acompanha notícias sobre as HQs da DC Comics talvez já saiba do que rolou em mais este capítulo do título da Corporação Batman. Agora se você não se encaixa em nenhum dos casos, talvez se surpreenda com o que estou prestes da dizer…

[SPOILERS BOMBÁSTICOS A SEGUIR]

MAIS UM ROBIN MORREU!

Anos depois de sofrer com a perda de Jason Todd, o segundo Robin, Batman terá que lidar com a morte de mais um seus pupilos, mas desta vez tudo promete ser mais dramático, as feridas mais profundas e os efeitos sobre a vida do herói mais devastadores.

Para quem anda desinformado sobre o que aconteceu nas HQs do Batman nos últimos seis anos e meio, o Robin atual se chama Damian Wayne. Não, você não leu o nome errado, ele é mesmo um Wayne e, mais do que um parente, é o filho biológico de Bruce.

O primeiro encontro de Batman com Damian.

O primeiro encontro de Batman com Damian.

A origem do garoto é, em parte, explicada na graphic novel Batman – O Filho do Demônio, publicada em 1987 (e republicada em setembro de 2012 pela Panini). Na história Batman e Talia al Ghul, filha do vilão Ras al Ghul, têm uma “noite de amor” no deserto e ela engravida. No final da história a criança nasce, mas logo é deixada num orfanato, onde é adotada por um casal de ocidentais (Talia e seu pai são do oriente). Acontece que a DC descartou este fato da cronologia oficial, mas Grant Morrison, que adora fuçar em histórias antigas atrás de idéias para novas tramas, tirou proveito deste gancho e criou um personagem a partir dele, dentro da cronologia atual. O autor apenas descartou o detalhe da adoção, e no lugar disto definiu que a gestação de Damian foi feita em laboratório, sob rígida supervisão da própria Talia, que tinha planos para a criança.

O primeiro arco de histórias de Morrison na série principal do Batman teve um título que não deixava muitas dúvidas a respeito do que se tratava “Batman e Filho”. É nele que o personagem foi introduzido, e desde então ele só cresceu em participação e importância na vida de Bruce Wayne e seus aliados.

Quando Batman foi dado como morto após a saga Crise Final, também escrita por Morrison, Damian se destacou ainda mais ao tornar-se o novo Robin da nova Dupla Dinâmica, cujo Batman era Dick Grayson, o primeiro Robin, atual Asa Noturna, que na época assumiu o lugar de Bruce.

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Dick Grayson e Damian Wayne como Batman e Robin.

Com o retorno de Bruce Wayne, Damian continuou como Robin, gerando uma nova dinâmica entre a dupla que ganhou em profundidade, pois nunca um Menino Prodígio foi tão intimamente ligado ao Batman como ele. Paralelo a isto o Cavaleiro das Trevas resolveu expandir sua marca, emprestando seu nome para uma corporação de combatentes do crime, a Corporação Batman. Sua criação gerou uma espécie de “gêmeo maligno”, a organização criminosa conhecida como Leviatã, que no final de Corporação Batman – Volume 2 (publicado no Brasil pela Panini em maio de 2012) teve a identidade do seu líder revelada: Talia al Ghul!

Depois disto ocorreu o reboot da DC, vieram os Novos 52, mas nada disto, felizmente, afetou os planos de Grant Morrison para o gran finale de seu run como escritor de algumas das histórias mais importantes do Batman nos últimos anos. Tudo, no final, acaba se revelando como uma briga de família que toma proporções épicas e megalomaníacas, ameaçando Gotham City e o mundo inteiro.

Não vou entrar em detalhes sobre o que rolou nas edições anteriores da série, pois em breve escreverei uma matéria caprichada e detalhada sobre ela, para acompanhar o lançamento do Volume 3 pela Panini, que acontecerá ainda este mês. Mas, dado o impacto do ocorrido nesta edição, e sua repercussão, me senti na obrigação de comentar um pouco a respeito da decisão tomada por Morrison com relação ao destino do personagem.

Damian e a já famosa cena da Bat-Vaca

Damian na já famosa cena da Bat-Vaca

Li comentários de leitores que ficaram revoltados com a morte de Damian, e sobre isto eu digo que entendo o lado deles. O garoto, em suas primeiras aparições, era bem antipático e metido, e de certa forma ainda é, mas aos poucos ele foi conquistando a admiração de vários leitores conforme revelava que, por trás de sua arrogância, há uma criança que foi forçada a amadurecer rápido demais, aprendeu a admirar a luta do pai contra o crime, e desde então só quer fazer o bem, não importando a que extremos deverá chegar para impedir que o mal se espalhe. Além disto, Damian foi um dos Robins mais “enérgicos”, digamos assim. Ele é mais violento e impulsivo que seu pai, o que rendia conflitos interessantes entre os dois, e também entre ele e Dick Grayson, na época em que foram parceiros. Há muito tempo não se via um Robin que chamasse tanta atenção quanto o Batman, e que fosse tão interessante quanto ele, e Damian conseguiu esta façanha.

Esta nova fase da Corporação Batman, pós-Novos 52, apesar de não ter sido diretamente afetada pelo reboot da DC, sofreu uma mudança de foco para abarcar os temas centrais da reta final do run de Morrison com o personagem. Absolutamente tudo que o escritor escreveu anteriormente desemboca neste conflito que, apesar de envolver dezenas de heróis e vilões e milhares de agentes da Leviatã espalhados por Gotham é, em sua essência, uma disputa entre pai, mãe e filho.

Na fatídica edição lançada esta semana a situação é a seguinte: Gotham City enfrenta uma turba de crianças anarquistas armadas (!) controladas pela Leviatã no centro da cidade, enquanto Batman está preso dentro de um cofre no fundo de uma piscina no topo da Torre Wayne, que foi dominada por Talia e vários agentes de sua organização, incluindo o Herético, clone adulto de Damian criado por Talia para substituí-lo como herdeiro do império global que está disposta a criar. Para quem pegou o bonde andando boa parte do que descrevi agora pode soar como um absurdo sem tamanho, mas acredite, para chegar a este cenário Morrison encandeou os fatos muito bem e de maneira brilhante, como espero esclarecer na futura matéria sobre a série que escreverei.

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Damian Wayne em sua última parceria com Dick Grayson.

O que importa saber agora é que Morrison fez jus ao personagem que criou, e deu a ele alguns de seus melhores e mais emocionantes momentos em sua última atuação. Numa edição em que três dos Robins mais conhecidos (Dick Grayson, Tim Drake e Damian Wayne) atuam juntos para recuperar o controle da Torre Wayne, o garoto se destaca com sua inteligência aguda, seus golpes precisos e comentários afiados; tem uma última e nostálgica parceria com o Asa Noturna; e uma luta brutal contra seu clone maligno, brilhantemente desenhada por Chris Burnham, que fez do momento mais intenso do combate um painel frenético cheio de referências a momentos clássicos e marcantes do Batman nos quadrinhos, que será a alegria dos leitores mais atentos por um bom tempo.

Como já vinha fazendo desde que escreveu o título solo do Batman, e continuou ao criar as séries Batman e Robin e Corporação Batman, Morrison fez desta edição uma síntese do que vinha desenvolvendo. É uma daquelas histórias cheias de cenas emblemáticas que remetem a momentos dos últimos seis anos e meio dos títulos que escreveu. A morte de Damian é mais uma das pontas soltas que o escritor amarrou nesta reta final de seu trabalho com o “Batverso”, muito apropriada quando levado em consideração que Morrison é um autor que gosta de fechar ciclos antes de deixar uma série. Se lá no começo ele introduziu um personagem que mudou muito da dinâmica do mundo do Cavaleiro das Trevas, é justo que caiba a ele a decisão de dar um fim à vida deste Menino Prodígio que criou e com o qual cativou muitos leitores, e com isto armar o cenário para a conclusão de seu longo trabalho com o Batman. As próximas quatro edições de Batman Inc, as últimas escritas pelo autor, prometem abordar os efeitos do ocorrido na vida do herói, e na forma de atuação que ele adotará daqui pra frente, e já foi dito pela DC que todos os demais títulos ligados ao Batman serão afetados de alguma forma por mais esta tragédia na vida do Cavaleiro das Trevas.

Parabéns a Grant Morrison por esta nova virada de jogo que promoveu.

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