[ESPECIAL NGF] “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” de Mary Shelley (Resenha)

Sem título

O melhor jeito de começar essa resenha é dando um toque ao leitor, um toque que já foi dado aqui no Nerd Geek Feelings essa semana mesmo. Se liguem nas palavras de Magdiel sobre O Médico e o Monstro (que aqui, logicamente, substituí por Frankenstein).

Frankenstein é um dos clássicos livros que acabam ganhando um monte de versões com o passar to tempo. Essas versões, juntamente com inúmeras paródias e referências, fazem com que todo mundo conheça as histórias. Por outro lado, o fato de todo mundo conhecer as histórias muitas vezes causa o desinteresse pela procura, e principalmente pela leitura das obras originais. Afinal, por qual motivo eu devo ler um livro cuja história eu conheço? Simplesmente pelo motivo de que você NÃO conhece a história, meu amigo! Ver versões e paródias é o mesmo que ler uma resenha (como você está fazendo agora), ou ouvir uma indicação de um amigo. Não se conhece um livro, até que o tenha lido.”

Recado dado, partamos para a análise da edição que tenho em mãos, da Penguin Companhia. Por ser uma obra de domínio público, você  pode achar versões de bolso de Frankenstein por aí, em bancas de revistas, por menos de dez Reais. Mas essas versões, geralmente, apresentam alguns problemas: capa e material capenga, tradução feita nas coxas e ausência de prefácios, posfácio e qualquer tipo de apêndice ou informação extra. Isso quando não se tratam de meras adaptações. Esse, felizmente, não é o caso da edição da Penguin. A capa tem uma arte lindona e o livro tem tradução de Christian Schwartz (o cara é manjão, vejam o “currículo” ).

O livro é composto, em suas mais de 400 páginas, das seguintes seções:

  • Introdução da Penguin
  • Introdução de Maurice Hindle
  • Introdução da Autora Mary Shelley para a terceira edição.
  • Prefácio da Autora, presente na primeira edição
  • A Obra Completa, atualizada e revisada, dividida em 3 livros.
  • Posfácio (todo engraçadinho) de Ruy Castro
  • Apêndice I – Cotejo entre as duas primeiras edições e essa terceira
  • Apêndice II – Um Fragmento, de Lord Byron
  • Apêndice III – O Vampiro: Um Conto, de Polidori
  • Notas
  • Cronologia
  • Sugestão de leituras complementares

Muita coisa, né? As introduções de Hindle (um verdadeiro estudo sobre a obra e a autora) e de Shelley (que dá preciosas informações sobre a obra, a inspiração e tudo o mais) são primorosas e nos preparam para a história que vem a seguir.

Quanto à obra, todos já conhecem a premissa (um cientista tenta e consegue reanimar um cadáver utilizando a energia elétrica de raios durante uma tempestade). Portanto, cortarei qualquer introdução desnecessária e partirei de cara para alguns pontos interessantes. Primeiramente, é um romance gótico no sentido mais clássico do termo. Ou seja, o horror dramático e insuportável se faz presente o tempo todo, apresenta aquela linguagem rebuscada e cheia de floreios, herdada do romantismo, o lirismo está presente demasiadamente em cada página, e há também descrições de lugares belíssimos, de castelos medievais a montanhas cobertas de neve e chalés à margem de lagos. O lado bom disso é que a leitura se torna um deleite, dá prazer passar os olhos por cada descrição, e pelos conflitos internos e externos de cada personagem. O lado ruim (ou nem tanto) é que a história muitas vezes enrola e sai do foco por algumas páginas – mas sempre volta com tudo.

A menção do nome Frankenstein remete sempre ao monstro, à criatura. Na obra, Frankenstein é o sobrenome de Victor, o cientista que criou o monstro. Já o monstro não tem um nome próprio. É chamado de demônio, aberração, criatura e vários outros nomes condizentes com seu aspecto físico horrendo. Porém, há algo incrivelmente significativo em pensar que o monstro se chama Frankenstein. Pois, afinal, a criatura é uma obra do cientista, um filho de Frankenstein e, durante a leitura, os tormentos e aflições de ambos se mesclam quando lemos seus relatos. Ao mencionar isso, parto para outra curiosidade. O monstro do livro não tem retardo mental, como muitos filmes e a cultura pop em geral teimam em mostrar. Ele é inteligente, tem um vocabulário mais rico que o seu, e é um ser sensível (no sentido de sentir, não no sentido de ser delicadinho). O humor da criatura varia entre arroubos de paixão, compaixão e empatia e pura raiva assassina – como qualquer ser humano, afinal, mas sem um filtro moral muito forte que seja capaz de frear suas atitudes.

Eu já havia visto algumas adaptações cinematográficas e lido algumas versões adaptadas ao público juvenil (inclusive a versão de Ruy Castro), então posso dizer, com sinceridade, que foi uma surpresa saber que a criatura era inteligente. Grande parte do livro, aliás, é dedicada aos seus relatos em primeira pessoa. Sobre as adaptações, mais uma curiosidade: ao pensar em Frankenstein, vem à mente aquele ser enorme, de cabeça quadradona com franja, pele toda costurada e dois parafusos/elétrodos, um em cada lado do pescoço. Essa imagem não existe no livro. Isso mesmo. O monstro que você sempre imagina, na verdade, é Boris Karloff (imagem abaixo), na adaptação feita para o cinema por James Whale em 1931. A descrição presente na literatura se limita a isso:

Sua pele amarela mal cobria o relevo dos músculos e das artérias que jaziam por baixo; seus cabelos eram corridos e de um negro lustroso; seus dentes eram alvos como pérolas. Todas essas exuberâncias, porém, não  formavam senão um contraste horrível com seus olhos desmaiados, quase da mesma cor acinzentada das órbitas onde se cravavam, e com a pele encarquilhada e os lábios negros e retos.

Uma última passagem interessante que merece menção: Frankenstein cogita e quase finaliza uma criatura feminina que pudesse fazer par com o monstrengo. Porquê isso não acontece, não direi. Mas é um fato que a maioria das adaptações não cita.

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O conflito central se dá entre o cientista e sua criação. Victor Frankenstein não sabe o que fazer com a aberração da natureza que criou. Matar? Ajudar? Amar? Odiar? Nem a própria criatura, sem passado ou perspectiva de futuro, sabe o que fazer consigo. E aí entra a primazia da obra. Mary Shelley era filha de Mary Wollstonecraft, uma das primeiras feministas e ativistas políticas da história, e William Godwin, jornalista, filósofo e político, tido como uma das figuras mais importantes e influentes de sua época. Como se pode imaginar, a educação de Mary Shelley foi excepcional. Aos 19 anos, idade com que escreveu o livro, a garota já conhecia muita, muita coisa mesmo sobre política, filosofia e literatura. Era uma tremenda intelectual. Essas referências perpassam por toda a obra. Milton, Goethe, Coleridge, Ariosto, La Fontaine e Plutarco são somente alguns dos nomes usados. O conflito principal do livro não se resume ao físico, presente nas adaptações cinematográficas. É ético e existencial. Muitas páginas são dedicadas a reflexões nesse sentido.

O criador é comparado, como fica claro no título, a Prometeu, e sofre consequências tão fatais quanto o ser mitológico que presenteou a humanidade com o fogo. Já a criatura se compara a Adão e Lúcifer, primeiros de seu tipo e, como eles, também sofre por isso. Portanto, repito aqui o que foi dito lá no segundo parágrafo: você não conhece Frankenstein. A menos que tenha lido essa versão original, é claro. Para se ter uma ideia, o final é bem diferente de todas as adaptações cinematográficas que vi. Não prosseguirei com spoilers. Descubra Frankenstein. Leia!

Após um engraçado e curioso posfácio escrito por Ruy Castro, o primeiro apêndice nos mostra diferenças significativas e detalhadas entre as duas primeiras edições e essa final, revisada por Shelley. Os dois apêndices seguintes, compostos por um conto cada, merecem atenção.

Você sabia que Frankenstein e O Vampiro literários nasceram na mesma noite e no mesmo local? Durante uma viagem, Mary Shelley e seus acompanhantes (o marido e poeta Percy Shelley, mais Lord Byron, Claire e Polidori, respectivamente a amante e o médico amigo de Byron), passaram seguidas noites confinados em uma cabana às margens do belíssimo lago Lèman, impossibilitados de sair para um passeio ao ar livre por causa do clima hostil – tempestades ininterruptas assolavam o local. Dedicaram, portanto, seu tempo recluso a leituras de obras de terror – em moda na época. Então Byron teve uma ideia e, segundo se conta, disse: “cada um de nós vai escrever um conto de terror“. Após algumas horas, Byron surgiu com “Um Fragmento“, segundo apêndice presente nessa versão de Frankenstein. Polidori, Claire e Percy Shelley desistiram da ideia. Porém, algum tempo depois, inspirado pelo “Fragmento” de Byron, Polidori foi além e escreveu o que é considerado uma das primeiras histórias literárias sobre vampiros do ocidente e inspiração para Drácula, criado décadas depois: o conto Um Vampiro – presente aqui na íntegra, como último apêndice. Mary Shelley esboçou Frankenstein naquela noite, mas levou mais 3 anos até completar a obra. É incrível ter o resultado de uma noitada literária histórica em mãos e, pelo que eu saiba, essa é a primeira vez que essas histórias foram reunidas em um só volume.

Conclusão: Trata-se de uma obra impecável. Fisicamente, não tem nenhum tratamento especial ou luxuoso, mas isso é um detalhe irrelevante em relação ao conteúdo. É um clássico de quase 200 anos esperando para ser redescoberto em sua versão original e recheada de extras. É leitura obrigatória para qualquer fã de ficção científica e terror, para qualquer fã de literatura de qualidade.

P.s.: há várias adaptações, mas eu não poderia deixar de indicar uma específica e inusitada (e em minha opinião, a melhor): O  Jovem Frankenstein (Young Frankestein), de 1974, feita por Mel Brooks, com Gene Wilder no papel do neto de Victor Frankestein e Peter Boyle no papel do monstro. É uma paródia, mas é umas das obras mais engraçadas que já tive o prazer de ver.


nota-5


frankenstein mary shellen penguin companhiaTítulo original: FRANKENSTEIN, OR, THE MODERN PROMETHEUS

Tradução de Christian Schwartz

424 páginas

13 x 20 cm

Brochura

Lançado em 09/09/2015

Penguin Companhia

Onde comprar: FnacSaraiva | Submarino

2 thoughts on “[ESPECIAL NGF] “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” de Mary Shelley (Resenha)

  1. Olá! Eu li finalmente o livro este ano e me surpreendi positivamente. O original é infinitamente superior a qualquer adaptação que já vi, justamente pela figura atormentada do Doutor, muito gótico em suas falas também.
    Outro dia estava passando na tv a cabo uma adaptação de 2004 com Alec Newman como Victor Frankenstein. No elenco também tem o Donald Sutherland como o professor da universidade que Victor frequenta. Só vi a primeira parte da minissérie, mas pelo que pude ver, está bastante fiel ao livro.

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