[ESPECIAL NGF] Sobre a infância e o quintal de minha avó…

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Se fechar meus olhos posso sentir o cheiro do quintal, a sensação da terra sob meus pés, ouvir o vento bater nas folhas da mangueira e o calor do sol tocar meu rosto. São lembranças como essas que preenchem minha alma, e que me fazem pensar que não poderia ter tido infância mais feliz.

Quando criança passava boa parte do tempo pintando, desenhando, escrevendo e lendo, ou brincando de cozinhar. Passava horas sobre a mangueira, montando junto com o meu avô bichinhos feitos de manga e palitos de dente, e inventando histórias. Juntos líamos gibis, decorávamos o nome de todas as raças de cachorros de um livrinho que ele tinha.

Desde criança eu tenho essa paixão infinita por cozinhar. Começou quando era bem pequena, eu costumava fazer bolos de terra enfeitados com as frutas do quintal da minha avó como framboesas, morangos. E à medida que fui crescendo os bolos de terra foram substituídos por panelas e aventuras culinárias durante a tarde enquanto meus pais estavam no trabalho. Tortas, bolos, brigadeiros, e uma série de invenções tendo como “cúmplices” as amigas vizinhas, que ajudavam a comer e limpar tudo antes dos meus pais voltarem pra casa.

Havia ainda as tardes brincando com as minhas amigas, amarelinha, elástico, pega-pega, mar vermelho, stop, esconde-esconde, as conversas embaixo da mangueira, e horas no balanço relembrando uma época em que os pés sequer tocavam o chão. No final da tarde quando começava a tocar a Ave Maria na igreja era hora de voltar pra casa. Nesse horário uma tristeza enorme se instalava no coração, o dia havia acabado, era hora de voltar pra casa, tomar banho, jantar, deixar de lado toda diversão com as amigas, e esperar a chegada do sol novamente.

Há tantas memórias sobre essa época mágica, ao lado a família, dos amigos da rua, e elas se mantém aqui vivas em mim, os picnics no meio do mato, as caças a girinos, os jantares no clubinho embaixo da mangueira, brincar de esconde-esconde com minha irmã e as amigas que viviam na mesma rua. Aprender a andar de bicicleta. Passar tanto tempo sendo feliz que sequer sobrava tempo pra se preocupar ou ver a vida passando. Uma parte da vida que permanece intacta na memória, cheia de risadas e histórias.

O tempo passou, mas muito daquela pequena Tati permaneceu, aquela que não desgrudava de sua boneca ‘Quem me quer’ que ganhou de sua avó. A mesma sorridente, apreciadora de pequenas belezas e da natureza, e que adora ter Joaninhas caminhando em suas mãos. Que sempre protegeu a irmã mais nova de tudo e todos. Ainda tenho o mesmo amor pelos livros, pela culinária e pela escrita. E sigo muitas vezes fazendo piadas, e rindo diariamente como se estivesse no auge dos meus 4 anos de idade, com aquele velho vestidinho e a boneca a tiracolo, já tão cheia de personalidade. E quando os dias parecem longos demais, fecho meus olhos, e me lembro da sensação de ter os pés gordinhos na terra do quintal de minha avó, e a vida fica mais leve e feliz, porque bom mesmo é seguir vivendo com o espírito de uma criança.