[ESPECIAL NGF] Os mistérios da minha infância

semana-das-criancas-ngf-2016-luiz-alexandre

Minha irmã (à esquerda) e eu.

Pensar na minha infância às vezes é um pouco complicado. Digo isso porque não me lembro bem das coisas de quando eu era criança, lembro de algumas coisas pontuais, coisas que provavelmente me fizeram o adulto de hoje. O mistério da minha infância é recheado de mistérios.

Nasci na década de 1980. Essa informação por si só já é o suficiente para você ter em mente que minha infância foi como a da maioria das crianças daquela época. Assistia aos programas infantis como “Xou da Xuxa“, “Mara Maravilha” e “Bozo“. Sou da geração “Caverna do Dragão“, “Thundercats” e “He-Man“. Sou da fase que assistia os “clássicos” da Sessão da Tarde quando ainda não eram os clássicos. Foi tendo acesso a essa gama cultural que a minha infância foi moldada e que, de certa forma, tornou-me no adulto que sou.

bozo-sbt-30-anos-567x425

“Alô, criançada. O Bozo chegou!”

Comecemos então com filmes. Consigo me lembrar do primeiro filme que realmente chamou minha atenção: “E.T. – O Extraterrestre“. Esse clássico de Steven Spielberg conta a história de um alienígena esquecido na terra (uma espécie de “Esqueceram de Mim” versão interplanetária). Lembro de estar parado, vidrado vendo a TV e o E.T. doido pra voltar pra casa. Aquela fantasia de amizade e mistério fisgou a minha atenção e me marcou profundamente. “E.T.” é o meu filme favorito da infância.

et_3147094b

Porém, eu mentiria em dizer que E.T. foi o único filme marcante. Não posso deixar de citar o incrível professor de arqueologia e arqueólogo Indiana Jones. Também lembro de ser apaixonado pelos filmes do Indiana. Imaginava-me vivendo aquelas aventuras, caçando tesouros escondidos e descobrindo algumas respostas dos mistérios da humanidade. Isso me faz lembrar uma história.

Morei alguns anos da minha infância em Tucuruí, um município do interior do Pará. Estava na escola “Pequeno Príncipe” (quem nunca?) e consigo lembrar de uma bela bronca que levei por querer ser Indiana Jones. Atrás da escola existia um conjunto de casas construídas na encosta de um barranco. Não eram casas planejadas, mas de madeira com caminhos feitos sobre tábuas. Hoje posso avaliar que se tratava de uma área de invasão, porém, na minha cabeça de criança, tudo aquilo era algum lugar da “exótica” Ásia ou África, e eu era Indiana Jones caminhando entre os “nativos” descobrindo os mistérios de um mundo fantástico. O detalhe é que nessa aventura eu levei o filho da professora ou diretora, não lembro bem, e quando retornei, não consegui escapar da bronca homérica como Indiana Jones conseguiu escapar daquela colossal e esférica rocha mortal.

raiders-ball

Minha infância também foi marcada pelo mistério do sobrenatural. Sou da geração dos Caça-Fantasmas originais. Toda vez que os filmes passavam na Sessão da Tarde lá estava eu assistindo e me divertindo. Não perdia também o desenho baseado no filme, e lembro de uma vez, com alguns primos, fazer uma mochila protônica com caixa de papelão e correr em volta casa imaginando caçar fantasmas. Lembro de ser fascinado pelos mistérios do mundo sobrenatural. Gostava de ler sobre o assunto e imaginar como seriam fantasmas de verdade.

ghostbusters-original-alt-1500-xlarge

Acho que já podemos dizer que, quando criança, eu gostava de mistérios, né? Minha infância não é um total mistério para mim com minhas parcas lembranças, mas o que a fez ser inesquecível foi meu gosto por mistérios.

Esse gosto particular continuou em outro momento, naquela fase em que qualquer criança descobre os dinossauros. Criaturas fantásticas ou monstruosas são como os dinossauros são apresentados às crianças. Eu imaginava como seria um mundo habitado por esses animais. Assisti “Jurassic Park” (1993) no cinema. Sozinho. Pra mim foi como um filme de terror. Pela primeira vez os dinossauros eram representados como animais no cinema e não como monstros. A empolgação do filme fez meu interesse por esses animais pré-históricos crescer mais e mais. Eu estava vivendo a “dinossauromania” daquele momento. Comprei tudo que era revista que saía. Colecionava os cards do Chocolate Surpresa e sabia o nome de um monte de dinossauros e suas características. Eu queria ser paleontólogo. Eu queria saber mais sobre esses misteriosos animais. Ah, o meu dinossauro favorito é o Parassaurolofo.

papo-parassaurolofo-compativel-schleich-2733-mlb4815144215_082013-f

Parassaurolofo.

Esse gosto pelos mistérios me acompanhou na adolescência. Eu ainda gostava de ler sobre dinossauros, lia bastante sobre extraterrestres, conspirações, parapsicologia e fenômenos sobrenaturais, até que chegou o momento em que fui tomado pelos mistérios do Egito Antigo.

Já ali no final da infância, lembro que a Editora Planeta lançou nas bancas uma coleção de fascículos sobre o Egito Antigo, a Egitomania. As primeiras edições traziam miniaturas de obras de arte egípcias. Colecionei todas e viajava nas leituras das revistas.

coleco-egitomania-editora-planeta-438311-mlb20535483174_012016-f

Ler sobre o passado dos antigos egípcios me fez querer saber mais sobre o passado nebuloso e cheio de mistérios que a História se apresentava para mim. Minha infância foi alimentada pelos mistérios que ainda hoje estão na cabeça de muitos homens e mulheres que se dedicavam para decifrá-las.

Quando criança, eu gostava de ler, gostava de mistérios, gostava de ter minha curiosidade aguçada e descobrir e/ou tentar resolver o desconhecido. Cresci. E hoje sou formado em bacharelado e licenciatura plena em História.

A fome de mistérios ainda me acompanha. Enquanto historiador e professor de História continuo envolvido com os mistérios da nossa própria História, querendo entender os percursos que a humanidade tomou para chegar até hoje. Enquanto pesquisador, me sinto um “Detetive do Tempo”, pesquisando e avaliando evidências de um passado que não existe mais, e que se apresenta no presente de forma fragmentada. Brinco em dizer que a História é um quebra-cabeça onde sempre faltarão peças e o historiador está ali para montá-las na medida do possível. Não só juntar as peças, mas entender o que se tem e o que não se tem. Estudar e ensinar História alimenta a criança que fui, me faz ser um adulto que ainda precisa daquela paixão de criança por seus sonhos e pela sua imaginação para ir além. Sou hoje bem mais feliz porque trabalho com a essência dos “mistérios” da minha infância.