[ESPECIAL NGF] Filho Feito Sem Pecado – Folclore Brasileiro – “Meu filho Tomé, que muito me é…”

Conta-se que em lugar perdido do mundo, mas achado por Deus, ou talvez pelo próprio demônio, para que fosse palco de triste história, ocorreu o caso abaixo relatado…

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Uma jovem de nome Maria, muito casta e de família muito religiosa envolveu- se, ainda em seus primeiros respiros de puberdade, com um cabra macho desses que correm o mundo a seduzir mocinhas de doce aroma e tenra carne.

araquc3a9m-03Do envolvimento rápido, Maria teve o fruto da desilusão primeira ao ver o amante deitar cabelo e sumir no mundo sem delongas; e no ventre ficou o fruto sagrado da vida; Maria viu-se grávida após ter acabado de completar apenas 15 primaveras.

A pressão de seus pais, desesperados pela filha “perdida” e pecadora, o medo de que a mocinha acabasse por destruir a própria vida por “um momento de inconsequência” e, mais do que todas as coisas, o medo de que o povo falador acabasse espalhando o deslize da menina, que acabara por dar-se a um qualquer sem “eira nem beira”, como fosse mulher de porta de corruptela, e engravidara do Zé Ninguém sem sequer saber prender o homem que lhe emprenhara… Nem da Santa Virgem teria perdão a jovem, talvez.

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Vencida pela pressão dos grupos de carolas, que acompanhavam sua mãe na Igreja, e que muito mais criticavam as mazelas alheias do que oravam por elas, Maria esperou nascer o bebê, um menino de olhos azuis, entregou-lhe uma medalha de um santo, e sem saber se sentia-se repleta de dor, remorso, alívio ou raiva de todos aqueles que jamais permitiriam ser mãe solteira, Maria entregou o rebento sem nome para a adoção.

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E daquele dia em diante, Maria, a pura jovem que seguira a religiosidade de seus pais, a fé que nunca fora de fato sua, as crenças que jamais lhe tocaram, libertou-se tardiamente e passou a ter voz.

Rebelde, Maria, já não era mais a mocinha que apaixonava-se por um homem que lhe pudesse prometer mundos e fundos e ir embora enganando-a. De um passo dado de uma noite até o dia, com o passo de quem se move como um sentimento e não como o corpo, Maria tornou-se a acolhedora dos mais animalescos sentimentos, os desejos mais profundos da carne, os mais sujos desígnios que seu corpo fresco poderiam satisfazer.

Todos os tortos, famintos, ricos, coronéis, homens com cheiro de colônias francesas ou com odor de suor, belos ou feios, grandes, fracos, fortes, jovens, maduros, sozinhos ou acompanhados, eram agraciados por toda luxúria que a jovem com nome de Santa agora assumira em forma de máscara de Luxúria.

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Já não havia nome para o que fazia Maria com seus múltiplos amantes. Lambuzava-se deles, mesmo que deles não tivesse prazer algum. Fazia-o pelo simples gosto de vingar-se da maldição moralista de não ter tido o direito sagrado de ser mãe. Com os anos, Maria colecionou tantos amantes, que possivelmente nem um homem de sua cidade ou das redondezas não tivesse passado por sua cama, seu sofá, seu chão, seu chuveiro. Maria era a dona dos pensamentos mais quentes de todos os homens das redondezas, ao ponto de muitos se suicidarem por sua frieza em recusá-los. Não queria nada mais do que a relação carnal bruta, crua, úmida… nada mais.

Sua redenção, contudo, veio com a chegada de Miguel à cidade, um rapaz mais novo, ao gosto de seus desejos íntimos, feito ao molde de suas perversões, com o sorriso de perversões que fazia seu corpo já mais maduro, mas ainda belo e atraente, retorcer-se em maculadas vontades. Mas havia algo a mais naquele jovem Miguel. Algo que talvez chamasse atenção em seu jeito de falar, ou a transparência de seus olhos, ou ainda a seriedade de seu olhar, que lhe faziam lembrar de uma época de inocência.

Sem muita dificuldade, Maria e Miguel envolveram-se em uma paixão louca, desenfreada. Das paixões que se dão em concreto em rios, redes, cama, chão, nas areias das praias cheias e desertas… sem pudores, o casal queimava em luxúria.

Logo, tomados por uma louca e inexplicável ligação além de enorme paixão, decidiram casar-se. Afinal, conforme pensava Maria, talvez já fosse o momento de aposentar as roupas e os hábitos de puta e deixar-se ser mulher “decente”.

tuna-loversCasaram-se Maria e Miguel, em um dia em que o céu estava branco, o vento cantava áspero pela secura do sertão, e os poucos convidados para o evento pareciam perturbados em seu âmago pelo “Pata Rachada”. Era como se um “qualquer coisa” não estivesse no seu lugar certo. Ou tudo estivesse onde jamais poderia estar.

Deram-se as bodas, sob as bênçãos todas do padre, que parecia derreter-se em seu suor frio, ainda que o vento permanecesse a cantar seu triste lamento que a tudo parecia petrificar.

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E casados, Miguel e Maria souberam ser felizes como jamais Maria pudera. Já não era mais a mulher que andava de bar em bar sem buscar os delírios do álcool, mas a embebedar-se do suor e dos mais profundos delírios do sexo com homens que não conhecia sequer a face direito.

Era agora uma mulher casada, seria fiel, poderia ser mãe e poderia ser feliz.

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E não tardou, que chegasse ao mundo o filho de nome Tomé, de olhos transparentes e um rosto tão igual ao filho que Maria deixara para trás 20 anos antes, que lhe doía pensar. Mas dessa vez tudo seria diferente. Tomé seria filho amado, criado a leite e mel, sem pisar das pisaduras do castigo que nunca lhe pertenceram, sem sofrer das intempéries do mundo ou das dificuldades da vida.

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Foi só quando, num fatídico dia de fevereiro, o céu pintado do mais obscuro cinza – como se o peso da cor fosse capaz de fazer mesmo o firmamento cair sobre a cabeça dos pobres cristãos que por ali passassem – que, arrepiada, Maria deu-se conta de coisa boba, coisa simples que deixara passar, mas que agora lhe virara o mundo de ponta-cabeça, como faz redemoinho que encontra um bom punhado de areia fina.

No pescoço de Miguel, pendurado por ocasião da festa de aniversário do pai de Maria, estava uma medalha especial, feita em ouro branco. Era a medalha de São Bento, que segundo a crença combatera fortemente os demônios.

Seria apenas uma medalha pendurada em seu pescoço, não fosse pelo nome de Maria marcado toscamente na parte de trás da joia, como forma de manter um vínculo com seu filho quando precisou deixá-lo.

– Onde compraste esta medalha que nunca te vi com ela? – perguntou a mulher.

– Oxente, mulher. Comprei em lugar nenhum, não. Minha mãe disse que, quando me pegou no orfanato, eu já usava essa medalhinha. É minha desde sempre. São Bento, espantador do cramulhão. Se aperreie não, que posso garantir que não foi sirigaita nenhuma que me deu. – respondeu o moço de olhos transparentes, e pôs-se a abotoar a camisa de dias de festa. Distraído que estava em se arrumar, Miguel não notou a mulher passar as mãos no rosto, como se quisesse dele arrancar a própria pele, suprimindo um grito que talvez, se tivesse saído em forma de som esganiçado, rompesse o lacre sanguíneo do desespero que se formava em sua mente atordoada por pensamentos mil que já não lhe acometiam, mas lhe rodavam a mente como uma legião de maus espíritos a zombar de todo seu passado sujo.

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Miguel também não a viu arrastar-se sorrateiramente para fora da casa, mirando o horizonte como se seu único desejo fosse livrar-se dos pensamentos sombrios que a rodeavam, e dos quais ela não sabia escapar. Cada pequena lembrança de cada pequeno pedaço de pecado parecia surgir em sua mente como uma alfinetada. Para quantos homens se dera sem reserva ou pudor algum nos últimos 20 anos de sua vida? Para quantos tinha sido a mais baixa das mulheres, que não tinha tido sequer coragem de cobrar por cada imundície a que se submetera?

Havia, sim, um castigo para cada pecado, e o dela começara até bem antes de que pecasse. E agora se transformara no pior dos castigos.

Como jamais reconhecera aqueles olhos azuis que mais pareciam água límpida? Por que jamais lhe perguntara o passado? Como não reconhecera em Miguel o próprio sorriso pueril em contraste com os cabelos lisos e o olhar de poucos amigos do homem que a engravidara sem sequer deixar a lembrança de seu nome?

Como fora capaz de não ver a medalha, pendurada no mesmo cordão, escrita com o mesmo sinal…

Fora ela a culpada daquilo tudo? Fora ela a culpada de haver consumado conjunção carnal com seu próprio filho? Talvez sim. Talvez estivesse já tão sem princípio algum que pouco lhe importaria quem fosse aquela pessoa, desde que se prestasse a lhe dar algumas horas de prazer.

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E mulher que não presta tem mais é que sofrer como o Judas que entregou o Senhor Cristo pelas 30 moedas de prata.

Maria deu a volta pela parte de trás do quintal nos fundos do casebre em que vivia com o marido que jamais poderia servir-lhe de esposo. Escolheu bem entre as ferramentas maltratadas que tinha à mão: um escavador velho, uma pá de madeira deteriorada, umas três foices que certamente não valiam por uma… todas haviam sido trazidas por Miguel, que trabalhava como peão e não abandonara as ferramentas. Finalmente Maria divisou uma enxada mais nova, de cabo ainda claro, e o aço de mexer a terra ainda limpo e tinindo.

Friamente, a mulher pegou a enxada, deu a volta para entrar novamente no casebre sem sentir o peso da pesadíssima ferramenta. Quando entrou em seu quarto novamente, viu Miguel calçando os sapatos, enquanto cantarolava uma música antiga, trocando versos alegremente.

Tomé estava no berço. Se fosse veloz e certeira, conseguiria não assustar seu pequeno filho.

E assim, se deu: tomada da mais intensa loucura, que lhe transbordava pelos olhos em forma de lágrimas – não de lástima, mas de qualquer outro sentimento que talvez não tenha um nome definido –  a mulher ergueu a enxada sobre sua cabeça, fazendo a descer com força desmedida sobre o pescoço de Miguel segundos antes de o pobre diabo poder sequer entender o sinistro futuro que lhe batia à porta.

O sangue que se espalhou por todos os lados, tingindo do rubro mais profundo os lençóis brancos, não chocou a Mulher. Tampouco os espasmos cadavéricos, sinais finais de que no corpo do belo rapaz um dia residira um espírito.

Sua única preocupação era o pequeno Tomé. Este que talvez fosse seu único ponto de redenção com o mundo.

Mais tarde, havendo acalmado a criança e escondido o defunto, Maria fez suas malas, juntou todas as pequenas coisas que poderiam ter valor – qualquer valor que fosse em sua vida – pronta a partir e recomeçar em outro lugar.

Tomou o pequeno Tomé no colo…

Ia cantarolando, quando os versos vieram, como que soprados por alguém que não ela.

Meu filho Tomé

Que muito me é!

É filho do meu filho,

Irmão do meu marido.

É meu neto e meu cunhado,

Filho feito sem pecado

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Aos leitores, Este é um conto original do folclore brasileiro e trazido (Eu diria decodificado) pelo mestre Câmara Cascudo. Segue abaixo o conto original.

Eu só deixei ele um pouco mais… desgraçado, digamos.

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Luís da Câmara Cascudo – Contos Tradicionais do Brasil para Jovens

O Filho Feito sem Pecado

Uma moça deu à luz uma criança e a mandou educar longe da cidade em que morava, para que ninguém soubesse jamais de sua culpa. O menino cresceu, fez-se homem e veio visitar a cidade, justamente onde sua mãe vivia. O rapaz viu-a, enamorou-se dela e se casou. Meses depois, descansando o marido no colo da mulher, reparou esta numa medalha de ouro, com a efígie de Nossa Senhora da Conceição, lembrança que pusera ao pescoço do filhinho ao separar-se dele. Sentindo-se criminosa e não querendo prolongar aquela união sacrílega, contou sua história ao esposo que era, sem saber, seu filho. Este partiu imediatamente para longe e não mais enviou notícias.

Depois nascia um filho, batizado com o nome de Tomé, e a mãe anunciou dar um grande prêmio a quem decifrasse o enigma que apresentaria. Não acertando, pagariam uma multa. A mulher educou seu filho como um príncipe, foi muito feliz e morreu rica, porque ninguém conseguiu decifrar o enigma que era assim:

Meu filho Tomé

Que muito me é!

É filho do meu filho,

Irmão do meu marido.

É meu neto e meu cunhado,

Filho feito sem pecado!

Contado por Luísa Freire,

Em Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte.