[ESPECIAL NGF] Phantasmata: um caso sobrenatural da Antiguidade

Poe, Stoker, Lovecraft, James, Blackwood, Maupassant — para não citar Craven, Murnau e mesmo Hitchcock — são alguns dos grandes nomes que celebramos nesta época. Eles povoaram nossa imaginação com seus loucos, monstros e demais seres sombrios. Mas nem todas as histórias de terror vêm da ficção; às vezes, nos deparamos com elas em áreas onde não esperadas, ou nem mesmo bem-vindas. Esta, por exemplo, não será encontrada na seção de clássicos da literatura, mas na de História. Vem da Roma dos césares, envolvendo um dos grandes oradores da época e um filósofo influente que viveu um pouco antes de Cristo. O leitor contemporâneo certamente notará alguns elementos familiares na história, mas numa época em que o terror como gênero sequer existia, e seus cânones atuais, muitos menos. Mera coincidência ou um fundo de verdade?


Final do século I, em algum ponto do Império Romano. Plínio, o Jovem, orador e magistrado romano, testemunha ocular da grande erupção que destruiu Pompeia, escreve uma carta inusitada para seu amigo Sura. Objetivo como de hábito, mas traindo certa ansiedade incomum, ele diz:

Igitur perquam velim scire, esse phantasmata et habere propriam figuram numenque aliquod putes an inania et vana ex metu nostro imaginem accipere.

[“Desejo ardentemente saber, portanto, o que você pensa em relação aos espectros, se você acredita que eles realmente existem e têm suas próprias formas e um grau de divindade, ou são apenas as impressões falsas de uma imaginação aterrorizada.”]

Caius Plinius Caecilius Secundus, ou Plínio, o Jovem (61d.C. -113 d.C.)

Caius Plinius Caecilius Secundus, ou Plínio, o Jovem (61d.C. -113 d.C.)

A pergunta não era à toa, pois ele logo começa a contar histórias que conhecia, uma das quais ocupa a maior parte da carta. Havia acontecido em Atenas, a gloriosa cidade de políticos, artistas e filósofos, cerca de um século antes. Ali, uma certa casa, ampla e espaçosa, havia adquirido fama de “pestilenta”. Seus moradores eram aterrorizados pelo som de correntes à noite, primeiro de forma sutil, distante, mas que iam se aproximando mais e mais, até que davam lugar a uma figura envelhecida e emaciada, de longa barba e cabelos crespos, trazendo consigo os grilhões cujo barulho se tinha ouvido. O espetáculo era perturbador e frequente o bastante para que os moradores perdessem o sono — e também a saúde, que ia se deteriorando não só com a insônia, mas a distinta impressão de horror e apreensão que os acometia. “Mesmo durante o dia”, diz Plínio, “embora o espectro não aparecesse, tão forte era a impressão por ele deixada em suas imaginações que era como se ele ainda aparecesse diante de seus olhos, e o terror permanecia mesmo quando a sua causa já não estava presente”. De certa maneira, a mente dos moradores era infectada pela presença fantasmagórica e, pelo menos em alguns casos, isso tinha sido fatal. As histórias correram e, após algum tempo, a população local aprendeu a evitar a casa maldita: ninguém a alugava, ninguém a comprava e, muito provavelmente, ninguém sequer se aproximava dela.

Amostra de um manuscrito das cartas de Plínio. Seu nome pode ser visto no cabeçalho.

Amostra de um manuscrito das cartas de Plínio. Seu nome pode ser visto no cabeçalho.

A história poderia acabar aí, como uma dessas “histórias que o povo conta” até hoje no interior. Mas uma questão que raramente se menciona num caso desses é que geralmente existe pelo menos uma pessoa que não se conforma com a situação: o proprietário. Ter um imóvel grande, vazio e mal-assombrado é o pesadelo de qualquer investidor, seja no Rio de Janeiro de hoje ou na Atenas de antanho. E o dono dessa casa em particular não estava feliz com o destino de sua propriedade. Era impossível negociá-la com qualquer morador da cidade — para não dizer imoral, dado o destino dos outros moradores —, mas seus escrúpulos não eram lá essas coisas. Assim, ele fez o que muita gente ainda hoje faria: manteve o anúncio de que ela estava disponível para venda ou aluguel, na esperança de que algum forasteiro ou desavisado se interessasse. O tempo passou, mas um dia, finalmente, alguém respondeu ao anúncio: Atenodoro Cananita, o estoico.

Atenodoro era uma celebridade. Nascido em Canana, perto de Tarso, em 74 a.C., Atenodoro tinha sido mentor de ninguém menos que o imperador Otávio Augusto. Seguidor do estoicismo, que pregava o domínio da razão e da serenidade sobre as paixões e o sofrimento, o filósofo estava de passagem pela cidade quando viu o anúncio da casa. O preço muito baixo parecia bom demais para ser verdade, e isso o deixou desconfiado; ao procurar saber a razão desse negócio da China em plena Grécia, logo descobriu do que se tratava. Mas ao contrário de quase toda gente, Atenodoro não desistiu; que tipo de filósofo estoico seria ele se deixasse que o medo o fizesse perder uma oportunidade dessas? E assim foi: o destemido sábio, que posteriormente seria uma inspiração para Sêneca e o próprio Paulo de Tarso, se instalou na casa fatal. No primeiro dia, no fim da tarde, instalou um assento na parte dianteira da casa, com uma lâmpada e material de escrita, e ordenou a seus companheiros de viagem que se recolhessem no interior da casa. Ele queria ficar sozinho para escrever e assim permaneceu até o cair da noite.

A maioria de nós, que vivemos em cidades modernas, raramente temos a oportunidade de entender o que era o mundo antigo. Para nós, é natural ficarmos acordados até altas horas, cercados de luzes elétricas disponíveis a qualquer momento; estamos acostumados a olhar pela janela e enxergar o que está lá fora, na rua. Isso nos dá certo conforto, alguma segurança. Além disso, nas cidades grandes, onde os terrenos são de tamanho menor, os vizinhos estão sempre a um grito de alcance. Mas, na Atenas do século I a.C., o que Atenodoro via era provavelmente o mais puro breu, exceto por sua lâmpada e, talvez, o brilho da lua.

As primeiras horas foram tranquilas. Aproveitando o silêncio e a ausência de distrações, Atenodoro escrevia, concentrado em seus raciocínios e lições de filosofia. Até que, em um determinado momento, percebeu um ruído incomum vindo de fora.

Metais. Como quem chocando-se uns com os outros.

O filósofo não se abalou. Continuou escrevendo, ignorando o ruído. Mas este persistiu, mais próximo, num tilintar cadenciado e cada vez mais alto, até que finalmente apenas a porta separava o sábio absorto do curioso visitante. Atenodoro não se deu ao trabalho de abrir a porta e não foi preciso — quando finalmente levantou os olhos, já não estava mais sozinho.

Do registro que temos, o que ele viu era similar aos rumores atenienses. Um velho esquelético estava de pé diante dele, com o cabelo crespo e a barba comprida, com os pés e mãos em grilhões. Não apenas estava lá, mas o chamava com o dedo. O filósofo não se deu por vencido, mas com um gesto pediu que a aparição esperasse, e voltou a escrever; o hóspede reagiu, sacudindo ruidosamente suas correntes sobre a cabeça enquanto Atenodoro escrevia e, quando este olhou de novo, lá estava a mesma figura, chamando-o com o dedo. Desta vez, o filósofo aquiesceu e, pegando sua lâmpada, seguiu a aparição. Andando devagar, como que atrapalhado pelas correntes, o espectro o levou até um ponto do pátio da casa, e então desapareceu. Sozinho, Atenodoro marcou o lugar com algumas folhas e plantas e, no dia seguinte, foi direto aos magistrados locais pedindo que ordenassem a escavação do pátio. Não se sabe como reagiram ao estranho pedido; importa apenas que o atenderam. Não se sabe quanto tempo isso levou, nem se a notícia vazou para a vizinhança; o que Plínio registra, contudo, é que encontraram os restos de um homem acorrentado, de tal modo que a ferrugem dos grilhões manchavam os ossos remanescentes. Depois, as autoridades decidiram bancar um sepultamento digno para o morto, pois era crença entre os gregos que aquele que morresse sem os ritos adequados jamais encontraria o caminho do Hades, e vagaria pela terra, passando fome e sede, sem outra ocupação que não atormentar os vivos.

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Quanto à casa, nunca mais se teve notícia de novas perturbações.