[ESPECIAL NGF] “Cosmonauta Cosmo” de Damasceno e Garrocho (resenha)

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Três detalhes chamam atenção assim que pegamos e folheamos Cosmonauta Cosmo! de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho:

  1. O formato horizontal das páginas;
  2. A textura macia e agradável ao toque da capa, que parece aconchegar-se nas mãos. É realmente gostoso segurá-lo durante a leitura.
  3. As cores suaves usadas por Damasceno e Garrocho, que transmitem uma atmosfera de manhãs ensolaradas e desenhos animados vistos pelos olhos de uma criança.

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Cosmonauta Cosmo! parte de uma premissa parecida com a de O Pequeno Príncipe, com uma diferença fundamental: aqui é uma criança terráquea que parte numa aventura exploratória pelo universo. Seu objetivo? Ter um amigo.

Semelhante ao Pequeno Príncipe, Cosmo visita diferentes planetas onde conhece seres distintos com os quais aprende algumas lições. Ao contrário do que ocorre no livro de Exupéry, os habitantes de cada mundo não são humanos, mas “alienígenas” (as aspas são porque todos eles têm a aparência de animais conhecidos, alguns misturando características de dois ou mais deles). Mas isto não os impede de agir e tomar atitudes bem típicas de seres humanos. Assim, os elementos mais fantasiosos e de ficção científica apenas dão um aspecto mais exótico e colorido para as alegorias de situações bem conhecidas por nós, mas reinterpretadas por bichinhos fofos “alienígenas”, e uma espaçonave com inteligência artificial que parece representar a faceta mais racional da mente de Cosmo (além de funcionar como alívio cômico, com suas falas sarcásticas).

Outro ponto em comum com O Pequeno Príncipe, que interpreto como homenagem, é que Cosmo e Galip se conhecem num deserto, onde precisam sobreviver ao clima seco e inóspito, além de enfrentarem o maior medo do jovem réptil: a noite jamais testemunhada por ele (posto que seu mundo possui 9 sóis, tornando o fenômeno raro).

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Os desenhos da dupla são de um primor e beleza que beiram o estonteante em alguns trechos, quando fazem planos mais abertos que revelam florestas luxuriantes, tornando a leitura uma jornada visualmente linda.

Mas Damasceno e Garrocho não se contentaram em oferecer um belo entretenimento, como também reforçaram noções de companheirismo, coragem, desapego de bens materiais, além de abordar de maneira leve a questão do preconceito baseado em aparências. Em Cosmonauta um gigante monstruoso pode se revelar um animal tão dócil e companheiro quanto um cãozinho de estimação.

Além de uma jornada de aprendizado, Cosmo ainda precisa passar por uma jornada introspectiva de autodescoberta, onde tem que despertar em si, a fim de voltar pra casa, as qualidades que ajudou os outros a aflorarem. Neste ponto a dupla parece recitar Exupery – “o essencial é invisível” – e completá-lo, sugerindo que ele também é imaterial, como as memórias das lições aprendidas com os amigos que fizemos.

Embora seja uma trama leve e divertida, a dupla criativa soube espalhar por ela referências e homenagens discretas. Por exemplo, o sobrenome de Cosmo é Nemo, que remete tanto ao Capitão Nemo do clássico Vinte Mil Léguas Submarinos de Júlio Verne, quanto a Little Nemo in Slumberland, obra-prima em quadrinhos de Winsor McCay que influenciou gerações inteiras de quadrinistas, cujo protagonista vivia toda noite uma aventura diferente quando ia pra “Terra da Soneca” assim que adormecia. Não foi a toa que Neil Gaiman homenageou o personagem num arco de Sandman, por exemplo.

Cosmonauta Cosmo! é uma história leve, cheia de personagens adoráveis, lições valorosas, e capaz de agradar crianças e adultos ainda jovens de coração, como um certo aviador que também sonhava com os mistérios do universo pensando nos segredos da alma humana.


nota-5


cosmonauta-cosmo-damasceno-garrocho-quadrinhos-rasosEDITORA MIGUILIM

2013

BROCHURA

21 x 30 cm

112 páginas

Onde comprar: Livraria Cultura