[EVENTOS] Minha experiência na Comic Con Experience 2015

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Entre os dias 3 e 6 de dezembro de 2015, rolou aqui em São Paulo a tão aguardada Comic Con Experience. Em sua segunda edição, o evento reuniu nerds, geeks, freaks e filas. Organizado pelo site Omelete em parceria com a Chiaroscuro Studios, esta edição da feira trouxe nomes de peso como David Tennant, Krysten Ritter, Frank Miller, Mark Waid e outras celebridades do mundo pop. O Nerd Geek Feelings conseguiu o direito de ir tanto na quinta quanto na sexta, os supostos dias mais tranquilos. Eu fui o enviado especial do site para cobrir essa feira, e o resultado você lê agora:

03/12 – Quinta-Feira

No dia inicial da feira, a imprensa teve acesso antecipado. Às 10:00 da manhã, os jornalistas podiam entrar na São Paulo Expo para conhecer todos os estandes antes da muvuca de pessoas entrar. Além disso, uma coletiva de imprensa foi organizada pelos cabeças do evento para tirar todas as dúvidas dos jornalistas. Eu estive lá para ver uma meia hora da coletiva e achei bem desnecessário. Logo de cara eles te mostram um vídeo para explicar quem é o público nerd de hoje, que mais parece um vídeo para louvar os organizadores e seus amigos. Tipo chamar o Danilo Gentili para falar sobre o que é ser geek hoje, e não alguém do público que visita eles. Sem nenhuma explicação da feira, após o vídeo são abertas as perguntas e respostas. Sem uma distribuição justa de microfones, certos setores do auditório ficaram esperando diversas perguntas até que pudessem ser atendidos. Eu saí dali quando percebi que só ficaria naquela masturbação de ego.

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Com quase uma hora pela frente sem público ainda, aproveitei para andar bastante e me habituar com a geografia do lugar. Praticamente só haviam estandes belíssimos, fossem eles de estúdios, editoras, lojas ou filmes. O próprio Auditório Cinemark, na única vez que consegui entrar graças à falta de uma fila quilométrica, era bonito demais. Você de fato podia passar o evento todo lá (como eu estupidamente não fiz), com banheiro e postos de venda de pipocas e guloseimas. Os auditórios menores não deixavam a desejar, recriando ali dentro espaços dignos de Cons internacionais. Quem ficava mais feio perto de tudo isso era a praça de alimentação. Não pelo espaço em si, que tinha totens de recarregar celular, mas sim os estandes de comida. O preço salgado e nivelado em 30 reais dificultava as coisas. Afinal, qual a diferença de ter food trucks caríssimas e o Black Dog da velha guarda de eventos se ambos tinham combos pelo mesmo preço? Quem vai comer um hot dog quando pode pagar o mesmo preço e comer um balde de frango frito?

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Acabo de comer e acaba também a gordurinha (não a minha, que é enorme, mas sim a de tempo) que eu tinha para ver o evento sozinho. Por sorte, o espaço era enorme e nem mesmo 10.000 pessoas conseguiam dar a sensação de que estava lotado. Aproveito esse tempo para lhe explicar, leitor querido, que eu tinha tirado a quinta-feira para exploração máxima do evento. Isso é: tirar fotos dos principais estandes, ir em painéis menores, dar um check nos artistas da Artists’ Alley. E assim o fiz, como vocês puderam perceber pela chuva de conteúdo que nossa fanpage teve no dia. O evento estava realmente bem bacana e amigável. O mais legal é que você tinha inúmeras opções de lazer. Fosse ela dançar Just Dance (se você já não fez isso nos outros 200 eventos que a Saga participou), tirar foto vestido de Ghostbuster com seus amigos na frente do carro da equipe, fingir estar ao lado de Pablo Escobar em fotos comprometedoras, ou até mesmo cantar uma música sertaneja com a voz de Alvin e os Esquilos.

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Meu primeiro painel foi o da Social Comics, cujos anúncios você leu aqui no dia e na hora em que eles aconteciam. A recepção foi bem agradável e quem entrava ganhava um kit muito bem feito com camiseta (infelizmente P), abotoadura, cordão de credencial e acesso VIP, provavelmente temporário, ao serviço. Lá dentro, em um clima de anúncios de filmes da MCU, Marcelo Bouhid, gerente de marketing da Social Comics, revelou novas parcerias para o serviço, além de obras originais criadas exclusivamente para ele. O clima de “novidades na frente dos seus olhos” foi bem legal, e eu me senti, como em poucas vezes me sinto trabalhando, útil e determinante. Os painéis que se seguiram, entre eles o de diversidade de gêneros – muito bem realizado-  foram sempre no mesmo nível. Esse de gêneros, inclusive, contou com sorteio de exemplares de quadrinhos que abordam o tema. O papo, apesar de transitar entre diversidade de gêneros, etnias e classes sociais, foi bem dialogado. Eu acredito que esse mesmo painel tenha acontecido também na Fest Comix, o que indica uma tendência nos eventos de quadrinhos em abordar um tema tão importante e emergente.

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Se a pluralidade de atrações e painéis anima qualquer um que vá lá para se divertir, por outro lado, ela também acaba matando um pouco aqueles que foram para informar, principalmente quando o número de credenciados por portal é limitadíssimo, tipo UMA pessoa só. Eu não vou entrar ainda na área de reclamações e sugestões para melhoria do evento, que por si só já será um parágrafo bem grande, mas eu aproveitarei esse momento para dizer que foi bem triste ver aquela cacetada de painéis diferentes e interessantes e saber que eu sempre precisaria sacrificar umas 4 atrações para ver só uma. Pena que esse ano contamos apenas comigo e mais ninguém para cobrir, pois com mais 3 pessoas a cobertura do evento seria completamente outra, em um sentido mais positivo. Eu abordo melhor isso lá pra frente.

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Depois de mais uma andada pelo evento, não achei mais nada que conseguisse roubar minha atenção. Por isso, fechei o dia com 3 painéis seguidos. O primeiro deles foi sobre a criação de vilões com o Timothy Zahn. que você pode já conhecer pela Trilogia “Herdeiro do Império“, lançado pela Aleph esse ano, já com uma resenha aqui no blog. Um papo calmo, talvez chato para alguns, mas bem interessante. Ele não teve nada gráfico, como uma palestra dinâmica, mas foi direto ao ponto: o que você precisa para criar um bom vilão para sua obra. Talvez pelo curto tempo o papo não conseguiu se desenvolver em algo mais descontraído e leve, mas pelo menos deu para entender a mente do autor.

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Quinze minutos depois, o painel era sobre a Iron Studios, um estúdio de colecionáveis licenciados oficiais brasileiro e que, francamente, eu nunca tinha ouvido falar antes. Para uma primeira impressão, eles realmente mandaram bem. O painel foi talvez o mais interativo de todos que eu fui. Ele começou com uma conversa entre os cabeças do estúdio, o representante da Warner que era o parceiro deles na nova linha da DC e, não menos importante, Ivan Reis, artista da DC, um dos meus xodós e responsável pelo design de todos os colecionáveis da DC nessa nova linha. Eis que surge um saco de lixo preto gigante, cobrindo algo igualmente grande. Foi colocado no meio do palco e explicaram: aquilo era um diorama que, até então, estava proibido de ser mostrado para o público antes da estreia do filme Batman vs Superman, pois o conteúdo dele, apesar de não ser baseado no filme, poderia servir de spoiler. Por sorte, o trailer já conhecido do filme saiu na madrugada daquele mesmo dia, revelando um personagem que ainda não tinha sido revelado. Assim, os responsáveis pelo estúdio trocaram e-mails com a toda poderosa Warner e conseguiram o direito de exibir o diorama. Mas isso foi deixado para o fim do painel, pois o foco inicial era usar o público daquele auditório para decidir a próxima figure do estúdio. Nessa nova linha, chamada de “Series 2”, 5 personagens receberiam figures, sendo que um deles será exclusivo da CCXP 16, e outra terá tanto o personagem quanto a pose decidida pelo público. Na votação, foram colocadas as opções de Shazam, Lanterna Verde e Flash. Descobri nesse mesmo dia que o ex-Capitão Marvel tem um apelo com fãs velhos inacreditável, pois a escolha foi unânime. Decidido o herói, estava na hora de escolher qual pose ele teria. E a melhor forma de decidir isso foi levar a câmera do telão para uma mesa com papéis, canetas e o talento de Ivan Reis. Ali na hora, Ivan esboçou rapidamente duas opções de poses, sendo uma delas sugerida pelo próprio artista e a outra sugerida por um rapaz da plateia, que ao fim do painel ganhou o esboço sugerido. A opção de Ivan Reis ganhou, e, assim, foi decidido ali, ao vivo, um produto que irá para as prateleiras do mundo inteiro.

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Por fim, o painel mais legal em que já estive aconteceu. Mark Waid, mestre que dispensa apresentações, e Ivan Reis, já citado como meu xodó e um dos artistas mais fodas da DC, se unem em um crossover de editoras e heróis para falar de The Brave and The Bold, nome dado à dupla Flash e Lanterna Verde, que comemoraram seus 75 anos de vida em 2015. Mais do que uma simples conversa sobre heróis, o painel inteiro foi uma conversa entre fãs, fossem eles os convidados ou o público, sobre dois heróis muito amados. Mark Waid se empolgou e soube levar o papo para os melhores lugares, como discussões sobre personagens favoritos, dificuldades em escrever/desenhar algo, falar muito mal do filme desastre do Lanterna Verde. Ali, eu me senti no meio de pessoas que, assim como eu, eram fascinados por heróis e pessoas que os criavam. Foi o melhor momento de toda a feira e um do qual eu nunca me esquecerei.

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Assim acabou o primeiro dia de CCXP, assim como acabou qualquer boa experiência que eu poderia ter ali…

04/12 – Sexta-Feira

No segundo dia de Comic Con, a mamata tinha acabado. Agora, todos entravam na mesma hora, imprensa ou público. Além disso, o evento estava muito mais cheio, quase como se fosse um dia de final de semana. Isso se refletiu em tudo, principalmente em quão merda foi o meu tempo lá.

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Bem, comecei o evento já errando. Fui comer, como havia feito no dia anterior, para não precisar mais fazer isso pelo resto do dia. Afinal, meu plano era passar o dia dentro do auditório Cinemark, principalmente para acompanhar o painel da Netflix. Após comer meio balde de frango frito e batata frita, fui para a fila do auditório. A disposição da fila – e se lembre disso pois é importante – era um quadrado enorme ziguezagueado por dentro. Dá pra imaginar como é. Eu estava no meio desse quadrado quando entrei na fila, o que dava uma boa esperança, já que faltavam oito horas para o painel que eu mais queria ver.

Na lista de painéis pela frente, tínhamos um bate papo com Gerard Way e Gabriel Bá, roteirista e artista, respectivamente, de Umbrella Academy. Um painel da FOX sobre animações e filmes. Um painel da Marvel sobre as novidades nos quadrinhos americanos. Um painel com Frank Miller e outro com Jim Lee, pilares dos quadrinhos nos anos 80 e 90. E no fim de tudo o painel com atores de Sense 8 e Jessica Jones.

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A estadia na fila, enquanto ela durou, foi bem agradável. O pessoal em volta era bem tranquilo, tirando alguns gritos quando Gerard Way apareceu no telão ou no “tapete vermelho”. Fazer o quê?, o cara é bonito, dizem que canta bem e ainda escreve quadrinhos. Mais completo que isso só se ele fosse um ator foda pra caralho, tipo o Jared Leto. Mas enfim. Os momentos mais chatos da fila era o pessoal do Omelete tentando animar a galera. Eu não sabia na hora, mas o que eles estavam fazendo ali era compensar as pessoas que estavam esperando por horas para ver seus astros. Porque… bem, ninguém da minha fila conseguiu. Mas eu estou dando spoiler do texto, vamos voltar para o Omelete sendo chato pra caralho. Eles faziam perguntas bem idiotas como “hey galera, vocês viram que o estande de Halo tem laser shot temático do jogo? Muito foda!“. Tipo, para que você está falando isso? Ninguém na fila dá uma foda para laser shot ou para Halo. E se dão, eles não estariam ali de pé por 5 horas, perdendo todo o evento só para ver um mísero painel. E, pra melhorar, essa merda de laser shot ainda tinha, adivinhem! Isso mesmo: OUTRA FILA ENORME. Claramente o pessoal do Omelete estava tentando dispersar a galera da fila, pois sabiam que 90% da galera não ia entrar e passariam todo o evento de cara fechada sentados no meio de grades. Isso só piorava com quem tava sozinho, como eu, que não tinha ninguém pra quem virar e falar: “Será que alguém pode enfiar um caralho na boca do cara pra ele parar de encher o saco?

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Os problemas reais com a fila vieram quando eu presenciei, sem dúvidas, um furar de fila. Algumas pessoas passaram na minha frente antes disso, mas ou eu estava distraído demais para ligar, ou eu meio que já havia visto elas na minha frente. Claro que, independente disso, furar a fila estava errado. Eu só não barrei as pessoas no começo pois achei que a permissão de fazer isso estava sendo dada pelos staffs, que abriam a gaiola de fila pelas laterais para que as pessoas saíssem mais rápido. A vontade era clara: barrar qualquer pessoa que passasse por mim e perguntar, “Hey, aonde está indo? Ah, você tava lá na frente e saiu para comer? Bem, que pena, pois quem tá aqui na fila esperando 6 horas de pé ou trouxe lanche de casa ou está aguentando como um guerreiro espartano sem comida. Não vou deixar você passar“. Com o tempo, porém, percebi que esses acontecimentos diminuíram muito. Até cheguei a ouvir a anunciante no microfone falando: “Galera, fiquem de olho em quem fura a fila. Seguranças, fiquem de olho também“. Assim eu fiz, e assim eu peguei no flagra uma galera bem folgada. Uma menina de cosplay de Daenerys, uma outra menina simples e uns 3 caras de cosplay de PAU NO CU COM CARA DE TROUXA QUE FURA A FILA NA CARA DE PAU E AINDA FICA RISONHO. Eles furaram a fila de uma forma diferente. Não passaram por mim. Ao invés, disso, eles foram até a porta da fila, onde já dava para entrar no auditório, e falaram com o segurança. Assim, eles vieram voltando a fila ao invés de avançar nela, dando a impressão de que não estavam furando ninguém. O problema é que, sinceramente, a menina de Daenerys era bem gata, e eu teria reconhecido ela em qualquer lugar do planeta. Bolas, se eu consegui reconhecer um cosplay porco de Joseph Joestar do meu lado, personagem que você provavelmente nem conhece, imagina o cosplay de uma Khaleesi bem feito. Eles vieram, dando todas aquelas voltas, e pararam exatamente do MEU LADO. Detalhe, para eles estarem do meu lado, isso significava que ele estavam pelo menos umas 25 pessoas de distância de mim. Mas por causa do caminho feito em linhas paralelas, eles acabaram do meu lado. Os encarei por quase uma hora, prestando atenção em tudo que eles falavam. Tudo indicava que eles nunca estiveram ali. Fosse o fato deles terem prints de artistas do Artists Alley, fosse o fato deles não estarem nada cansados. Mas a última gota veio quando um deles falou para as duas amigas que estavam na fila desde sempre e serviram de desculpa para eles pararem ali: “Nossa, mas vocês estão aqui desde as 11:00? Credo gente.

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Você, leitor maluco que leu tudo até aqui e ainda não desistiu (valeu, te adoro <3), se coloque no meu lugar. Alguém fura a sua fila, fica com uma cara de panaca e ainda por cima solta uma frase dessas do seu lado. Eu não esperei mais nada e fui falar com a pessoa que estava atrás deles. Perguntei se ele lembrava daquela gente e se não achava que eles tinham furado a fila. Ele confirmou, e ainda disse que só não fez nada porque não percebeu eles passando. Incitei ele a ir até o segurança e fazer algo a respeito, pois ele ainda estava mais perto deles do que eu, que precisava atravessar uma piscina olímpica para chegar até um staff. O rapaz foi e ficou um tempo discutindo com o segurança. Ao meu lado, reuni mais pessoas que perceberam o furar de fila e, inspiradas por alguém que finalmente resolveu fazer algo a respeito, estavam todas concordando que eles não estavam ali. O rapaz volta, sem nenhum segurança ao seu lado, e me diz a resposta mais canalha que eu já ouvi de um staff. Ele disse que o staff lhe informou que “a fila era responsabilidade…………………………………..DA PRÓPRIA FILA.” Logo, se nós vimos eles furando e queríamos que eles fossem enxotados dali, devíamos fazer isso por nós mesmos.

Eu não sei você, mas eu já vi “justiça com as próprias mãos” através de multidões vezes o suficiente para saber que isso era uma tremenda idiotice. Onde que uma fila é responsável por expulsar pessoas que a furam? Afinal, qual a necessidade dos seguranças ali? Quer dizer, uma finalidade eu sei que eles tinham, e essa eles deviam ser bem pagos para fazer: impedir que fãs loucos agarrassem astros famosos e importantes demais para o contato com pessoas. Ali do lado tinha um tapete vermelho justamente para isso, famosos passarem, tirarem fotos, darem um gostinho e uma falsa sensação de alívio para fãs aglomerados e suados, e depois entrarem nos auditórios. Eu fiquei bem nervoso, como estou agora, relembrando todo esse dia de merda que eu tive, e fui eu mesmo falar com o staff. O negócio só piorou.

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Ele me disse que entendia completamente nosso ponto, mas que, por ordens de pessoas importantes, e que de fato eram pagas para estar ali, eles não podiam tirar ninguém da fila, mesmo que fosse alguém que a furou. Eu estava pronto para rodar a Vera Verão e fazer o maior barraco de toda a CCXP, quando o querido staff me deu o maior soco moral com palavras que eu já levei. Ele disse: “Não sei porque vocês estão reclamando tanto, é praticamente impossível vocês entrarem nesse auditório“. E aí eu explico: talvez você que tenha ido no evento já saiba, mas a organização da CCXP achou ok trazer os mesmos padrões da San Diego Comic-Con para a versão brazuca. Isso é, se você entra no auditório e não quer mais sair dali, nada fará você sair dali. Isso é legal pra quem entra, mas terrível para quem está fora. Afinal, isso quer dizer que, se 2.000 pessoas – a capacidade daquele auditório – não quiserem mais sair lá de dentro pelo resto da feira, eles o farão, e você não poderá assistir nenhum painel que desejava. Eu já sabia disso, li essas regras há muito tempo, quando ainda eram vendidos ingressos do evento. Eu só não sabia o quão cruel isso era na pele. Milhares de pessoas paradas naquela fila, achando que teriam algum pingo de chance de verem seus maiores astros de todos. Mais de 2.000 esperanças que seriam despedaçadas assim que desse 18:30. Pessoas essas que estavam ali por astros diferentes. E justamente por isso não precisavam passar por isso. Pois se você coloca Frank Miller em um auditório e David Tennant em outro, você acabou de dividir pelo menos 1.000 fãs para cada lado. Fãs esses que não precisarão passar por nada disso para verem os ídolos de suas vidas.

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Enfim, eu fiquei bem chateado depois desse choque de realidade. Tanto que ignorei completamente aquele bando de imbecis que tinham furado a fila e saí de lá o quanto antes. Não sei porque, mas tinha muita esperança de ao menos ver o painel do Netflix. Parecia que ele teria anúncios importantes, e eu estava bem animado para vê-los e fotografá-los, a fim de mandar para o Rodrigo instantaneamente para que ele publicasse aqui no blog. Novamente, eu tava querendo me sentir mega útil e importante. Infelizmente, mesmo como imprensa, não consegui. Só que eu precisei errar mais duas vezes para entender que aquele não era o meu dia.

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Primeiro eu tentei estupidamente pegar um autógrafo do Mark Waid, em uma fila que já tinha começado há pelo menos uma hora. Entrei na fila e uma mulher do evento já disse: “Nesse lugar o autógrafo não é garantido ok? Vai depender do Sr. Waid“. E lá vou eu esperar uns 20 minutos até a moça voltar e falar: “É, não vai dar“. Pra fechar com chave de ouro, ainda peguei fila para entrar no auditório Ultra, para ver o painel dos 80 anos do Maurício de Sousa. Obviamente eu não consegui entrar. Derrotado três vezes, fui embora, já cansado de perder tempo.

Problemas

Claramente, a CCXP tem muitos problemas. Para mim, como imprensa, esses problemas são ainda maiores.

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O primeiro deles, como mencionei lá atrás, foi a liberação de apenas uma credencial para o blog, e só para quinta e sexta. A desculpa é que eles precisam revezar o número de jornalistas em todos os dias, para não lotar o evento. Todos sabemos, no entanto, que isso é uma desculpa de merda. Se é para entregar só uma credencial, e ainda por cima nos dois primeiros dias, onde a importância dos anúncios são menores do que no final de semana, para que você liberou essa credencial pra começar? No mínimo, duas credenciais, para que duas pessoas cubram o evento ao mesmo tempo. Se você coloca uma montanha de painéis e atividades ao mesmo tempo, precisa ser justo e deixar que ao menos dois repórteres daquele portal entrem, para diminuir o número de atrações perdidas. Ainda por cima, sua credencial de nada vale. Você ganha duas salas de imprensa, sendo que uma é uma sala pequena com ar-condicionado, com UM computador para usar e algumas cadeiras para sentar. Nem WiFi a sala tem. A outra sala de imprensa é um mito. Ela nunca abre pra você, apesar dela ser maior, ter WiFi e ser do lado dos auditórios. Obviamente que essa sala de imprensa abria, só que para as pessoas certas, como Rede Globo, Folha de S. Paulo. Jornalistas de verdade, que entram em painéis sem pegar fila, como deveria ser para todo portal. De 2.000 lugares, não dava para reservar uns 60 para jornalistas de todos os tipos? Pra que eu tinha uma credencial, afinal? Eu entrava de graça no evento, claro, mas eu não podia exercer a minha função de imprensa, como cobrir notícias dadas dentro de painéis exclusivos. Me senti recebendo um “Bolsa-Imprensa”. Uma ajudinha, pra eu entrar e achar o evento “muito daora, foda pra caralho, loko”. Para a organização, só importa que eu entre de graça, o que já anula o meu direito de reclamar, e se divirta nos lugares. Mesmo que eu não consiga exercer, de fato, minha função de imprensa.

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O segundo problema bem chato foi o tratamento dado às filas. Ou a falta de tratamento, não é? Em um momento, era ok pessoas saírem para beber água e voltarem depois, indo para seus lugares. Horas depois, e isto estava proibido. Saiu, perdeu. Se alguém fura a fila? Que a fila se vire. E pra melhorar tudo, o pessoal do Omelete tentando compensar tudo aquilo, vindo fazer piadas e incentivando as pessoas a saírem dali. Pra que você cria um sistema de “entrou, ficou” se depois você vai começar a discretamente e subliminarmente expulsar as pessoas da fila? E esse sistema, repito eu, é burro que dói.

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É só pensar: lá dentro, haviam pessoas que queriam ver o painel do David Tennant. Afinal, ele foi o Doutor mais popular de todos em Doctor Who. Uma parcela dessas pessoas, arrisco eu, estão CAGANDO para o Frank Miller e o Jim Lee. Quando lá fora, muitos amariam estar lá dentro para ver seus artistas favoritos. As pessoas lá de dentro, tendo essa boa noção, iriam sair para dar espaço para os fãs de Miller e Lee? Óbvio que não. Elas vão ver um painel forçadamente, só para não perder o lugar do próximo painel. Esse sistema é burro, injusto, cruel e de nenhuma forma se adapta ao público brasileiro. A desculpa é essa, inclusive: “O padrão lá fora é esse, vamos usar aqui, afinal, estamos brincando de ser um evento importante e pagamos pau para eles, por isso vamos fazer igualzinho para todos acharem que somos legais.” Isso não tem cabimento. O público de uma SDCC é completamente outro. Seja no poder de compra, na cultura, na educação, nas chances que essas pessoas têm de ver seus astros, que são infinitamente maiores do que fãs brasileiros. Porra, nem mesmo o espaço e a disposição de auditórios é a mesma, pra que inventar isso, então?

Por fim, tudo isso se resume, pelo menos para mim, em pretensão demais da parte da organização.

Relatos

Para ser justo, eu resolvi pegar o depoimento de três conhecidos meus que foram em dias diversos da feira para deixar a opinião do público pagante mais clara.

Nome:
Débora Yukari
Gustavo Crispa
Vanessa Luks

Valor pago pelo ingresso:
R$120
R$110
De graça (cortesia)

Dia em que foi:
Sábado, Dia 5
Sábado, Dia 5
Sexta e Sábado, Dias 4 e 5

Tempo estimado que ficou lá dentro:
Contando com o tempo de fila, tanto na ida quanto na volta, fiquei mais ou menos umas 12 horas lá
Dia inteiro
Sexta das 13 às 22, Sábado das 11:30 às 22

Brevíssimo relato da experiência, considerando se valeu a pena e se voltará ano que vem:

O evento estava lotadaço, mas pude fazer bastante coisa lá: fui em palestras, consegui entrar nas lojas, ver a Artist’s Alley e outras atrações também. Uma das coisas que achei mais interessante foi a disposição de pontos com carregadores de celular. Gostei da organização e da infraestrutura. Gostei de todo o cuidado que os organizadores tiveram com o público (o chão forrado, por causa dos buracos que haviam, por conta da obra; os próprios carregadores de celulares; vale lembrar também o transporte gratuito e os fones com tradução simultânea, para as palestras e bate-papo em inglês). Com certeza irei ano que vem novamente.

Curto demais esse tipo de evento e acho que meu investimento valeu. Consegui bastante contatos e me diverti em várias das atrações do evento. Sem dúvida voltarei ano que vem.

Tive um pouco de problema pra achar o ônibus, depois que cheguei lá não tive problemas. Quanto aos painéis, muito cheios, filas pouco organizadas,  mas os painéis que eu assisti foram ótimos. Na sexta a circulação foi de boas, no sábado foi mais complexo, mas os stands e espaços estavam bons em organização  e distribuição, a comida achei o preço salgado, mas dava para sobreviver. Iria de novo a depender dos painéis, mas acho que valeu a pena sim, me diverti nas atividades, apesar de uma leve decepção com os painéis.

O que você gostaria que mudasse para o ano que vem?

Eu gostaria que nos próximos eventos, as salas de palestras fossem mais arejadas.

Espero sinceramente que melhore a praça de alimentação (preços absurdos), e que criem um modo de ter um certo ciclo de fãs nos auditórios para que todos tenham chances de ver um painel.

Talvez mais palcos pra distribuir melhor as atividades.


Resumo

Para o público em geral, é unânime de que o evento foi grandioso, divertido e até épico. Milhares de atrações, jogos, atividades, palestras, artistas independentes, artistas grandes, pré-estreias, autógrafos, fotos, brindes. Acima de tudo isso, foi uma grande reunião dos mais diversos tipos de fãs, fossem eles pessoas interessantes, cosplayers, aficionados por algo, amantes da cultura pop.

Para a imprensa credenciada, muitos elogios, mas sem ignorar erros cruciais, como a desinformação dos staffs, e a falta de organização na fila para o auditório Cinemark.

Para mim, uma experiência ambígua, que me faz querer voltar ano que vem mais preparado, mas também me deixa com o pé atrás quanto ao valor que um evento desses cobra. Apesar de todo o meu hate nesse post, espero que o evento melhore muito, e possa virar algo em que eu gastaria sem problemas os meus 100 reais.